A porta se fechou atrás da paciente que  deixou o consultório do doutor Medeiros.  O velho médico acompanhou com os olhos os seus passos lentos e vacilantes e então perdeu-se em seus pensamentos, agradecido pela lição de moral que tomou.  “Ela com quase noventa anos, vinte a mais do que eu, como pode ter essa serenidade na iminência da morte?”  Portadora de uma doença terminal, vinha periodicamente ao seu consultório para avaliação geral, e em busca da receita para os medicamentos que ainda lhe traziam algum alívio. Hoje ela quis conversar, e como era última paciente o doutor deixou que ela falasse o quanto quisesse. Virou conversa de dois amigos, não de médico e paciente. Dona Clarinda discorreu sobre sua vida, sua trajetória como mãe, como avó, e agora como bisavó. Tinha ganhado há 20 dias uma bisnetinha linda. – “Doutor, sei que já não tenho muito tempo, por isso estou abusando de sua paciência para fazer  essa espécie de balanço. Já vivi uma vida longa, e como toda vida longa cheia de altos e baixos. Vivi momentos de extrema felicidade como no meu casamento, no nascimento de cada um dos meus cinco filhos. Tive saúde para acompanhar e orientar o crescimento e a educação deles. Tive tristezas também quando perdi um dos meus bebês com trinta e cinco semanas de gravidez, e o meu marido há nove anos. Foram dores que me fizeram balançar na saúde e na fé. Mas superei, e tudo ficou no passado. Agora estou recebendo de bônus as gerações seguintes. Aprendo e me renovo a cada dia com os meus netos. Me ensinaram a lidar com computador, redes sociais estas coisas modernas que eu nunca pensei que iria alcançar. Falo com minha filha diariamente, ela mora em Turim, na Itália, e vendo a carinha sorridente dela. O senhor já pensou?”. O médico sem dizer uma palavra, apenas concordando com a cabeça,  ouvia pacientemente o seu relato . “Olhe aí na minha ficha doutor. Há quanto tempo sou sua cliente?” – “Vinte e dois anos dona Clarinda” – “Pois é, vinte e dois anos. Já estive aqui dezenas de vezes, sempre com coisas simples, uma gripe, uma dor na coluna, uma vez com pedra na vesícula, fiz a cirurgia por vídeo e fiquei boa. Uma ou outra coisinha a mais, mas tudo simples. Agora já com oitenta e oito anos é que foi me aparecer esse tumor. Está me judiando, é verdade, a dor é muito grande. O senhor mesmo já me indicou um oncologista que propôs fazer quimioterapia. Ora doutor, eu não quero e nem vou fazer. Ainda tenho vaidade, quero levar meus cabelos comigo. Na minha idade esse tratamento só vai me transformar num esqueleto ambulante, e careca ainda por cima. Está decidido, não vou fazer. Quem teve a trajetória de vida que eu tive, tem muito mais a agradecer do que a pedir a Deus. Meu corpo agora já está cansado, já reluta em obedecer minha mente. Isso é um aviso que chegou minha hora. Portanto me prescreva os analgésicos que venho tomando e eu vou embora pegar minha bisnetinha no colo até meu último dia. Não me arrependo de nada, e também não vou pedir mais nada. O Pai é quem sabe. – Doutor Medeiros sentiu seus olhos marejarem. Pegou o receituário, prescreveu conforme o pedido dela e despediu-se dizendo: “Dona Clarinda, que Deus a abençoe sempre e conserve essa sua coragem. É muito raro um ser humano viver com essa clarividência”. Dona Clarinda pegou a receita, beijou a mão do médico e disse: “Obrigado por tudo doutor”, e virou-se para ir embora. Ele ainda não sabia, mas aquela seria sua ultima consulta.

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