Uma noite dessas fui ao Teatro Goiânia assistir a um concerto de um pianista de renome internacional. São raras a oportunidade de assistir a esse tipo de espetáculo por aqui, mas sempre que tem procuro prestigiar. Estava marcado para as oito da noite. Cheguei uns dez minutos mais cedo, comprei o ingresso e entrei naquele teatro bonito, mas ainda quase vazio. No horário previsto o pianista deu uma passada pelo palco olhando para a platéia que ainda era pequena. Ele chegou no horário, mas o público não. Foi chegando gente até mais ou menos quarenta minutos depois da hora marcada. O Palco também não estava arrumado, faltava ajustarem o som, a iluminação. Finalmente já eram quase nove quanto anunciaram a entrada do nobre concertista. Ele esperou acabarem as palmas e disse: “me perguntaram ali no camarim se é a primeira vez que venho a esta cidade. Respondi que não, mas é a última. É um desrespeito com o artista e com as pessoas que chegaram no horário. Isso não se faz. Vou tocar em respeito ao acordo comercial, mas isso simplesmente não se faz”. Aí foi a vez do educadíssimo público retribuir-lhe as palavras com uma estrepitosa vaia. – Então fiquei pensando “porque vaia-lo? Ele esta coberto de razão. Não pude evitar a comparação que faço a seguir. Morei fora do Brasil por algum tempo, num desses países do dito primeiro mundo, embora o mundo seja um só. Uma das coisas que mais me marcou, foi o sentimento de respeito com o direito dos outros. Respeito aos compromissos, aos horários, às obrigações. Se um encontro ou uma reunião é marcado para as nove, acontece as nove, quem chegar atrasado  terá que passar pelo constrangimento de pedir desculpas. Se uma pessoa não pode comparecer a um compromisso, tem a decência de avisar por telefone ou qualquer outro meio, não deixa o outro lá plantado esperando. Os espetáculos culturais começam no horário marcado e não se permite que os retardatários entrem para não atrapalhar o andamento. Respeitam-se as filas, as prioridades dos idosos. Durante o tempo que estive lá, discuti em várias ocasiões  sobre as diferenças de comportamento dos nossos povos. Eu era polidamente consolado pela explicação que nós também chegaríamos lá no futuro. Que a realidade deles seria o nosso futuro, que assim que melhorássemos os níveis educacionais nós também chegaríamos ao mesmo estágio. Só que já faz mais de trinta anos, e nada de melhorar por aqui. A educação continua desprestigiada, continuamos desrespeitando a tudo e a todos, e não perdemos a mania de querer levar vantagem em tudo (lei de Gerson). Quando a vaia terminou, e o pianista começou a tocar eu estava completamente envergonhado, e com saudades do “futuro”. Temos fama mundial de divertidos, irreverentes, hospitaleiros. Mas também não passam despercebidos nosso notório desprezo pelo direito das outras pessoas, nem nosso descompromisso com horários. Temos muito ainda a melhorar.

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