Há pouco tempo tive que ir a embaixada americana para obter uma série de informações no departamento comercial. Liguei antes e fui informado que teria que agendar o atendimento. No dia, cheguei uns vinte minutos antes do horário marcado, e deparei ali com uma multidão que lá estava por motivos variados. Seguranças por todos os lados. Respostas ríspidas dos funcionários, gente revoltada, chorando. Então, enquanto esperava comecei a relembrar a primeira vez que ali estive, aos dezoito anos, para pedir um visto de turista para aquele País.

                    Final dos anos 1960. O Local já era o mesmo, mas a divisão de Brasília não era ainda Embaixada, era um Consulado. Desci na estação rodoviária na praça dos três poderes. O sol quase a pino, um calor infernal, a umidade relativa do ar muitíssimo baixa, dava a sensação de clima de deserto. Localizei a Catedral. Sabia por informação de um amigo, que era ali por perto. Caminhei na sua direção e fui descobrindo o quanto é grande aquela praça. Já molhado de suor e às portas daquela obra magistral de Oscar Niemeyer perguntei a um ciclista onde ficava o consulado americano.   O homem simples levantou o chapéu de palha e enxugando o suor com a manga da camisa disse “Não sei direito, mas pode descer por essa avenida mesmo, que logo ali tem algumas bandeiras de países estrangeiros, deve ser por lá. O logo ali que ele disse, era uns dois quilômetros à frente. Enfim cheguei ao local indicado pelo meu informante, e logo identifiquei o consulado. Finalmente, suado, cansado e faminto cheguei ao meu destino. Tinha um policial brasileiro na porta e apenas duas funcionárias. Dona Frida, um pouco mais velha aparentava ser a chefe, e dona Odete que datilografava freneticamente numa máquina Olivetti elétrica, que na época era o que tinha de mais moderno. Eram ambas brasileiras. Me apresentei, e disse o que queria. Dona Frida me disse que o cônsul tinha acabado de sair para o almoço, e voltava as duas da tarde. Pedi permissão para esperar ali mesmo, pois o sol não estava moleza.  Além das funcionárias não tinha mais ninguém e assim permaneceu enquanto estive lá. De repente fiquei sozinho. As duas saíram por uma porta nos fundos da sala. Alguns minutos depois, dona Odete apareceu na porta e me perguntou “Você já almoçou meu jovem?”, eu disse que não e cruzei os dedos por um convite, pois estava sendo torturado pelo cheiro de comida que vinha da sala anexa. Então ouvi aquela voz maravilhosa da qual me lembro até hoje, dizer “vem almoçar com a gente”. Comi salada, prato principal, sobremesa, refrigerante, tudo o que tinha direito, e voltei para meu cantinho no sofá. O Cônsul chegou no horário esperado, mas não cheguei a ver a cara dele. Dona Odete pegou meu passaporte com um único formulário que é o mesmo até hoje, entrou na sala do Consul e em cinco minutos voltou com um visto válido para quatro anos, categoria BI/BII, e me desejou uma boa viagem. Então voltei a enfrentar o sol, agora feliz e aliviado por ter conseguido.

                    Conto essa estória para os meus amigos que frente as dificuldades de hoje para obtenção de visto ou qualquer outra coisa naquela Embaixada, acham que é brincadeira. Mas não é, essa foi minha primeira e inesquecível experiência com o meio diplomático americano.

Destaque

ÀS FAVAS

                                                       08/04/2017

            Sempre tive ao longo da vida, uma autocensura muito acentuada. Nunca consegui conviver com a hipótese de parecer ridículo ou inconveniente, seja do meu próprio ponto de vista, ou de terceiros. Acredito que isso tenha sido o meu “calcanhar de Aquiles” , tenho vários outros mas talvez tenha sido o mais importante.  Tive uma coleção imensa de medos e receios. Fui me desvencilhando de alguns ao longo do tempo, outros permaneceram até hoje. Ah! Como era difícil chamar uma moça para dançar. Será que minha roupa está condizente com a festa? Será que ela tem namorado? E se ela disser NÃO, vou ficar com uma cara de idiota. Não, não tenho coragem, melhor tomar mais uma caipirinha. Quando a coragem chegava eu já estava eufórico ou bêbado e aí Pimba!!! , Ia lá e falava coisas imbecis e as vezes inconvenientes e o Não vinha com mais veemência (Problema superado quando enfim num lance de sorte me casei).  –  Tinha pavor de falar em público. Vou gaguejar, vou perder o raciocínio, vão me achar despreparado etc. etc. isso embora eu fosse muitas vezes o mais preparado entre todos. Fazer perguntas na aula  era um terror. De antemão já me sentia sendo julgado  por toda a classe. Que pergunta idiota, esse cara  é um burro!!! (superado com o tempo) – Até para comprar tinha dificuldades, se o vendedor me mostrasse muitas opções eu já ficava sem jeito de sair sem comprar nenhuma. Para vender alguma coisa também não era diferente. Ficava com vergonha de dar o preço. Vão achar muito caro e não vão querer, e aí eu sempre vendia por menos do que pretendia (superado com o tempo).  Enfim, intercalando fases melhores e piores vivi asses meus 65 anos. Sempre preocupado com a opinião dos outros. Hoje olhando para trás não creio que fosse só timidez. Era burrice mesmo. Poderia continuar narrando muitas outras situações, mas todas com o mesmo  perfil.

