GRANA FÁCIL…

                       Tourada nunca foi um espetáculo muito frequente no Brasil, mas de vez em quando aparecia alguma. Eram cheias de improvisos e amadorismos, organizadas por pessoas que tinham poucas informações a respeito do assunto. Viam em filmes, ou  revistas e resolviam organizar uma. E, para isso,  sempre conseguiam um patrocinador incauto. Esse era o caso de Mário Porfírio, proprietário de uma loja de tecidos na pequena Aloândia no interior de Goiás. Sendo assediado por vários dias por dois homens que se diziam amigos de seu filho já falecido, Mário resistiu um pouco, mas logo  começou a enxergar ali, a oportunidade de ganhar uma bolada fácil. “Vocês entendem desse negócio?” Perguntou ele ainda meio ressabiado. “Claro, já organizamos várias no interior de São Paulo”. Pronto, falou em São Paulo era coisa séria. A promessa era que ele ficaria com a metade da arrecadação e os outros dois com a outra. Trato feito passaram a organizar a famosa “tourada”. O sistema de auto-falantes da praça começou a divulgar o evento. O prefeito  cedeu uma área da prefeitura para a armação da estrutura necessária. o Caminhão com as lonas e os postes para montagem da arena chegaria em dez dias. A cidade ficou em polvorosa e os ingressos começaram a ser vendidos e tinha várias categorias, até camarote. Mário era entusiasmo só, a arrecadação subindo e ele era só sorrisos. A noticia se espalhou por outros municípios, veio gente de Joviânia, Pontalina, Morrinhos, Buriti Alegre atrás dos ingressos. Foram vendendo mesmo não tendo certeza do número máximo de lugares. Aí o projeto começou a entrar areia.  O tempo passou, o caminhão não chegou com o material. Mário e seus sócios estavam desesperados, então resolveram montar uma arena às pressas, usando postes de madeira fincados em circulo, nos quais foram amarradas peças de tecido da loja de Mario formando um estranho e multicolorido cercado. O público quando viu aquela “armadilha” pressentiu o golpe e começou a fazer barulho e protestar. Os três peões que seriam os “toureiros”, estavam desde cedo no bar do Tonhão, bebendo enquanto esperavam o início da festa. Os touros prometidos por um fazendeiro não apareceram, e mesmo que tivessem vindo, os toureiros já não tinham condições de enfrenta-los, estavam caindo de bêbados. Mário era homem de palavra, foi tirar satisfação com seus sócios, pois queria devolver o dinheiro do público. Mas, eles já tinham batido em retirada, levando todo a renda da bilheteria. Ah, se arrependimento matasse! O prefeito conhecia o  comerciante há anos e para protegê-lo mandou tranca-lo na cadeia até que a multidão enfurecida se acalmasse. Prometeu pagar a todos mas precisava de tempo para ganhar o dinheiro. No período de um ano, foi pagando um a um até acabar. Nunca mais soube dos “sócios”, e também nunca mais se aventurou atrás de dinheiro fácil. Lição aprendida. Não tinha a menor queda para vigarista.

 

A VINGANÇA É PRATO FRIO…

               “Alô, seu carro está pronto, pode vir buscar”, era Aloísio, gerente do lavajato  avisando o freguês. Uns quinze minutos depois entra um homem bem vestido, com um relógio reluzente, sapatos finos, era Mário Bergamotto dono da madeireira do outro lado da rua, veio pegar seu carro, uma BMW preta que reluzia ao sol da manhã. Ao examinar o serviço, reclamou de maneira rude que tinham arranhado o painel com alguma coisa abrasiva, além de ter ficado muito mal lavado. Tentando ponderar que os arranhados já estavam quando o carro entrou, Aloísio propôs lavar-lo novamente na parte da tarde. Furioso, Mário exasperou-se e disse que seu carro nunca mais seria lavado ali, que já tinha sido informado da incompetência e da baixa qualidade dos serviços. Insistiu em levar porque era perto da sua empresa. Mas não voltaria nunca mais. “Vocês têm que aprender a ser profissionais” disse ele. “Mas estou explicando…” , Aloísio tentava falar e foi bruscamente interrompido “Cala a boca, senão te encho de porrada” – O sangue do gerente ferveu, mas pensou no emprego, tinha dois filhos pequenos e apenas disse “O senhor não pode falar comigo assim não”, Aí Mário partiu para a humilhação. “Não posso porque? olha bem para você, além de incompetente é pobre, e vai continuar pobre pois com um atendimento desse”.  Quis sair sem pagar. Diante da objeção de Aloísio, aproximou-se e  dizendo “seu bosta” desferiu-lhe um tapa de mão aberta na cara. Os colegas de trabalho tiveram que conter Aloísio a força enquanto Mario entrava no carro e partia em alta velocidade, quase atropelando um funcionário. Profundamente ferido em seu orgulho, Aloísio passou a ser uma pessoa calada, arredia sentia em sua alma que tinhas contas a acertar, e enquanto não o fizesse não teria paz. –  A madeireira foi vendida e ele nunca mais encontrou aquele “desgraçado”. O tempo foi atenuando  aos poucos aquela angustia que sentia, levou alguns anos até que quase não se lembrava mais.

