Devo ser uma espécie de Benjamin Button (O homem que nasceu velho). Pelo que as coisas vêm mudando, eu já deveria ter me acostumado. Mas não tem jeito. Ainda fico na expectativa de que as crianças e adolescentes esperem os adultos se servirem primeiro na hora da refeição. Hoje não só se antecipam como as vezes argumentam “tio, esse pedaço do frango é meu, escolha outro”. Isso dito por um menino de seis anos sob o olhar complacente dos pais. Devolvi a moela correndo. É meu pedaço favorito há muito mais tempo que dele. mas afinal de contas eu era apenas uma visita. Terminado o jantar, o pai aquele ‘frouxão” convidou as visitas para a sala principal para continuar a conversa. Uns dez minutos depois vem o “docinho” e liga a televisão num volume alto, atrapalhando a conversa. O pai quis mostrar autoridade: “vá assistir no seu quarto, os adultos estão conversando”, quase bati palmas, mas aí veio a resposta: “não vou, a televisão de lá é pequena e eu quero assistir é nessa”. O pai se levantou, e com um sorrisinho amarelo nos convidou de volta para a copa, de onde tínhamos acabado de vir. Aí não deu mais para mim, levantei me despedi e fui embora. Minha casa era a duas quadras, fui caminhando e pensando com meus botões. Há quanto tempo não vejo um adolescente dar lugar a uma senhora no metrô, numa sala de espera. Os jovens vão se agrupando no que chamam de “tribo”, vestem-se de maneira parecida. Umas calças com o gavião perto do joelho, um andar balanceado, e uma língua própria “Ei véi! cê num foi lá cunóis, cê é paia demais véi! – Isso vale até para a conversa entre as meninas. Pode ser até que eu esteja sendo apenas um velho resmungão, mas tenho poucas esperanças de aceitar com naturalidade os modernismos. Tem algumas coisas que já progredi por exemplo: acho meus filhos me chamarem de “você”, traz um certo ar de proximidade e não vejo necessariamente uma quebra de hierarquia. Mas acho estranho um aluno chamar a professora de você ou daquele “tia” as vezes com azar de deboche. A música que ouvem não tem eira nem beira. Muita letra para pouca música, falando de temas importantes, mas de maneira grosseira, agressiva. Fazendo apologia ao ilícito e incentivando o desrespeito e a inversão da ordem e dos valores, sem falar no desprezo pela hierarquia natural na família. Mas são os menos culpados. São produtos de uma sociedade tolerante e permissiva que não entende que clamam incessantemente por atenção e limites. – Tenho tudo para ser revoltado com essa situação, fui criado no tempo da disciplina, respeito e hierarquia. Mas não consigo, esse é o único mundo que temos e adoro viver nele assim mesmo. Mas não posso evitar de ter uma pontinha de saudade do tempo em que pais, professores, e as pessoas idosas eram quase sagrados.

2 Comentários

  1. Acho até que a pandemia deve ter uma função , Ailton ! Os pais que terceirizam os filhos , agora tem que conviver !
    O mundo está muito louco ! Ouço colegas em delírio serem contra as vacinas !
    Hoje uma mãe me Perguntou se eu achava bom ela usar o método charutinho p enrolar o bebê! Tô ficando doida !
    Isto vem a ser enrolar o menino em flanelas como a vó dela fez !

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.