             Como antes tarde do que nunca. Resolvi que pelo resto da minha vida vou mudar radicalmente de atitude. Não vou me importar mais com a opinião de ninguém a menos que venha para me aprimorar. Críticas pura e simples, sobretudo as que nada constroem ficam agora no passado.

             Já me surpreendo fazendo coisas que me pareciam inadmissíveis. Que não “ combinavam”  com a minha personalidade. Vou para a piscina do prédio na segunda feira, levando um jornal e uma cerveja sem me preocupar se os vizinhos vão me considerar um preguiçoso.  Ouço as músicas que quero sem me preocupar se vão achar brega e assim por diante.

As favas a opinião alheia.  Estou adorando essa fase de liberdade.

 

GANHOU MAS NÃO LEVOU…

           O Jogo do bicho, é uma bolsa de apostas ilegais criada em 1892 no Rio de janeiro, baseado em 25 números cada um representando um animal. Não tenho certeza se em alguma época foi legalizado. Hoje embora ilegal, existem pequenas bancas nas esquinas das cidades, onde se pode “fazer uma fezinha” abertamente. Já houveram tempos de repressão dura, porém hoje as autoridades policiais fazem vista grossa, talvez por terem problemas mais sérios para resolver. O delegado Cirilo era,  ele próprio, adepto de arriscar um palpitezinho. Interpretava seus sonhos todas as manhãs, e se neles aparecesse algum bicho mandava o agente Felício fazer o jogo, pois não podia aparecer. Sonhei com uma borboleta, Felício  jogava na borboleta, com elefante, Felício cravava no elefante. Sonhei com um peão montado num cavalo, tocando um touro para cruzar com a vaca do Dr. Abelardo. Felício corria e registrava um “terno” onde figuravam os três animais. Tinham várias maneiras de apostar, a centena e a milhar eram as que davam mais retorno. Volta e meia o delegado acertava mas seus prêmios eram pequenos devido a modalidade de suas apostas. Tinham um grau de dificuldade baixo por isso pagavam pouco. Tratou de  informar-se melhor e um dia resolveu aplicar uma quantia maior na milhar do galo, que era o símbolo do seu time, campeão estadual. Encarregou Felício de jogar dois mil na milhar 1249  (galo) que naquele dia pagava cem vezes o valor da aposta. O agente fez o jogo e foi para casa pois o delegado tinha viajado  e ele não teria o que fazer na delegacia sem o chefe. Voltando de viagem, o delegado  já sabia o resultado, tinha dado o número 1249 na cabeça. Cadê o Felício? Ninguém sabia. Procurou o cambista que tinha feito o jogo, e soube que ele passara por ali na véspera e foram à banca onde recebeu o dinheiro através de transferência bancária. Aflito Cirilo procurou saber para onde tinham mandado a grana. Alegaram que era confidencial, sigilo bancário. Mesmo sendo policial não pôde rastrear o dinheiro pois teria que se expor pedindo autorização judicial para quebra do sigilo bancário de Felício. “Ele não pode ter feito isso comigo. Onde é que fica a ética?” disse o delegado a alguns assessores de confiança. Ninguém sabia do paradeiro de Felício.  Cirilo demorou a conformar-se com o acontecido. Tinha sido passado para trás pelo amigo. Descobriu do jeito mais doloroso que o dinheiro corrompe a grande maioria dos homens. Independente de sua origem. Anos depois, soube notícias do “amigo”. Estava em Rondônia, onde se tornara um comerciante de sucesso. Pensou em ir atrás, mas não  valia a pena, era dinheiro de contravenção. Aposentou como delegado, e nunca mais jogou no bicho. Compreendeu o ditado  “Dinheiro de incauto é matula de malandro”.

