Antonio Vieira Pires, o “Vieirinha”nasceu em chapadão do céu, uma pequena e bela cidadezinha no sudoeste Goiano, onde fica parte do Parque Nacional das Emas. Terceiro filho de uma família de seis. Desde cedo mostrou gosto pelas coisas do campo. Criado na fazenda Monjolo de propriedade do senhor João Goulart pioneiro daquela região, onde seu pai era o capataz. Já aos quinze anos era um “faz tudo” na fazenda. Ajudava na lida com Gado, na lavoura, e tinha uma facilidade muito grande em domar cavalos para montaria. Tinha uma incrível facilidade e raramente um animal o derrubava. Foi criando fama e muita gente vinha de longe trazer animais para ele “amansar” apesar de sua pouca idade. Um dia foi levado a um rodeio e ali de pronto escolheu sua profissão. Perdeu o interesse pelos estudos e investiu no seu sonho. Ao completar dezoito anos, teve uma conversa séria com o pai, que esperava vê-lo sempre por ali continuando o trabalho que desenvolvia a serviço do Patrão. Mas o garoto criou asas. A esta altura já sabia tudo do circuito de grandes rodeios no Brasil. Mudou-se para São Paulo. Na região de Barretos conheceu muitos peões de rodeio profissionais e foi se entrosando no meio. Começou a montar touros e também se destacou nesta modalidade. Aos vinte anos era uma das maiores revelações daquele esporte, e finalmente faria sua estreia na festa de peão de Barretos. Estava ansioso para chegar o mês de agosto, sua apresentação estava marcada para o dia 19. Enquanto esperava pensava no que faria com o prêmio. Era muito dinheiro, seria chance de tirar os pais daquela vida sofrida lá em Goiás. Participou de alguns eventos regionais como treinamento montando cavalos e touros. Sentia-se preparado. Na véspera, hospedou-se com os demais participantes em um hotel nas cercanias do Parque do Peão, e entregou-se à concentração para fazer um bom papel. No dia seguinte ao passar pela entrada dos peões sentiu o clima do espetáculo. Nunca tinha visto aquela arena tão cheia, o barulho era intenso. Sentiu que era o seu dia. No sorteio das montarias coube-lhe montar um touro chamado Lucifer, um gigante de quase uma tonelada. Já estava acostumado àquele mundo de desafios, não se deixou levar por superstições. Cada peão que era anunciado atravessava um pequeno corredor ovacionado pela multidão. Quando chegou sua vez, Vieirinha subiu na lateral do tronco, olhou para baixo e vendo o largo costado de Lucifer teve um lampejo de auto-suficiência e pensou: “hoje você vai conhecer um verdadeiro peão, tamanho não é documento”. Sentou-se no lombo do animal fez os ajustes e afirmou que estava pronto. A porteira se abriu e o touro arrancou com tudo para o centro da arena. Mudava de direção a cada salto, e se contorcia para desconcentrar e desestabilizar o peão. Animal vigoroso e imprevisível, não admitia perder aquela batalha. Após alguns segundos, num violento esforço promoveu um salto colossal, então Vieirinha decolou. Enquanto voava pensou no quanto era ilusória aquela vida, tinha ganhado algum dinheiro, mas não ficara rico. Não tinha se casado ainda, mas já tinha um filho a quem dava assistência. Lembrou-se dos pais lá em Chapadão do Céu, lembrou-se dos amigos de infância. Essa nuvem de saudade em que estava imerso desfez-se abruptamente no choque com o solo. Ali terminaram seus sonhos enquanto o sangue manchava a areia sob o olhar comovido da multidão.

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