               Doze anos depois Aloísio usou suas economias e foi com a família para a praia de Atalaia em Aracaju. Caminhando no calçadão, cruzou com um homem gordo de bermudas e chinelos que o cumprimentou com um “bom dia”  e seguiu seu caminho. Alguns minutos depois caiu a ficha “É ele, aquele gordo é ele”, deu alguns passos para trás, mas já não viu mais o homem. Armou-se de uma faca e durante seus dias de permanência voltou todas as manhãs para aquele trecho de praia ficando a espera.  No último dia viu o gordo tomando sol numa espreguiçadeira, aproximou-se devagar, cumprimentou o homem e perguntou calmamente “O senhor se lembra de mim?” O homem olhou bem para ele e disse você é de Petrolina não?” – Sim, eu trabalhava num lavajato em frente a sua empresa” O homem arregalou os olhos quando se lembrou e levantando-se disse “É verdade, tivemos até um entrevero por lá, mas aquilo é coisa do passado não é?” Aloísio sentiu a antiga raiva mais viva que nunca, mas pensando na mulher e nos filhos disse “É, ficou no passado”, deu um passo para trás, virou de costas para se afastar. Mas aquele homem tinha lhe causado muita dor e sofrimento por muito tempo, a fúria foi maior que seu juízo, sacou a faca e virando-se novamente enterrou-a até o cabo no bucho daquele “cachorro sarnento”. Ainda com a faca enfiada no abdome do desafeto proferiu em alto e bom som “SEU BOSTA”. Enquanto Mário Bergamotto tombava, manchando de sangue a areia branca, Aloísio continuou andando pelo calçadão com as mãos ensanguentadas até ser parado pelo polícia. Foi preso em flagrante, mas estava com a alma e a honra lavadas. Essa estória reforça o ditado “Quem bate esquece, que apanha jamais”.