LEMBRANÇAS BOAS…

             Há quase trinta anos não voltava lá. Em companhia de meu irmão, saímos do asfalto e nos dirigimos pela velha estrada de chão em direção a fazenda, onde passamos boa parte de nossa infância. De longe a avistamos no fundo de um bonito vale.  Aproximamos devagar enquanto as lembranças afloravam. A fazenda hoje arrendada para estranhos, ainda conservava muito das características originais. A velha casa estava lá, com pouquíssimas modificações. Apresentações feitas ao novo caseiro começamos a circular pela propriedade. Parecia que estávamos no túnel do tempo. Entrei pela casa ouvindo a voz de minha mãe cantando “meu primeiro amor”, e espremendo queijos com as mãos. o rego d’água foi desviado, mas a velha bica ainda indicava a direção do monjolo. As árvores do quintal estavam lá majestosas. Mangueiras, abacateiros, e um pé de tamarindo plantado por meu Pai. O bambuzal foi arrancado, talvez pela sua expansão espontânea e desordenada. A velha represa, parecia parada no tempo, do mesmo jeito.  Instalações como currais, cocheiras, tronco para o manejo do gado, feitas com aroeira resistiram ao tempo e continuavam em uso. Ao percorre-las meu irmão e eu fomos apontando os lugares de nossas “grandes façanhas”. Ali você caiu do filho da Salamanca disse eu, (fazíamos às escondidas pequenos rodeios montando nos bezerros), ele concordou e revidou  “Nesse piquete você foi derrubado pelo Yucatan”, um touro da raça indiana Gyr, eu já nem me lembrava, e passamos umas duas horas ali, revivendo mentalmente nossas aventuras. Éramos cinco irmãos, alguns tios e primos de grata lembrança, alguns deles já não estão entre nós. Quando dizem que recordar é viver estou plenamente de acordo. Debrucei-me sobre a cerca do curral ouvindo as ordens de meu Pai:  “Corre, cerca lá, deixa de ser mole”. Homem durão era meu velho, mas muito amoroso. Terminado o passeio entramos novamente naquele túnel que nos trouxe de volta a realidade tão dura de hoje, agradecidos por termos vivido aquele tempo mágico onde tínhamos soluções imaginárias para tudo. É sempre bom quando podemos reabrir  as gavetas de nossa alma, e escolher coisas boas e edificantes para recordar. Percebo sem sombra de dúvidas, que muito do que sou hoje foi moldado na vivência daquele feliz e inesquecível período da minha vida. Acho que a maioria das pessoas pensam de maneira parecida. Estou errado?

POSSE DE ARMAS…

          Dona Mirtes fechou a porta da frente e saiu caminhando devagar pela rua de paralelepípedo, em direção à farmácia. Ia com cuidado para não tropeçar, afinal 75 anos já pesavam bastante. A manhã estava ensolarada e bonita. Distraída pensando na artrite, artrose, bursite. No pigarro, na tosse, na faringite e outros males, não percebeu a aproximação da moto.  Rápido com quem rouba, o motoqueiro enfiou a mão pela alça da bolsa e puxou com força ao mesmo tempo que acelerava. A alça rompeu-se mas o impacto levou dona Mirtes ao chão.  Ajudada por transeuntes, enquanto se levantava ainda avistou o o ladrão antes que se perdesse no transito. Então pensou que se estivesse portando uma arma, ela não teria sido de nenhuma ajuda, pois estaria na bolsa. Fez um boletim de ocorrência na delegacia mais próxima e voltou para casa humilhada por ter sido vítima naquela idade de um malfeitor provavelmente jovem, e sem ter a menor idéia de como fazer para se defender.

