O galo cantou as três da madrugada e despertou Gumercindo, dono da fazenda Riachão. O homem revirou-se na cama resmungando “bicho imundo, isso é hora de acordar os outros?”, e aí pronto, não dormiu mais. Uma meia hora depois começou a ouvir barulhos estranhos lá fora. Levantou-se e sem acender a lamparina destramelou a janela com cuidado e espiou para fora. Notou que os barulhos vinham das bandas do  galinheiro. No escuro voltou ao quarto com cuidado para não acordar a mulher, abriu o armário e pegou a espingarda e dois cartuchos. Abriu a porta dos fundos com cuidado pensando que desta vez acertaria contas com a raposa que vinha comendo suas galinhas. Vou dar um tiro no meio daquela carinha lerda dela. Desceu os degraus  da escada e começou a andar em direção ao galinheiro. De repente parou e ficou escutando. Ouvia vozes , alguém dizendo baixinho: “já pegamos quatro, tá bom, estamos demorando muito”. Aí ele caiu na real “são ladrões” pensou. A lua minguante ainda iluminava o suficiente para que ele os visse ao lado do paiol de milho. Apoiou a espingarda na forquilha de um girau e fez uma mira perfeita. Seu dedo indicador direito começou a pressionar o gatilho. Sua consciência entrou em ação e ele pensou: “Saí da cama para matar uma raposa que estava comento minhas galinhas. Agora me deparo com dois homens, fazendo o mesmo papel que a raposa, será que também devo mata-los?”. Ele tinha o direito de defender sua casa e seu patrimônio. Aqueles pilantras estavam em sua propriedade, subtraindo o fruto do seu trabalho. Essa era a essência da coisa. Enquanto mirava, ouviu uma voz no seu ouvido esquerdo: “prega fogo Gumercindo, mate os dois vagabundos” logo em seguida outra voz disse no seu ouvido direito “calma Gumercindo, são só algumas galinhas, duas vidas humanas devem valer mais do que isso você não acha?” e a voz da esquerda insistindo “Atira Gumercindo, larga mão de ser frouxo homem!, vai deixar os caras fugirem?”, e a da direita “Pense bem Gumercindo, não vale as penas literalmente. Amanhã você dá queixa na polícia, deixe a justiça para quem de direito”. Então Gumercindo resolveu seguir o caminho do meio. Inclinou a espingarda e deu um tiro para o alto. No silencio da madrugada o estrondo foi tão forte que ele próprio se assustou, e enquanto caía sentado com o “coice” da espingarda, viu os ladrões sairem em disparada, deixaram as galinhas para trás e desapareceram. Levantou, se recompôs refazendo-se do susto. Enquanto as galinhas voltavam correndo para o poleiro, ouviu a voz aflita de sua mulher; “Gumercindo, cadê você? que tiro foi esse?” O galo repetiu seu canto anunciando que o amanhecer se aproximava. Voltando para a cama, Gumercindo pensou nas vozes que ouviu. Atribuiu a do ouvido esquerdo ao diabo, e a do direito a Deus. Resolveu ficar com a orientação de Deus, pois ele não pediu para ele não atirar, deixou-lhe o livre arbítrio, apenas o pediu para ter calma e refletir na consequência de seus atos. Já o diabo estava muito mandão.

 

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