AVP-12/02/2020

A DIETA…

           Cansado de ser chamado de “gordinho do almoxarifado” Waldir resolveu tomar vergonha na cara e procurar um endocrinologista. De agora em diante seguiria à risca o que lhe fosse recomendado para perder peso. Fez os exames e na consulta de retorno recebeu uma prescrição que incluía estatinas para o colesterol, fribratos para os triglicérides, inibidores de apetite e até um ansiolítico pois o médico concluiu que sua gula era produto de ansiedade.  Além disso, foi encaminhado a uma nutricionista para uma reeducação alimentar. Na primeira consulta com a Dra. Nívea, não pôde deixar de notar a beleza e a desenvoltura da moça. Ela fez perguntas sobre sua alimentação, mediu, pesou, avaliou e por fim sorridente sentou-se na sua frente e começou a escrever as orientações. “Vamos inicialmente para a fase de ataque, mais adiante quando você tiver perdido peso suficiente, entraremos na fase de manutenção” disse ela enquanto escrevia três páginas de orientações e regras. O que era permitido, as quantidades, uma relação de itens proibidos, outra com as trocas e substituições possíveis entre os alimentos. Segundo ela, partiriam de uma dieta de 1500 calorias/dia. Não sabendo fazer as contas, pareceu-lhe um número razoável. Chegando em casa passou as recomendações à mulher, pois era ela responsável pelas compras, fez as recomendações pertinentes, nada de frituras, pouco carboidrato e outras “cositas más’. No dia seguinte começou pelo leite desnatado e duas torradas sem manteiga, e partiu para o trabalho levando uma mexerica caso tivesse fome, comeu-a antes de chegar à empresa. Veio almoçar em casa, no refeitório da empresa não teria condições de obedecer ao regime imposto pela Dra. Nívea. Já chegou mal humorado, com uma fome de lobo, mal falou com a mulher e foi direto para a mesa que já estava posta. Ali encontrou salada, carne magra grelhada, inhame e berinjela. Quis reclamar, mas sua mulher já estava com a lista de recomendações da Dra. Nívea, conferindo as porções que ele colocaria no prato.  “Não, não” disse ela, “É um bife só, aqui fala 150 gramas” fumegando de raiva ele lembrava da doutora, “Por traz daquela cara bonitinha, ela quer é me matar, mas eu não vou lhe dar esse prazer”. Antes de voltar ao trabalho a mulher deu-lhe um pequeno embrulho com uma banana, caso sentisse fome. Saiu praguejando e assim que virou a esquina comeu logo a banana. A noite enfrentou o mesmo martírio, a mulher seguia fielmente as recomendações da nutricionista. “Só isso?”  perguntou ele com uma cara de sofrimento que dava dó, a mulher o consolou, “Antes de dormir ter um chá de camomila e duas bolachas de água e sal”.  – “Puta que pariu, será que vou aguentar?” pensou ele. Assim seguiu a rotina, A nutricionista foi caindo no seu conceito já estava pensando e se referindo a ela como “megera”. No quinto dia ao acordar sentia-se fraco, chegando ao banheiro viu as olheiras que haviam se formado em seu rosto, sentiu o estomago conversando com coluna. Subiu na balança, o que até ali tinha evitado para não se desencorajar, já tinha perdido três quilos.  A meta era perder vinte. “Tô ferrado, faltam dezessete!”, pensou ele.  Desceu para o café, e ao ver a caixa de leite desnatado e as duas torradas na mesa não aguentou e explodiu. “Clotilde, venha cá, chega dessa merda” a mulher assustada não sabia o que fazer, estava seguindo a lista.  “Quero ovos mexidos, presunto, pão francês, salsicha, e tudo mais. Quero meu café como antes”. Ela ainda quis argumentar, “Mas, e a lista da doutora?” – “Não quero mais saber daquela bruxa. Por culpa dela estou nessa fraqueza toda, caindo pelas tabelas. O regime acabou.  Entendeu, eu disse ACABOU, podem me chamar de gordo, gordinho, Elefante, Baleia o que quiserem, eu não vou me matar só para emagrecer. Não voltou ao médico, nem a nutricionista, e nunca mais falou em dieta.

AVP-06/02/2020

XÁ CUMIGO!

                  Já na quarta legislatura como deputado federal, aquele homem gordo, pletórico, era simpatia pura. Muito afável e descontraído, tinha uma memória de elefante. Encontrava as pessoas na rua lembrava-se do nome, e da filiação de todos em sua  cidade natal,  que lhe servia de base eleitoral. Tinha como secretária informal a sua mãe, a quem  enviava os eleitores para registrar seus pedidos, e explicar suas necessidades. Não quero aqui inflar o ego de dona Honorina, mas era uma velha de mal com a vida. Carrancuda, ríspida e mal humorada. Despachava a todos  em poucos segundos. O deputado era incapaz de falar “não”. Tudo que era pedido ele ouvia pacientemente, e respondia com um inconfundível  “xá cumigo”, procure dona Honorina que ela anota e eu vou resolvendo na medida do possível”. “Mas deputado, é urgente!” ele geralmente dava um beliscão na barriga do solicitante e repetia “xá cumigo, já falei, vá lá e registre com dona Honorina”. Aí o infeliz já perdia a esperança, mas ainda assim ia lá enfrentar a megera. Com essa manobra ele enganava o eleitorado, ficava com fama de bonzinho, pois era a mãe quem atrapalhava tudo. Muitos diziam “O deputado, prometeu me ajudar, foi a mãe dele que interferiu, velha chata, megera. “Se não fosse aquela bruxa ele tinha resolvido meu problema”. E assim ia sendo eleito a cada quatro anos.