                Uns dois anos depois viu no noticiário da TV, que o novo presidente era a favor da liberação de armas para a população. Tinha em casa uma arma de seu falecido marido, na qual nunca tinha tocado. Abriu o pequeno baú de madeira e examinou com cuidado. Pensou em procurar um stand de tiro para ter algum treinamento pois nada entendia de armas. Não se sabe se fez isso ou não. Algum tempo  depois, foi acordada por ruídos suspeitos na fechadura, e passos em volta da casa. A princípio congelou de medo, então lembrou-se da arma e foi tomada de uma súbita coragem. O bauzinho agora ficava ao alcance da mão. Empunhou a pistola e ficou vigiando a porta. Percebeu que a fechadura estava sendo forçada, e não teve dúvidas, disparou duas vezes perfurando a porta de madeira. Ouviram-se passos em disparada e o barulho de um carro se afastando.  Não acertou, e o bandido fugiu. Tentou dormir novamente, mas estava muito agitada, com adrenalina a mil. Ouviu batidas na porta, era uma patrulha policial chamada pelos vizinhos. Após ouvir a narração de dona Mirtes, o sargento perguntou “A senhora tem registro dessa arma?” a velha senhora não esperava que a preocupação do policial fosse com a arma, e sim com o ladrão. “Não sei” respondeu ela. Então, o sargento apreendeu a pistola, e preencheu um papel  onde solicitava a presença de dona Mirtes na delegacia na manhã seguinte, para ser interrogada por tentativa de homicídio, e porte ilegal de arma. Indignada ela lembrou-se do Presidente. “Ele está coberto. de razão, todo cidadão deve ter o direito de se defender e de defender sua casa”. Daquele momento em diante passou a ser defensora intransigente do projeto de flexibilização da posse de armas.

HAMBURGUER SÓ É MUITO POUCO…

                É marcante o apoio de mais da metade da população ao novo governo empossado em primeiro de janeiro último. As agendas implementadas as duras penas nas diversas áreas da administração vão aos poucos avançando apesar de alguns contratempos impostos pela oposição, e pela parte menos informada da população. No entanto algumas atitudes pessoais do Presidente, mesmo estando dentro de suas prerrogativas, não tem ajudado, e tem sido motivo de controvérsias e insatisfação tanto da classe política quanto dos brasileiros que acompanham o desenrolar dos fatos com mais atenção e interesse. A mais recente diz espeito a nomeação de seu filho para embaixador nos Estados Unidos. Caso não seja apenas rumor, isso levará a uma sensação de desprestígio no meio diplomático brasileiro, onde com certeza existem excelentes candidatos. Isso só já seria desconfortável. Além disso, poderá ser considerada nepotismo, conforme já se manifestaram alguns ministros da suprema corte. Um embaixador precisa ter larga experiencia no campo diplomático, saber negociar, exigir, ceder quando necessário. Uma embaixada é um pequeno pedaço do território brasileiro, no exterior, regido pelas nossas leis. Seu ocupante precisa ter um vasto conhecimento de todas as peculiaridades do país. É verdade que já foram nomeadas pessoas que não preenchiam esse requisito. Muitos eram apenas políticos, e isso nunca foi a melhor solução. Se a proposta do novo governo é passar o Brasil a limpo, então é preciso nomear pessoas preparadas e técnicos para todos os cargos, conforme promessa de campanha. Não se trata de questionar a expertise e inteligência do filho do presidente. Mas convenhamos, ter feito intercambio estudantil, falar inglês, e ter preparado hamburgers naquele país, pode ser importante para o seu currículo pessoal. No entanto é muito pouco para qualifica-lo para a função de embaixador sobretudo num país da importância dos Estados Unidos no cenário mundial, independente de afagos e elogios do presidente americano.  Caso se confirme essa nomeação, haverá um significativo desgaste pelo qual o presidente não precisaria passar. As coisas precisam ser levadas mais a sério no Brasil. Uma atitude dessas criará um constrangimento que não precisamos e muito menos merecemos. Embora o indicado seja um parlamentar bastante promissor, é só isso por enquanto, um parlamentar. Falta-lhe experiencia e jogo de cintura, tão necessários a um embaixador.

 

