“Não creio em Deus, nem em religiões, e em nenhuma  destas fantasias criadas para manter o homem sob domínio”, dizia seu Oliveira um português nascido em Angola que até parecia se vangloriar disso, pois volta e meia repetia esse mantra. Pertencente à minoria branca daquele país, teve que sair às pressas fugindo da guerra civil que se desencadeou na década de 70, logo após a separação de Portugal. Fugiu com a roupa do corpo. Um helicóptero da cruz vermelha internacional o deixou na embaixada da Bélgica na capital Luanda. Ali ele e outros refugiados receberam salvo-condutos para deixar o País. Como a maior parte de sua família já vivia no Brasil, veio para cá. Segundo ele, tinha visto maldades demais, fome, miséria, sangue correndo em valas, naquela guerra cruel e desumana. Então questionou Deus. Onde estaria ele diante de tanto horror e desumanidade? Seria ele parcial? Capaz de proteger uns e abandonar outros. Não eram todos seus filhos? Ali segundo ele, perdera toda a fé que o acompanhava. Tinha sido católico como seus pais até os trinta anos. Mas agora, se declarava ateu.  –  Estabelecido no Rio de Janeiro desde 1979, tinha uma pequena padaria no bairro de Piedade. Alguns anos depois de sua chegada casara-se com Raimunda também fugitiva da seca no sertão nordestino, mas que nunca perdera a fé em Deus, nem em seu padrinho, o padre Cícero de Juazeiro do Norte a quem pedia intercessão todos os dias. Era bem devota, mas respeitava as opiniões e atitudes do marido. Viviam de maneira modesta mas extremamente honesta. A cada conquista, como a compra de uma casa para morarem, a compra de uma televisão mais moderna, ou qualquer melhoria por pequena que fosse na vida deles. Ela agradecia ao seu padrinho. Já ele dizia: “É pá!, eu é que me ponho a trabalhar quinze horas por dia para conseguir o que temos. e tu com essas crendices atribui tudo a este teu padrinho”. Viviam bem, mas tinham essa importante diferença. Passaram incólumes pelo primeiro, pelo segundo, só no terceiro assalto é que Raimunda foi ferida. Ouvindo vozes alteradas na parte da frente da padaria, exigindo o dinheiro do caixa onde Manuel (Oliveira) estava. Ela veio correndo da parte de trás, trazendo uma pá de madeira com a qual esperava por para correr os pivetes. Mas não eram pivetes, Um dos homens percebeu sua chegada e atirou meio no reflexo. O tiro acertou Raimunda na cabeça e ela tombou entre as prateleiras de mercadoria. O assaltante gritou uma especie de código: “sujou! sujou!” e os dois partiram em disparada. Desesperado, com Raimunda nos braços, Oliveira chamou um taxi e foram para o Hospital. A cirurgia foi feita, agora sua mulher estava na UTI já há duas semanas lutando pela sobrevivência. Sem nada mais a fazer, a não ser esperar, Oliveira deixou o hospital e começou a caminhar sem rumo. Alguma força o levou para igreja da Candelária. Entrou na igreja pela primeira vez em mais de vinte anos, e entrou bravo. A igreja estava quase vazia, ele dirigiu-se ao altar e soltou o verbo: “Que perseguição é essa pá? Já não chega teres permitido que me tirassem tudo que tinha na minha terra. Permitido aquelas horríveis atrocidades que tive que presenciar, e que quase me levaram à loucura. Agora me vens com essa! Queres tirar-me a mulher que amo e que está a meu lado diuturnamente. Agora que estou reconstruindo minha vida com a ajuda dela. Que temos dois filhos para educar. Ora pá! e tu queres me convencer que não és vingativo, que não persegues ninguém. Ora, faça-me o favor! Vim aqui protestar perante a ti, contra essa sequência de desastres que tem me acompanhado. Basta pá! faça alguma coisa. Se não por mim, por ela que tanto te adora”. Feito o desabafo, sentou-se em um banco e ficou em silêncio. Então seu celular tocou, era do Hospital, Raimunda acordara. Levantou-de com lágrimas nos olhos. Agora lágrimas de agradecimento. Recuperou sua fé e saiu dali com um ensinamento. Deus não espera que seus filhos tenham “sangue de barata”,  espera  questionamentos, argumentos, solicitações, isso facilita para que ele atenda os seus pedidos. No entanto não entende e se entristece quando algum filho vira-lhe as costas, mas nem assim desiste dele.

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