                          Certa feita, estando em dificuldades para credenciar minha clínica junto ao antigo INPS, pois só estava sendo liberado via política. Procurei os deputados do meu estado e solicitei ajuda a todos eles, inclusive da figura em epigrafe, para interferirem a meu favor no Ministério de Previdência e Assistência Social em Brasília. Todos prometeram interferir no processo no sentido de viabiliza-lo. Nosso deputado então me recebeu cordialmente: “Entre doutor, que prazer, como vai o Joaquim e a Odilia (meus pais). Seu cunhado resolveu aquele problema no Incra?”. Passou os primeiros dez minutos da conversa falando de coisas diversas e por fim perguntou “Em que posso ajuda-lo doutor?”  Expliquei-lhe a situação e recebi o velho “xá cumigo”, o ministro Jair é muito meu amigo e emendou: “Fale com dona Honorina, para ela registrar o pedido, mas xá cumigo, xá cumigo”. Saí desanimado, e já conhecendo o esquema, nem perdi meu tempo procurando dona Honorina. Fui embora conformado o que tivesse que acontecer com o meu processo não seria com a ajuda daquele embrulhão. Meses depois foi finalmente aprovado o meu credenciamento. Recebi quatro telegramas de deputados alegando terem sido os autores da façanha, inclusive do próprio. No dele estava escrito “Ministro sensível meu pedido pt. Credenciamento liberado pt. Espero contar seu apoio vg e família, eleições próximas pt”.  Respondi a todos com mesuras e agradecimentos floreados, mas a esse deputado especificamente mandei um telegrama com duas palavras “xá cumigo pt”.  Vá ser cínico assim no raio que o parta.

AVP-31/01/2020

PIMENTA BRAVA

                  Viajando desde as cinco da manhã quando deixaram Brasília rumo a salvador onde passariam o carnaval, o grupo de amigos já estava cansado e faminto. Bráulio, o motorista sugeriu que parassem para almoçar no primeiro restaurante que encontrassem. Pouco antes de Lençóis, na região da Chapada Diamantina,  encontraram um lugarzinho simples mas muito limpo e aconchegante, e ali resolveram almoçar e descansar um pouco. Todos, menos o motorista pediram cerveja e um tira gosto de queijo de cabra.  Logo o cheiro da comida começou a chegar da cozinha, aumentando a fome dos presentes. Tentavam adivinhar os temperos que estavam sendo colocados. Coentro, salsinha, pimenta malagueta, alho, dendê, eram os palpites. Quando chegou a peixada baiana que pediram para todos, alguns se queixaram que estava muito apimentada. Menos Nelsinho, que se dizendo um grande apreciador e conhecedor de pimentas  estava achando até “meio fraco”, na sua opinião poderiam ter colocado mais. O dono do restaurante trouxe um pequeno vidro, que segundo ele era a pimenta mais “brava” daquela região. Nunca ninguém tolerara mais do que três gotas na comida, e ofereceu como desafio ao valentão e entendido Nelsinho.  Olhando o vidro, lendo o rótulo, ele pensava “eu e minha boca grande, agora vou ter que enfrentar”.  Destampou o vidro devagar, cheirou,  e quando tentava pingar algumas gotas no prato caiu uma daquelas vermelhinhas com cara de “venha se tu for macho”. Já meio arrependido mas não querendo voltar atrás Nelsinho esmagou a pimenta e misturou no prato, mexendo bem na esperança que o ardor diluísse.  Então começou a comer rapidamente para acabar logo com aquilo. Depois de umas quatro ou cinco garfadas parou subitamente. A boca semiaberta procurando ar, os olhos arregalados e lacrimejantes. O desconforto na garganta era imenso, ele não conseguia falar, seu rosto vermelho e contraído começou a assustar os presentes. Alguém disse “ele está passando mal”. O dono do restaurante trouxe um copo com água gelada para o desafortunado Nelsinho, que se estrebuchava todo. Depois da água, comeu um pouco de farinha, tomou vinagre puro, e foi fazendo tudo o que os outros diziam que era bom. Assim que melhorou um pouco falou “Mãe de Deus, essa é mesmo das braba”. E todos já mais relaxados caíram na gargalhada. Antes de seguir viagem tiveram que esperar umas duas horas pela recuperação do “apreciador e conhecedor de pimentas”. Nos dias que se seguiram não viram mais Nelsinho reclamar dos temperos. Volta e meia alguém brincava “Vai uma pimentinha aí valentão?. Quando voltavam tiveram que parar no mesmo restaurante, pois ele queria comprar um vidro daquela pimenta. “Vou pegar um cunhado meu que é muito mais papudo que eu”.  É sempre assim, ninguém gosta de ficar com a desgraça sozinho, quer sempre passar para a frente. 