MÃE NÃO SE ENTREGA…

           O menino subia a rua todas as manhãs. A mando da mãe, costureira, ia comprar aviamentos no armarinho do seu Eliseu. Caminho conhecido, não passava de uns oitocentos metros. Certo dia desapareceu. Não voltou para casa e ninguém viu nada suspeito. Apavorada Rute ligou para a polícia que após os primeiros levantamentos não encontrou pista relevante que pudesse levar a solução do caso. Seu Eliseu afirmou que entregara ao garoto o que constava no bilhete da mãe, e enquanto anotava na caderneta de “fiado” ele se despediu e saiu da loja. O delegado disse que iriam continuar procurando, mas o mais certo é que alguém faria contato, devia ter se perdido pelo bairro, alguém o encontraria e telefonaria avisando. E se tiver sido sequestrado? perguntou um Vivinho? Ainda assim farão contato respondeu o delegado. O que mais intrigava era que o menino já tinha doze anos, era esperto, conhecia as redondezas, e estava orientado a não parar para conversar com estranhos. Rute se sobressaltava a cada toque do telefone. Já se passara um dia inteiro e nada de contato. Impaciente ligava para a delegacia a cada meia hora. Nada, nenhuma pista. Estava desesperada, com aquela demora. Aguentou mais vinte e quatro horas, sem dormir um minuto, e então  resolveu. “Se a polícia não vai, eu vou procurar meu filho”. Refez o caminho do menino naquela manhã, conversou com vizinhos, interrogou seu Eliseu novamente não obtendo nenhum progresso, ninguém dava notícias de seu filho. Andou pelas cidades próximas com fotos do menino, passava pelas emissoras de rádio, televisão pedindo apoio em sua busca sem obter progresso algum. Abandonou sua clientela de costura e dedicou-se exclusivamente ao trabalho de busca. Já estava agora há três anos procurando. Começou a desanimar e aceitar que o garoto talvez estivesse morto. A polícia havia desistido depois de seis meses, acrescentando mais um,  aos já numerosos casos de desaparecimento não resolvidos. Um dia, com pesar, resolveu encerrar sua busca e entregar para Deus. Chegando em casa, tomou coragem e começou a desmontar o quarto do filho, onde nunca mais tinha entrado desde que ele se fora. Queria doar suas roupas e seus poucos pertences, livros, chuteiras, bola, uma raquete de ping-pong que comprara para ele em São Paulo. Ficaria apenas com a lembrança de seu rosto e de seu sorriso. Folheando seus cadernos Rute leu uma frase de uma redação que o filho fizera sobre “Profissões”, em que terminava afirmando “quando crescer quero ser mágico, e trabalhar num grande circo”.  Passou então a flertar com a ideia de que o filho não estaria morto, mas teria fugido para se juntar a algum circo. Passou os dois anos seguintes, vasculhando os circos pelo Brasil afora. Fora informada que na mesma época um circo havia se instalado numa cidade próxima. Levantou o nome, mas logo veio a decepção. Tinha fechado as portas. Não desistiu continuou procurando por mágicos, assistentes de mágico em todos os circos de que tinha notícia.  Estava muito cansada, decidiu que aquele seria o último, não podia passar o resto da vida buscando talvez um fantasma. Informada pelo proprietário de que ali não haviam mágicos, virou-se para ir embora quando viu um rapaz de costas tratando dos animais. O instinto de mãe a fez parar e chamar pelo nome do filho. O rapaz se virou, era o seu menino.

ESQUERDA SIM SENHOR…

             Felipe desligou o telefone e foi atrás da mãe, estava fulo da vida. “Verinha ligou e a senhora falou que eu não podia atender porque estava estudando?”. A mãe regando algumas plantas no jardim olhou e disse com calma “Falei sim, e acho que ela também deveria estar estudando. Vocês não querem passar no vestibular?”.  O filho deu meia volta resmungando, não aceitava mais a interferência da mãe em seus interesses, principalmente se metendo entre ele e a namorada. Seus pais estavam separados há seis anos. Sentia falta da figura paterna.  Com a mãe não conseguia debater os assuntos de seu interesse, e tinha certeza de que ela sempre queria subjuga-lo. Se sentia diminuído em ter que discutir seus problemas com uma mulher. Afinal, aos dezessete anos já se sentia um homem, com ideias e conceitos próprios. Como a maioria dos jovens era reacionário, de esquerda. Admirador de Marx, Engels, Gramsci, sem nunca ter lido um livro sequer desses autores. Tinha ídolos mais recentes também, Che Guevara, Fidel, Mao, Kim Jong un.  O sistema capitalista é uma aberração, baseado na exploração dos pobres pelos ricos, dizia ele. Luto pelo socialismo para colocar as coisas no lugar.  No cursinho, sentava no fundão no meio de “revoltados”, viciados, e desnorteados.  Enfim passou no vestibular de Geografia, licenciatura plena. Queria bacharelado, mas mudou de ideia na última hora. Aí caiu num terreno fértil, entrou para o DCE, onde predominava o extremismo político. Em pouco tempo aproximou-se de partidos políticos da esquerda radical. A mãe nunca desistiu dele. Continuou criticando, reclamando, mas sempre ao lado do filho. Tentou convencê-lo a levar a vida mais a sério. Trabalhar por exemplo. A simples menção dessa palavra deixava Felipe arrepiado. Um belo dia disse à mãe que iria se casar. Silvia tomou um susto e reagiu dizendo ao filho que ele não conseguia sustentar a si próprio, quanto mais uma família. Pois Felipe se casou. Apareceu um dia com Verinha a tira colo. Vamos morar aqui até conseguirmos um lugar. Também prestes a se formar em relações internacionais, Verinha pensava em fazer uma pós-graduação em “conflitos tribais na África”, assim seria fácil entrar no mercado de trabalho.   Silvia não viu outra saída a não ser aceitar. Afinal, Felipe era seu único filho. Sua casa que já era pequena, encolheu mais ainda com a chegada dos dois primeiros netos (Gêmeos). A situação perdura até hoje. Felipe já passa dos quarenta, vive às custas da mãe que continua tendo que ouvir que “A burguesia fede”. Trabalhar que é bom? Jamais.

