Hoje eu acordei com baixo astral. Mas também pudera há seis meses tendo restrito meu direito de ir e vir, e usando uma ridícula fucinheira que dá frouxos de riso aos cães pela cidade. Não sei mais o que fazer. Já vi quase todos os filmes e boa parte das séries na TV. Leio, escrevo tento matar o tempo e me distrair mas todos os recursos já se mostram ineficientes. Sou médico mas por ser do grupo de risco pela idade, estou afastado do trabalho. Então, de maneira sorrateira vai aparecendo uma certa irritabilidade, sensação de frustração. Na verdade eu até saio pouco de casa em tempos normais, mas quando tenho que ficar recluso por imposição de alguém ou de algo, aí eu enlouqueço. Parece que peguei prisão perpétua por um crime que não cometi. Já nem conto as vezes que ao sair de casa para os pequenos trajetos permitidos percebo que esqueci a máscara, tenho que voltar para pega-la pois sem ela não entrarei na farmácia, supermercado, padaria. Até nas igrejas a rotina mudou. Pistolinhas para medir temperatura, banhos de álcool em gel, distanciamento social, tudo isso seria mais tolerável se pudéssemos perceber, aferir, enxergar alguma efetividade, algum benefício. Tudo é teórico e controverso. Orientações desencontradas, pretensos donos da verdade se expressando de maneira enfática desprezando o fato de que também nada entendem, nada sabem, é tudo novo. Estamos todos aprendendo dentro de um gigantesco jogo de tentativas e erros. Enquanto isso vamos participando dessa “mise-en-scène” que visa encobrir a ignorância de uns e incompetência de outros, e que no fundo não passa de uma manobra para ganhar tempo enquanto os gigantes da ciência e da indústria farmacêutica se envolvem em uma frenética disputa para saber quem trará o candeeiro para iluminar a escuridão em que estamos todos imersos. Correndo por fora os políticos como sempre oportunistas, tentando faturar com a politização dos fatos. Enquanto apregoam que estão “salvando vidas” como se tivessem esse condão de divindade estão mesmo de olho nas eleições que se avizinham, e em todas as outras por toda a eternidade.Parece que não vão mudar nunca. Alheio a toda essa balbúrdia e desencontros, o mal segue seu curso sem desvios, indiferente a curvas ou previsões estatísticas. A ciência tem cumprido o seu papel, e dela virá a solução como sempre tem sido. Mas tudo a seu tempo, com segurança e sem atropelos. Enquanto isso a humanidade precisa entender que é natural ter medo da morte. Mas esconder dentro de casa, numa situação de pânico coletivo, não será suficiente para evitar o encontro com ela. Portanto viva a vida, e vamos a ela sem nos deixar levar pelo que dizem os profetas do Apocalipse.

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