AVP 24/01/2019

POR POUCO…

          O temporal já se anunciava desde o meio da tarde, agora, a noitinha, parecia mais próximo com nuvens negras e ameaçadoras,  mas os dois resolveram continuar a viagem. Estavam a pouco mais de duzentos quilômetros de casa, e com saudades dos filhos. O carro que dirigiam, uma SUV Volvo, tido como resistente e seguro, reforçava a confiança de continuarem a viagem. Partiram do posto de apoio as seis da tarde. A pouco mais de vinte quilômetros encontraram a borrasca. Relâmpagos, ventos fortíssimos, e água que não acabava mais. Os limpadores de parabrisa mesmo no máximo não conseguiam dar condições de visibilidade adequada. Heloisa passou de assustada a aflita e a desesperada em poucos minutos. Vicente quase colava o rosto no vidro dianteiro para enxergar alguma coisa. Por sorte era uma estrada de pouco movimento e conseguiram ir em frente até porque não havia lugar para parar. Já estavam assim há uns quarenta minutos, o esforço para dirigir cansara Vicente. Não podia se desconcentrar da estrada. A água encobria a pista. Subitamente a roda dianteira direita acertou um buraco e o carro se desgovernou. Apesar do grande esforço para controlar o veículo, o homem sentiu a decolagem, o giro no ar, outras decolagens, outros giros, ate pararem com as rodas para cima a uns quarenta metros da pista, totalmente encobertos pelo capim colonião alto que margeava a estrada. Heloisa queixava-se fortes dores na perna direita, mas de resto estava bem. Vicente tinha um corte no rosto que sangrava muito, e uma dor abdominal leve, que julgou ser compressão pelo cinto. Penosos minutos depois conseguiram sair do carro. O Aguaceiro continuava forte. Precisavam com urgência de um abrigo. Procurou o telefone celular e não o encontrou. A bolsa de Heloísa com o dela também tinha desaparecido. Com os olhos melhor acomodados à escuridão, percebeu que a porta do bagageiro  estava aberta.  Com cuidado levantou Heloísa, levou-a de volta para para o carro protegendo-a da chuva, e arrastou-se também para o porta malas. Não tinham o que fazer senão esperar ajuda, que provavelmente só viria com dia claro e depois de passada a chuva. ela chorava baixinho, um pouco pela dor, mas principalmente por arrependimento de ter insistido com o marido para prosseguirem, faltava tão pouco.  estavam encharcados e com frio, mas pelo menos abrigados.

              Incomodado com a demora dos Pais, Felipe o filho mais velho, ligou para os avós, e depois para a polícia e foi orientado a esperar um pouco mais pois deviam estar seguros em algum lugar esperando a tempestade passar disse o policial de plantão. Ligou para o celular do Pai e da mãe várias vezes não obtendo resposta. Não quis incomodar seus irmãos, mas não se conformava. Se fossem parar e passar a noite em algum lugar teriam ligado e avisado. A chuva só parou perto das cinco da manhã, ficando um silencio assustador. Esperavam amanhecer para voltar a estrada e pedir ajuda. Não ouviam barulho de carro nenhum. Heloísa estava quieta apesar da dor na perna ferida. Vicente exausto começou a cochilar quando de súbito ouviram um som abafado de campainha de celular.  “É o meu, disse Heloísa conhecendo a música”. Vicente precipitou-se para fora do carro e começou a seguir o som mas antes de encontrar a bolsa desligaram. Ficou ali imóvel esperando novo contato   que veio meia hora depois. Dessa vez conseguiu chegar a tempo e atendeu ansioso. Era o filho. Enquanto esperavam a ajuda que só chegou umas duas horas depois, Heloísa repetiu muitas vezes ao marido que tinham tido muita sorte, e de agora em diante prestariam mais atenção aos avisos da natureza, e jamais a desafiariam de novo. Lição aprendida.