DESPEDIDA…

        O garoto chorava de fome. Tinha uns quatro anos de idade. Susana, a mãe observa impotente. Quisera ainda ter leite em seus seios para alimentar  os filhos. Eram quatro, em idades decrescentes, todos ali, no chão do barraco, e apesar dos desfavores da vida os outros três dormiam. Já era alta madrugada, seu companheiro não tardaria, e com sorte traria comida, produto dos assaltos da noite. Não assaltava no morro, tinha um código de honra que impedia. Malandro tinha que sair paras “trabalhar” lá embaixo, no asfalto. Tinha que tirar dos bacanas. O morro estava quieto até demais naquela noite. Apurou os ouvidos, nada, não ouviu os ansiados passos do companheiro.  Teve um mau pressentimento. Ouviu ao longe o canto de um pássaro noturno, um curiango talvez. Bicho de mau agouro, vá de retro satanás!  Quantas vezes já estivera naquela situação? nem dava mais para contar. Juntara os trapos com Miguel, há seis anos. Ele trabalhava numa fábrica em Belford Roxo, ganhava pouco mas recebia todo mês certinho. Com a crise econômica a fábrica fechou. Estava desempregado há mais de ano. Como a boca dos filhos não espera resolveu como último recurso tentar aquele indigno caminho. E como vinha tendo um “retorno” razoável, parou de procurar trabalho e acomodou-se na senda do crime. Susana inquietou-se novamente, o silencio era pesado e a assustava. Abriu de mansinho a porta do barraco e deu dois passos para fora observando a subida.  ficou ali por algum tempo, e quando se virou para entrar novamente, soou o primeiro disparo. “Fuzil” Pensou ela entrando em casa. Localizou os filhos no escuro, todos estavam deitados. A fuzilaria aumentou, e o corre corre no morro se tornou intenso. “Acertaram o Lôcha” , gritou alguém. “O Vivinho está morto!” outra voz se fez ouvir. O cenário de guerra se prolongou por mais de uma hora. Quando cessaram os tiros, Susana voltou a conferir os filhos. Todos estavam  bem. Suas preocupações se voltaram para Miguel e sentiu um forte calafrio. Abriu novamente a porta e misturou-se a outros moradores  que também conferiam os estragos. De repente seu coração quase parou. Tinha alguém caído próximo ao último lance de escada. Foi chegando de vagar ao mesmo tempo em que reconhecia o cadáver. Era o seu homem. Segurava ainda na mão  um embrulho de supermercado  que continha pão e sardinhas. Não era muito, mas foi tudo o que conseguiu naquela noite de despedida. Quem o teria matado? A polícia ou quadrilhas  rivais? Já não importava mais, Teria que seguir só em sua caminhada. 

O DILEMA…

        Estou diante de um dilema difícil de resolver, sobre minha dieta. Fui surpreendido há  três anos com taxas de glicemia em torno de 150, o que significa diabetes. Procurei um colega endocrinologista que fez as recomendações de praxe. Reduzir drasticamente o consumo de açúcar e carboidratos, sobretudo pães, e massas. Passou hipoglicemiantes orais, e recomendou exercícios físicos diários, o que aliás faço desde jovem. Somando-se a isso carrego comigo há décadas  outra doença chamada de hiperuricemia, ou gota úrica, cujo principal fator de causa é a ingestão excessiva de proteínas. As restrições dietéticas para esse mal incluem a redução ou abolição de carne vermelha, leite, leguminosas (feijão, grão de bico, lentilha)  e  bebida alcoólica principalmente o vinho. Tive ao longo da vida alguns episódios de trombofilia, que leva a problemas com a coagulação sanguínea, resultando nas tromboses. Para essa condição as recomendações são para evitar o consumo de vegetais que contenham vitamina K (folhas em geral), e o uso contínuo de anticoagulantes. Então façamos um apanhado da situação.

