“Dona Isabel, o Martinho caiu do pé de manga e eu acho que machucou” gritou um menino de cabelo sarará. A senhora de meia idade que lavava roupa em um tanque improvisado na varanda de trás da casa abandonou o que fazia e correu em socorro do filho. Era um garoto de dez anos, loirinho, e bastante levado. Vivia subindo nas árvores, nadando nos açudes das redondezas, e caçando inhambus e codornas nas palhadas onde era cultivado arroz e onde se mostrava hábil no manejo do estilingue. Nesse dia subiu numa mangueira alta para investigar a existência de um ninho de pássaros que suspeitava existir nos galhos mais altos da árvore. Quando já quase alcançava o topo, esbarrou sem querer numa caixa de marimbondos. Tentou desesperadamente descer e para isso abandonou todos os cuidados. Seu negócio era pressa. De repente, pendurou num galho mais fino que não aguentando seu peso  quebrou. Caiu de uma altura de uns cinco metro, e conforme a mãe constatou assim que o viu, quebrara um dos braços Além de ter levado umas dez picadas ou mais dos marimbondos. O vizinho veio ajudar, pegou o menino  no colo e o colocou em uma carroça que passava e rumaram para o único hospital de Caçú na região  sul de Goiás. O médico que estava atendendo era um jovem recém formado, que empalideceu ao ver o braço do menino com uma tortuosidade estranha. Era a primeira vez que ficava sozinho tomando conta do hospital todo. Mais aflito ficou quando percebeu que a criança estava com a respiração cada vez mais difícil. “Que será meu Deus?”, não dava tempo de consultar nenhum livro, tinha que dar uma solução para o caso ali, na bucha. Já tinha lido a respeito de reações alérgicas fatais após picada de abelhas e outros insetos, mas nunca tinha visto um caso assim, ao vivo. A respiração do garoto piorava e foi ficando ruidosa. Resolveu fazer um corticoide sabia que era usado em situações de emergência respiratórias mas não pode fazê-lo porque simplesmente não tinha no hospital. O Garoto começou a arroxear as mãos e os lábios. A enfermeira informou que tinha um médico já aposentado que morava ali próximo ao hospital, e que talvez pudesse ajudar. O jovem doutor não se fez de rogado abriu mão do orgulho e disse: “Mande chama-lo agora”. Quando o  doutor Brito chegou olhou a situação e do alto de seus quase cinquenta anos de medicina, tomou a única atitude que podia. Mandou tirar todos os acompanhantes e estranhos da sala, fechou a porta e disse ao jovem colega: “Rápido, vamos fazer uma traqueostomia, e vamos fazer aqui mesmo, não dá tempo de arrumar o centro cirúrgico”, alguém alertou que não tinha a cânula apropriada. “Então vamos improvisar”. Enquanto higienizava o pescoço do garoto que já estava semi-inconsciente pediu a sonda retal mais fina que tivesse, cortou as duas pontas e ficou com um pequeno tubo de polietileno de mais ou menos uns 4 a 5 centímetros. Fez uma anestesia local no pescoço de Martinho, com o bisturi fez um corte até a traqueia do menino, depois abriu-a e colocou o pequeno tubo pelo corte até o interior da traqueia. Os pulmões se encheram imediatamente, e Martinho passou a respirar pelo tubo. Uma funcionária chegou da farmácia trazendo o corticoide e o doutor administrou no garoto sem se preocupar muito com a dose. “Emergência é emergência” disse ele. Em poucos segundos a cor arroxeada começou a desaparecer e a respiração do menino foi voltando ao normal. Olhando para o jovem plantonista disse:  “Foi um edema de glote, tivemos sorte, providencie a ambulância e o transfira para o hospital de Jataí que tem mais recursos, meu heroísmo termina aqui”. E ainda a completou “Vá junto com ele, se tiver alguma urgência por aqui eu atendo”. No braço nem mexeram, puseram apenas uma tala e atadura. A fratura podia esperar. O doutor Douglas, o novato não discutiu. No caminho para Jataí foi pensando “Aprendi mais nessa meia hora que em um ano de faculdade”. O Doutor Brito ficou pensando:  “O diploma que esses médicos novos estão recebendo, é apenas uma licença para começarem a aprender”. Os dois estavam certos. A quantidade exagerada de faculdades de medicina pelo país, tem levado a uma queda acentuada na qualidade do profissionais que estão saindo. Se não fizerem especialização ficam numa situação muito difícil. A atuação do doutor Brito confirmou que um médico nunca se aposenta. Mesmo que já esteja fora do hospital há muito tempo, sempre pode ser útil. Ninguém esquece tudo o que aprendeu ao longo da vida. – Que sorte hein Martinho?

1 Comentário

  1. Aylton seus textos (crônicas, contos ou o que for) são ricos. Ora se revestem de um humor sadio, ora de uma grande sensibilidade humana, ora de uma sabedoria e tantas coisas mais. Conhecemos muitas histórias tanto como a Dr. Brito como a do Doutor recem-formado. Ate de farmacêuticos que na ausência de médicos, tinham que dazer as vezes de. Na maioria das vezes é, no mínimo, um alento humano em momentos de dor e desespero. A história do Martinho é a história de tantos outros por esse imenso Brasil.

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