“Gedeon, tem uma pessoa aqui procurando por você”, gritou o segurança da oficina. “Quem é?” – “Ele disse que é seu pai”.  Gedeon levou um susto, ficou pálido. Não era possível, tudo que sabia do pai era o que sua mãe lhe dissera a vida toda. Tinha saído para comprar cigarros num domingo a noite e simplesmente desapareceu. Acreditava que o pai tivesse morrido. Ficou sem reação por alguns segundos e por fim disse. “Não pode ser, meu pai morreu, deve ser algum engano, mande embora”. O segurança voltou logo depois dizendo: Ele disse que você está  enganado, e melhor você vir resolver”. – “Tá bom falo com ele daqui a vinte minutos quando sair para o almoço”.  O rapaz almoçava num restaurante a kilo duas quadras abaixo da oficina. Quando saía o homem veio ao seu encontro. “Gedeon Carlos Siqueira é você?” perguntou ao se aproximar  embora já soubesse que era. “Sim, sou eu” respondeu o rapaz e já emendando: “que história é esta de dizer que é meu pai? Eu não te conheço, e meu pai morreu há muitos anos”. – “É,  o que todos pensam, mas é uma longa história que gostaria muito de te contar”. Gedeon pensou em manda-lo à merda. Que conversa fiada era aquela? Mas, alguma coisa o deteve  e ele disse ao estranho: “OK, volte as cinco e meia, quando saio do serviço e ai você me conta”.  Não conseguiu trabalhar direito aquela tarde. Lembrou que a mãe, falecida há dois anos, não gostava de falar daquilo. Sempre encerrava rapidamente o assunto dizendo: “ele está morto e pronto”.  Ao final do dia foram para um pequeno bar perto da oficina, Gedeon pediu uma cerveja e dois copos, serviu e disse: “estou ouvindo, pode contar”. O homem tomou o primeiro gole da cerveja e começou seu relato: “Sou Eurípedes Costa Siqueira, e sou realmente seu pai. Abandonei você e sua mãe quando você tinha três anos. Pressionado por dívidas e por ameaças de agiotas não vi outra alternativa a não ser fugir. Tinha que pagar uma alta quantia naquela segunda feira e não tinha o dinheiro, então no domingo  segui para a rodoviária e comprei uma passagem para Rondônia de onde pretendia avisar sua mãe e assim que encontrasse trabalho mandaria buscar vocês. Não quis deixar pistas, aquele pessoal era muito perigoso e ameaçavam me matar. Aquele era meu prazo final. Fui covarde é verdade, mas não vi outra saída. Dois meses depois, Já trabalhando numa draga de ouro no rio Madeira, entrei em contato com sua mãe através de ligações para a casa de um amigo comum. Ela descartou de saída a possibilidade de vocês irem para aquele “fim de mundo” nas palavras dela. Não levaria o filho para ser criado naquele ambiente selvagem. Insisti por quase um ano, mas ela não mudou de idéia. Assumi então que ela não me amava mais, pois se amasse teria encarado o desafio. Aí o tempo foi se encarregando de atenuar e esmaecer os fatos. Fui ficando, não tive coragem de voltar, tinha medo dos meus perseguidores. O tempo foi passando, me afeiçoei a outra mulher e me acomodei. Tive dois filhos que vivem em Ji-Paraná e cuidam das propriedades que adquiri por lá. Eles sabem de sua existência e cobram com frequência conhecer o irmão”.  Gedeon ouvia calado, pensativo, quis interferir algumas vezes, interpelar o pai por nunca ter vindo vê-lo, saber como estava, se precisava de algum apoio. Só silêncio em todos estes anos. Mas não quis tornar a situação mais difícil do que já estava. O homem continuava sua narrativa: “Nunca me perdoei por abandona-los, e por ter sido tão covarde,  é uma dívida que tenho com o passado.  Soube da morte de sua mãe, e desde então venho me cobrando a iniciativa de procura-lo, finalmente reuni coragem suficiente para enfrentar esse momento. As coisas do passado eu não posso mais apagar mas queria pessoalmente te pedir que me perdoasse, e que de agora em diante pudéssemos estar juntos pelo resto de vida que ainda tenho pela frente. Gostaria de reuni-lo a seus irmãos e que voltássemos a ser uma família”. Gedeon estava estupefato. Nunca imaginara um encontro como aquele. Até ali não tinha mágoas do pai por pensa-lo morto. Sabia que sua mãe nunca deixara de ama-lo pois nunca tentou refazer sua vida. Agora depois de saber a verdade sentiu que se avolumava uma avalanche de ressentimentos e mágoas ameaçando invadir o seu coração. Tinha então dois caminhos: Perdoava verdadeiramente o pai e colocava uma pedra no passado, ou passaria a sofrer  e a se martirizar  por males retroativos. Escolheu o caminho do perdão. Com os olhos marejados levantou-se e abraçou o pai, amparado pelo pensamento de que o seu perdão teria que ser integral e sem condicionantes, senão não seria perdão.

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