             Sou um homem de sessenta e oito anos, que em função de indicadores laboratoriais precisa evitar comer: Carne vermelha,  vísceras, arroz, pizza, macarrão, leguminosas, alface, rúcula. Recomendam também que me afaste dos vinhos (minha bebida predileta), de vários tipos de frutas, e das sobremesas, essas últimas me pesam muito pois sou praticamente uma formiga. Avaliando tudo, vejo que a primeira decisão a tomar é escolher entre “VIVER” e “DURAR”.  Se seguir todas as recomendações direitinho, talvez dure bem mais. Se me despreocupar um pouco, fazer o que for possível sem abrir mão totalmente dos prazeres da boa mesa e da vida é possível que viva bem mais, embora durando menos. Cumprindo todas as exigências dietéticas,  só vai me sobrar ovo, tomate e pouquíssima coisa mais. Portanto resolvi seguir o caminho do meio. Tomarei as medicações, e reduzirei a ingestão dos ítens proibidos, porém sem paranóia, e sem escravidão a índices e taxas laboratoriais.  talvez Assim consiga viver com alegria e despreocupação, até acabar a gasolina do tanque. Ressalto que apesar de ser médico, esse não é um comportamento que recomendo, é apenas o que pretendo seguir. Cada um com seus medos, incertezas e também com suas escolhas.

ENTRANDO NUMA FRIA…

               Olhando Marina trabalhar parecia fácil. Eram dezenas de pequenas luzes que se acendiam no painel, sincronizadas com um barulho estridente cuja frequência exigia um certo tempo para adaptação. Ela tinha uma desenvoltura admirável e sendo telefonista há muito tempo dominava com maestria aqueles controles. Nas pausas de minhas funções adorava conversar com ela e admirar a rapidez e precisão com que manuseava o seu PABX. Tornamo-nos bons amigos. Vendo aproximarem suas férias, perguntou se eu não poderia substitui-la. Ponderei que não era uma função adequada para homem. Exigia atenção , concentração e um sincronismo raramente vistos no sexo masculino. Ignorando minhas recusas, ela passou a ensinar-me com uma paciência e dedicação que enfraqueceram meus argumentos. Em pouco tempo estava apto a operar aquele aparelho. Marina se sentindo segura por ter treinado um substituto entrou de férias e viajou.

           Na segunda cheguei cedo, e me posicionei para enfrentar o novo desafio. Liguei o PABX e comecei a atendera as primeiras chamadas. Estava indo até bem, apenas alguns pequenos enganos sem consequências. Lá pelo meio da manhã começou a configurar a desgraça. Uma voz feminina pediu para falar com o diretor comercial, Seu Leandro. Pensando tratar-se de uma cliente, respondi que ele não tinha chegado ainda. “Como?, não chegou? Ele disse que teria uma reunião as sete e meia”. Me ocorreu então que deveria ser a esposa dele. Marina teria tirado de letra, conhecia todas as vozes e situações de risco. Saberia que todas as segundas e quintas Seu Leandro armava aquela reunião, passava no apartamento de Celeste, um piteuzinho de quem pagava as despesas, e só depois vinha para a empresa. Com aquele abacaxi para descascar, raciocinei rapidamente e tentando parecer seguro pois a gagueira estava me traindo, disse que a reunião era no escritório de de um cliente. “Qual cliente?” perguntou ela já com a voz irritada. Disse que não sabia, mas assim que ele chegasse eu daria o recado. Ela desligou abruptamente e sem dizer mais nada. Mais ou menos uma hora depois voltou a ligar. Nesse intervalo deve ter ligado para os clientes da empresa onde achava que possivelmente seu marido poderia estar. Mulher é mulher. Olhei para a sala da diretoria e vi seu Leandro em sua mesa, então, sem avisa-lo passei diretamente a ligação. Ao atender, pôs-se imediatamente de pé e a gesticular freneticamente. Pensei, o pau quebrou. Alguns minutos depois, desligou o telefone e me chamou em sua sala. “O que você está fazendo no PABX?”. Meio sem jeito respondi que Marina estava de férias e tinha me treinado para substitui-la. “Treinou? como assim, treinou? ligue as linhas diretas e caia fora de lá. Aquilo não é serviço para homem, muito menos para um Palerma”. Nesse momento caiu a ficha. Percebi que Marina tinha me treinado apenas na parte técnica do equipamento. Esquecera de me apresentar ao lado obscuro da função, que provavelmente a mantinha no emprego há tanto tempo (mais de dez anos), e que tanto lhe favorecia por ocasião dos aumentos. Ganhava mais que alguns técnicos e engenheiros da empresa. Em troca organizava, gerenciava, e cuidava da agenda de sem-vergonhices dos diretores. Uma espécie de alcoviteira informal. Era esquiva e eficiente, não permitia que houvesse choques, superposições e sobretudo suspeitas. Ela era fera. Quando voltou de férias narrei o ocorrido. Com uma gargalhada estridente olhou para os dois lados para certificar que não havia ninguém por perto e falou: “Ensino tudo, menos o pulo do gato”. Concentrou-se novamente nas luzinhas que piscavam, e a vida prosseguiu normalmente. Aprendi a lição, hoje sou cego surdo e mudo para o que não me diz respeito e nem fere a ética coletiva.

