É um tema recorrente, mas que tem o poder de indignar de maneira avassaladora aos cidadãos de bem que ainda se pautam pela decência, moral e respeito. Há uns trinta anos atrás transitando por uma estrada no oeste do Paraná, presenciei o capotamento de um caminhão baú carregado de pacotes de açúcar. Na capotagem o baú se abriu, e a carga espalhou-se pela pista e pelo acostamento. Parei imediatamente pois como médico não me omitiria de dar socorro ao motorista, pelo menos até a chegada do resgate. O homem ferido no rosto e meio atordoado tentava sair da cabine. Ainda jovem e ágil subi no caminhão e ao constatar que eram ferimentos leves ajudei-o a sair. Enquanto fazia os primeiros curativos no homem notei que havia se formado uma grande fila de carros no acostamento de ambos os lados da pista, e os ocupantes saqueavam vergonhosamente a carga. Homens mulheres crianças transportando pacotes de açúcar para os porta malas, carrocerias. Pais ordenando aos filhos para voltar e pegar mais. Uma cena para mim inimaginável, se não estivesse vendo com meus próprios olhos teria dificuldade em acreditar. A carga estava espalhada no chão por força de um acidente. Tinha dono, nota fiscal e tudo. Então aquela ação consistia para mim simplesmente num roubo. – Hoje 08/09/2020, vi em um noticiário de TV, a mesma e lamentável cena. Um caminhão baú, carregado com peças de carne bovina tombou na rodovia Regis Bitencourt na altura de Itapecerica da Serra em São Paulo. Desta vez foi ainda pior porque o baú não chegou a abrir foi aberto por um dos saqueadores e imediatamente começaram a retirar a carga de dentro do caminhão. Grupos de pessoas carregando peças inteira de carne num grande esforço, e colocando no porta mala dos carros. Espalhando quartos de boi pela pista e pelo acostamento, ao lado dos quais se postava alguém disposto à briga para evitar que outros levassem sua parte no butim. É de dar nojo esse tipo de atitude. Vi há pouco nas redes sociais, afirmações de que esse é o resultado de uma sociedade sofrida e faminta. Para mim apenas um bando de ladrões se aproveitando de circunstâncias lamentáveis para praticar ações lastimáveis. Famintos coisa nenhuma! Nos dois casos que citei as pessoas desciam dos carros, homens barbados, fortes, bem nutridos, e quem tem carro não se encaixa na categoria de necessitados e nem mesmo esses teriam o direito de fazê-lo. É no mínimo apropriação indébita, ou em palavras mais condizentes, é roubo mesmo. Esse fio de desonestidade presente em boa parte de nossa sociedade e que veio se decantando há séculos, dificulta as ações de combate a corrupção, aos desmandos e à famosa “Lei de Gérson”. Essas ações diminuem a força de qualquer manifestação de apoio aos que tentam restaurar a moralidade no país. A principal reforma que nós brasileiros precisamos além das econômicas e políticas que já estão em curso no congresso, é uma reforma moral. Um exame de consciência, e que cada brasileiro esteja disposto a lavar as nódoas de sua própria conduta. Aí sim, quando todos todos nós nos preocuparmos com nossos deslizes morais e nos livrarmos deles, poderemos ter esperança em um alvissareiro futuro. Isso é trabalho para muitos anos, mas precisa começar com urgência.

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