O CAFAJESTE

             Maria foi pensando pelo caminho nas palavras de conforto que diria a Mirtes, amiga há mais de dez anos, que ficara viúva há duas semanas. Não pôde comparecer ao velório, nem à missa de sétimo dia por motivo de viagem. Lembrava-se o dia em que a amiga se mudou para o seu bairro, a simpatia foi imediata, conversaram por uns vinte minutos ao se cruzarem no supermercado. Maria passou informações úteis para a nova moradora como as melhores escolas, supermercados, farmácias, linhas de ônibus, e se colocou a disposição para ajudar em qualquer coisa. Ficou sabendo que Mirtes e o marido estavam vindo de Cumari, pequena cidade do interior Goiano em busca de melhores escolas para os filhos. Osvaldo, policial civil, tinha conseguido transferência para a Capital, onde esperava ter maiores chances na carreira. Ela era cabeleireira e pretendia montar um pequeno salão em sua casa para ajudar na renda familiar e ao mesmo tempo acompanhar o desenvolvimento dos meninos. E assim foram passando os anos. Maria frequentava o salão da amiga e aos poucos foram se tornando confidentes, quase irmãs. Era um casal normal, carinhosos um com o outro, os meninos eram crianças exemplares, educados, estudiosos, e sobretudo criados com limites, respeitando os mais velhos. Formavam uma família harmônica e feliz. Ao se aproximar da casa da amiga, ouviu risos, e uma música de Amado Batista em alto volume. Começou a ter dúvidas. Devo ter entendido errado. Será que foi o Osvaldo mesmo?  vinha preparada para um encontro triste e com aquele clima pensou em dar meia volta e se informar direito. Mas era tarde, Mirtes já a tinha visto no portão, e saiu para encontra-la. “Entre Maria, venha tomar um café” disse ela dentro de um vestido rosa choque decotado e justo. Maria meio sem graça começou a se justificar “Eu soube de uma notícia, mas pelo jeito é boato”, Mirtes sorriu enquanto dizia “Qual notícia? da morte do Osvaldo?  Não é boato não, é verdade. E vou te dizer, já foi tarde aquele desgraçado, cínico”. Maria atônita parecia não acreditar no que ouvia. “Mas vocês pareciam viver tão bem, não estou entendendo”. Caminharam para dentro de casa, onde a viúva continuou seu relato.    “No começo sim, vivíamos muito bem, mas assim que viemos morar na capital, Osvaldo começou a mudar. Passou a andar em más companhias, frequentar lugares mal afamados, e sobretudo, começou a beber. Descontava suas frustrações em mim e nos meninos. Nunca nos agrediu fisicamente, mas as vezes a agressão moral é mais violenta que a física. Ele cada vez mais ausente, chegava a passar três dias fora de casa”. Maria incrédula interrompeu “Mas eu frequentava seu salão semanalmente e nunca notei nada”  depois de uma longa pausa Mirtes continuou “Eu não deixava as coisas se misturarem. Achava que era problema só meu, e segurava as pontas. Mas o pior amiga, é que no velório apareceram três viúvas, quatro comigo. O safado saiu fazendo filhos por aí e agora o pouco que construimos será divido em muitas partes. Cafajeste, filho da puta. Só não sapateei e dancei um samba em cima de seu caixão porque fiquei com medo de cair na cova. Mas ele que não se iluda, logo vou estar no mercado de novo, e se Deus quiser dessa vez vou arranjar um homem que preste.  Mas agora deixa isso pra lá, aceita um pãozinho de queijo?”.  Maria despediu-se da amiga desejando sorte e foi embora convencida de que as pessoas nunca sabem realmente o que se passa da porta dos lares para dentro.