 

REMORSO…

             Meu primeiro contato com a imprensa foi ainda garoto. Querendo garantir uns trocados para as matinês de domingo fui encontrar meu tio, que na época era linotipista num pequeno jornal no centro de Goiânia. Ele me apresentou para o gerente comercial, e solicitou para mim, uma vaga de Jornaleiro. O homem me olhando de cima em baixo, talvez me achando muito novo para o “importante cargo” disse que quanto tivesse uma vaga me chamaria. Meu tio chegou a noite, e me avisou “você começa amanhã”. Ainda estava escuro quando cheguei a porta do Jornal na manhã seguinte. Ali pelas sete o jornal finalmente saiu do “forno” nas palavras de seu Claret, o gerente. Éramos só meu primo, eu, e mais dois garotos. Chegando minha vez de receber os jornais para a venda, solicitei ao gerente que dobrasse minha quantidade pois eu me achava bom para vender.  Tudo resolvido, saí com uns vinte exemplares debaixo do braço e comecei meu périplo pelas ruas do centro. Na época não existiam as bancas de jornais, somente os jornaleiros o que aumentava meu otimismo. “Vou me dar bem” pensava eu. Em poucos minutos ouvi a primeira chamada “Ei jornaleiro! ”, localizei o homem a uns dois quarteirões e saí correndo com minha incomoda carga.  Aparentando estar com pressa, ele estendeu a mão e pediu “O popular”, eu não tinha. “Folha de Goiás”, eu também não tinha. “Que jornal é esse? ”, Jornal do Dia respondi. “Ah, não quero essa porcaria não”.  Conformado segui meu caminho. “Jornaleiro, jornaleiro! ” Dessa vez era uma senhora na janela de um prédio na Avenida Goiás. “Suba aqui, é no terceiro andar. O elevador está estragado, venha pelas escadas”. Subi esbaforido a escada, e cheguei à porta do apartamento. “O popular”, não tenho. “Folha de Goiás” também não tenho. “Diário do Oeste” também não, minha senhora. “Que raios de jornal é esse? ”  Jornal do Dia, respondi já meio constrangido. “Nunca ouvi falar” disse ela fechando a porta. Eu procurava me consolar e encorajar pensando “Podia ser pior, pois o prédio tem uns dez andares, e ela estava só no terceiro”. Chegando novamente à rua, logo ouvi a terceira, a quarta, a quinta chamadas. Todas com o mesmo desfecho. Pouca gente sabia da existência daquele jornal. Voltei então à redação para desistir. Mas, seu Claret era convincente e com uma conversa de “Cerca Lourenço” me fez voltar para as ruas. Ainda hoje ouço sua voz “Insista menino, não desista, a sorte poderá ser sua”. Saí novamente com o pacote de jornais. De longe avistei meu primo sentado num dos bancos da Praça Cívica. Ele também suarento e desanimado não tinha vendido nada. Tentamos por mais umas duas horas e nada. Voltamos pé ante pé ao jornal, depositamos os exemplares numa cadeira, alguns já amassados e molhados de suor e antes que o gerente nos visse, saímos em desabalada carreira. Alguns meses depois, li em “O Popular”, que o dono do Jornal do Dia tinha se matado. As hipóteses eram variadas, dívidas, motivo passional e outros. Aí me bateu uma pequena ponta de remorso. Será que minha desistência não poderia ter precipitado aquele trágico desfecho?