Chovia a cântaros, o terreno encharcado tornava a marcha lenta e cansativa. Os policiais estavam a ponto de desistir da perseguição. Um deles disse “Porque não deixamos para amanhã, nesse temporal não vamos encontrar nada”. O tenente que comandava a patrulha simplesmente resmungou,  “em frente, vamos pega-los”. O arrombamento do caixa eletrônico da agência bancária da pequena Torixoréu tinha acontecido por volta da meia noite numa operação envolvendo armamento pesado e explosivos. A perseguição que o destacamento policial da cidade empreendeu contava com o tenente e quatro soldados, e já durava mais de duas horas. perseguiram os ladrões na raquítica viatura da delegacia sem muita esperança de alcança-los. Mas, a sorte favoreceu, o carro dos bandidos caiu numa vala. Sem chance de retira-lo, embrenharam-se na mata mesmo debaixo daquele aguaceiro. Esse era o cenário em que se encontravam. O tenente já grisalho, por volta dos cinquenta e poucos anos, com físico pouco invejável, uma barriga saliente, enxergou ali talvez a última chance para uma promoção antes da aposentadoria. Se resolvesse aquela situação  naquele tempo recorde, não teria como não ser considerado um herói. Provavelmente seria condecorado e quem sabe promovido. O salário de capitão era bem melhor.  Ia pensando em seus ganhos pessoais, e dando ordens “Não esmoreçam, vamos pegar esses vagabundos vivos ou mortos”.  Os relâmpagos ajudavam a clarear o caminho, alguns minutos depois  a chuva diminuiu um pouco e começaram a subir a encosta de um  morro. Fazendo uma pequena pausa para tomar fôlego, um dos soldados avistou a uns duzentos metros uma pequena luz vermelha que aumentava e diminuía de intensidade  a intervalos ritmados. Avisou o tenente e começaram a fazer um semicírculo para surpreender os perseguidos. Um relâmpago mais forte permitiu que avistassem um casebre de camponês numa clareira. O tenente disse em voz baixa: “são eles, estão lá dentro e tem alguém fumando”. Aproximaram-se em silêncio até uns trinta metros da casa e a cercaram. O tenente mirou na luzinha vermelha e disparou o primeiro tiro que entrou pelo olho esquerdo do bandido e espatifou-lhe o crânio. aí foi uma fuzilaria dos diabos. Tiro para tudo que é lado.  Com armamento mais potente os outros quatro bandidos tentaram romper o cerco para continuar a fuga, mas o fator surpresa os desnorteou um pouco, e foram sendo alvejados um a um. O último ainda tentou se render levantando os braços mas também tombou. Saldo: três mortos e dois feridos. Um dos soldados foi mandado de volta para providenciar a remoção dos mortos e dos dois feridos. Chegaram de volta à cidade já com a luz do sol. Uma pequena multidão cercou a cadeia local aos gritos de “mata! mata! – Prevendo um linchamento, o tenente fechou bem as portas e pediu reforço pelo telefone à cidade mais próxima a 40 quilômetros e foi tentar acalmar a massa. Conseguiu contê-los às duras penas ajudado pelo fato de que não tinham matado ninguém, e o dinheiro ter sido recuperado. –  O tenente estava feliz, tinha certeza que seria promovido. No seu entender tinha sido um ato de bravura e uma ação rápida e irretocável. No entanto, na semana seguinte foi chamado à corregedoria que tinha recebido uma representação questionando seus métodos. O sucesso de sua missão tinha sido visto como possível uso de “força excessiva” e desrespeito aos direitos humanos, alegando ainda que os bandidos já estavam encurralados e com um pouco mais paciência e inteligência teriam se rendido. O corregedor ainda o informou que seria afastado de sua função enquanto o processo tramitava e colocado em ações administrativas. Os bandidos feridos foram para o hospital local, e quando tiveram alta foram liberados para esperar o julgamento em liberdade. Adeus promoção! sobrou para o tenente Rosaldo apenas muita revolta e uma única satisfação: a de ter atirado naquela luzinha vermelha. Depois de mais alguns anos foi para a reserva como capitão, mas não com os louros e o reconhecimento  que esperava e sim com o gosto amargo da frustração.

AVP-06/08/2020

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