TEIMOSIA

                  O caminho não é esse disse a mulher com o mapa aberto no colo, você devia ter virado a esquerda. O marido carrancudo e calado só resmungou: “Desde quando você sabe olhar mapa?” , e calou-se novamente. Embora já fizesse uns dez anos que estivera naquele endereço, acreditava que ainda sabia o caminho. E além do mais porque deveria dar ouvidos à mulher, ela gostava de dar palpite em tudo, e não acertava uma. Não se deu conta de que a cidade é dinâmica, cresce muito, e com isso altera a paisagem.  Foi tocando em frente. A mulher conformada fechou o mapa e recolheu-se à indiferença. Uns dez minutos depois, já convencido de que a mulher tinha razão, Cornélio começou a pensar numa saída honrosa, não queria  dar-se por derrotado na frente de Cristina. Então começou a dar voltas antes de retornar ao ponto onde se enganara, para ver se confundia a mulher. Ela ali, calada, só pensando.”Porque os homens são tão teimosos? Qual é o problema de errarem uma vez ou  outra? “. Com um fio de voz sugeriu que parassem e perguntassem num posto de gasolina, ou num bar. Aí sim feriu novamente os brios dele. Homem pode estar perdido há dias, não gosta de perguntar. Vão pensar que sou idiota. Geralmente após muitas tentativas e erros conseguem chegar finalmente ao destino.  Chegaram atrasados para o casamento do sobrinho dele. Até aí tudo bem, Cristina deixou pra lá os muxoxos do marido e foi curtir a festa. Enquanto cumprimentava os presentes, viu Cornélio já com uma grande caneca de Chopp, e quando começava assim bebia até falar pastoso. Precavida resolveu não beber nada de álcool. Dito e feito, ao final da festa vendo que ele não tinha condições de dirigir de volta, aproximou-se e pediu as chaves do carro. “Porquê?, eu dirijo, não bebi tanto assim”. É outra coisa frequente. Homem não gosta de admitir que está bêbado. “Não vou dar chave nenhuma, eu dirijo, o carro é meu, eu dirijo, além disso, sei desviar das blitz”. Ela não estava pensando em blitz nenhuma e sim nas consequências de um eventual acidente. Cansada daquela chatice, a mulher resolveu finalmente reagir. Enfiou-lhe o dedo nas fuças e esbravejou. “Olha aqui seu bêbado irresponsável, você não vai dirigir coisa nenhuma. Se quiser arriscar sua vida, arrisque quando estiver sozinho. Sem beber você quase não achou o caminho, saiu dando voltas e voltas para chegar aqui. Agora bêbado desse jeito nunca vai encontrar o caminho de casa. Abaixe o facho, ou vou chamar a polícia para resolver quem dirige”. Cornélio sentiu o golpe. Nunca vira Cristina brava daquele jeito. Entregou as chaves sem reagir. Ora bolas pensou Cristina, porque será que homem é tão teimoso. “Ô raça!  querem ter razão sempre”. Dirigiu de volta sem problemas, no segundo quarteirão o machão já dormia a sono solto.

A FRONTEIRA

          O plantão na UTI estava movimentado, já passava das três da manhã e eu ainda não tinha dormido um minuto. Elma, a enfermeira chefe veio me comunicar que o paciente do leito doze tinha acordado e estava “brigando” com os aparelhos. Era Roberto voltando do coma quarenta e seis dias depois do acidente. Desliguei o respirador, tirei a cânula e ele voltou a respirar de forma espontânea. No dia seguinte voltei a vê-lo, já tomando uma sopinha por via oral, mas ainda muito fraco. Após examina-lo, constatando sua melhora, sentei a seu lado a seu pedido. Então me contou a seguinte história que produzo em suas próprias palavras:

            (Assustei-me com o barulho da freada, mas não tive tempo de reagir. Senti o impacto que me arremessou para o alto como um boneco de pano. Não senti dor. Ao abrir os olhos devagar, notei que flutuava acima de uma pequena multidão que rodeava um corpo estendido e inerte. Percebi com espanto que o corpo era o meu. Quis falar com as pessoas, mas parece que não me ouviam, todos fixos naquele homem aparentemente morto. Vi do alto, quando os paramédicos chegaram e começaram as manobras de ressuscitação. Percebi então que estava sendo tragado por uma espécie de túnel de luzes multicoloridas, lembrando um caleidoscópio, e comecei a me afastar da cena do acidente. No trajeto tive a impressão de ver minha avó, meu pai, e o primo Tobias, todos já há muito falecidos. Eles tentavam falar comigo, mas eu não conseguia entender, nem acenar de volta.  Cheguei diante de um magnífico portal, guardado por um homem de aparência simples e comum. Aproximando-se o homem me disse “você vai voltar, ainda não é o seu momento” e antes que eu pudesse dizer alguma coisa, o portal, túnel, tudo desapareceu. Ficou só escuridão e frio.

            Quando terminou fez uma longa pausa e perguntou “O senhor acredita nisso doutor?”.  Fiquei sem saber o que dizer. Sendo um homem de ciências, sou mais propenso a acreditar no que posso ver, tocar, provar com evidencias firmes e indiscutíveis. Disse a ele que não acreditava, mas que já ouvira outros relatos parecidos. Com os olhos marejados, Roberto me olhou e disse: “Eu também nunca acreditei doutor, mas agora, depois de ir até a fonteira e voltar, não tenho mais o direito de duvidar”. Voltei para o meu posto pensativo e com uma certeza na mente. A princípio, o homem não acredita em milagres,  até precisar de um.

CÓDIGO DE CONDUTA

                    Eram vinte e oito homens no garimpo de diamantes no município de Guiratinga, pequena e acolhedora cidade de Mato Grosso, na época com  cerca de seis mil habitantes.  Tempo de homens valentes, tanto na disposição para o trabalho, quanto no temperamento. Aquilo era serviço duro. O dia todo com a água pelas canelas,  sob sol inclemente rodando a bateia,  um instrumento redondo parecido com uma peneira, porém sem furos e seu centro tinha um formato ligeiramente cônico. Nela se lavava o cascalho tirado do fundo do rio. Sendo o diamante mais pesado que as pedras comuns, sua tendencia era acumular no centro da bateia. Quando encontrados, eram a alegria dos garimpeiros. Se pequeninos, eram chamados de “xibius” , e era o que a maioria dos garimpeiros pegavam, quando maiores, eram os “bamburros”, esses bem mais raros. Quando se ouvia dizer que fulano tinha “bamburrado”, significava sorte grande, pedra grande. Era de se esperar que num ambiente selvagem daqueles, onde o número de pessoas era menor que o número de armas de fogo, imperasse a lei do cão. Seu Joaquim, já pelos seus oitenta e poucos anos, um remanescente daqueles tempos difíceis, foi quem me contou essa estória. Segundo seu relato, havia ali uma paz entre os garimpeiros e um clima de confiança absoluto. Quem achasse uma pedra grande, valiosa, podia guardar na barraca sem risco de alguém roubar. Essa harmonia só era quebrada quando apareciam mulheres no garimpo. Por aqueles lados haviam alguns grupos de “mariposas” itinerantes, que andavam de garimpo em garimpo levando “alegria e diversão” para aqueles coitados há meses no meio do mato, e claro, eram pagas com pedras, geralmente xibius. Aí rolava pinga a vontade, e logo surgiam desavenças e disputas pelas putas. Mas não havia casos de roubo. A propriedade e a maloca de cada um era inviolável. Tinha uma placa mal escrita na entrada do garimpo “Aqui quem apanhar  o alheio, não volta a montar no arreio“, Era um aviso que ali o roubo não era tolerado. Ainda segundo o relato de seu Joaquim, aquela lei informal não se restringia àquele garimpo, mas a grande parte do estado de Mato Grosso. Bandidos aprontavam em Goiás, Minas Gerais, São paulo e fugiam para outros Estados, mas nunca para Mato Grosso. Pois ali, se fossem pegos, podiam estar certos que comeriam capim pela raiz. A conversa estava ótima, mas seu Joaquim estava com sono e foi dormir.  Os dizeres daquela modesta placa bem que poderia ser estendidos para todo o Brasil. Tem ladrão demais na nossa terra gente! Que bom se pudéssemos fixar aquela placa em cada praça, a começar pela Praça dos  Três Poderes. E melhor ainda se ela fizesse efeito.