Há pouco tempo tive que ir a embaixada americana para obter uma série de informações no departamento comercial. Liguei antes e fui informado que teria que agendar o atendimento. No dia, cheguei uns vinte minutos antes do horário marcado, e deparei ali com uma multidão que lá estava por motivos variados. Seguranças por todos os lados. Respostas ríspidas dos funcionários, gente revoltada, chorando. Então, enquanto esperava comecei a relembrar a primeira vez que ali estive, aos dezoito anos, para pedir um visto de turista para aquele País.

                    Final dos anos 1960. O Local já era o mesmo, mas a divisão de Brasília não era ainda Embaixada, era um Consulado. Desci na estação rodoviária na praça dos três poderes. O sol quase a pino, um calor infernal, a umidade relativa do ar muitíssimo baixa, dava a sensação de clima de deserto. Localizei a Catedral. Sabia por informação de um amigo, que era ali por perto. Caminhei na sua direção e fui descobrindo o quanto é grande aquela praça. Já molhado de suor e às portas daquela obra magistral de Oscar Niemeyer perguntei a um ciclista onde ficava o consulado americano.   O homem simples levantou o chapéu de palha e enxugando o suor com a manga da camisa disse “Não sei direito, mas pode descer por essa avenida mesmo, que logo ali tem algumas bandeiras de países estrangeiros, deve ser por lá. O logo ali que ele disse, era uns dois quilômetros à frente. Enfim cheguei ao local indicado pelo meu informante, e logo identifiquei o consulado. Finalmente, suado, cansado e faminto cheguei ao meu destino. Tinha um policial brasileiro na porta e apenas duas funcionárias. Dona Frida, um pouco mais velha aparentava ser a chefe, e dona Odete que datilografava freneticamente numa máquina Olivetti elétrica, que na época era o que tinha de mais moderno. Eram ambas brasileiras. Me apresentei, e disse o que queria. Dona Frida me disse que o cônsul tinha acabado de sair para o almoço, e voltava as duas da tarde. Pedi permissão para esperar ali mesmo, pois o sol não estava moleza.  Além das funcionárias não tinha mais ninguém e assim permaneceu enquanto estive lá. De repente fiquei sozinho. As duas saíram por uma porta nos fundos da sala. Alguns minutos depois, dona Odete apareceu na porta e me perguntou “Você já almoçou meu jovem?”, eu disse que não e cruzei os dedos por um convite, pois estava sendo torturado pelo cheiro de comida que vinha da sala anexa. Então ouvi aquela voz maravilhosa da qual me lembro até hoje, dizer “vem almoçar com a gente”. Comi salada, prato principal, sobremesa, refrigerante, tudo o que tinha direito, e voltei para meu cantinho no sofá. O Cônsul chegou no horário esperado, mas não cheguei a ver a cara dele. Dona Odete pegou meu passaporte com um único formulário que é o mesmo até hoje, entrou na sala do Consul e em cinco minutos voltou com um visto válido para quatro anos, categoria BI/BII, e me desejou uma boa viagem. Então voltei a enfrentar o sol, agora feliz e aliviado por ter conseguido.

                    Conto essa estória para os meus amigos que frente as dificuldades de hoje para obtenção de visto ou qualquer outra coisa naquela Embaixada, acham que é brincadeira. Mas não é, essa foi minha primeira e inesquecível experiência com o meio diplomático americano.

Destaque

ÀS FAVAS

                                                       08/04/2017

            Sempre tive ao longo da vida, uma autocensura muito acentuada. Nunca consegui conviver com a hipótese de parecer ridículo ou inconveniente, seja do meu próprio ponto de vista, ou de terceiros. Acredito que isso tenha sido o meu “calcanhar de Aquiles” , tenho vários outros mas talvez tenha sido o mais importante.  Tive uma coleção imensa de medos e receios. Fui me desvencilhando de alguns ao longo do tempo, outros permaneceram até hoje. Ah! Como era difícil chamar uma moça para dançar. Será que minha roupa está condizente com a festa? Será que ela tem namorado? E se ela disser NÃO, vou ficar com uma cara de idiota. Não, não tenho coragem, melhor tomar mais uma caipirinha. Quando a coragem chegava eu já estava eufórico ou bêbado e aí Pimba!!! , Ia lá e falava coisas imbecis e as vezes inconvenientes e o Não vinha com mais veemência (Problema superado quando enfim num lance de sorte me casei).  –  Tinha pavor de falar em público. Vou gaguejar, vou perder o raciocínio, vão me achar despreparado etc. etc. isso embora eu fosse muitas vezes o mais preparado entre todos. Fazer perguntas na aula  era um terror. De antemão já me sentia sendo julgado  por toda a classe. Que pergunta idiota, esse cara  é um burro!!! (superado com o tempo) – Até para comprar tinha dificuldades, se o vendedor me mostrasse muitas opções eu já ficava sem jeito de sair sem comprar nenhuma. Para vender alguma coisa também não era diferente. Ficava com vergonha de dar o preço. Vão achar muito caro e não vão querer, e aí eu sempre vendia por menos do que pretendia (superado com o tempo).  Enfim, intercalando fases melhores e piores vivi asses meus 65 anos. Sempre preocupado com a opinião dos outros. Hoje olhando para trás não creio que fosse só timidez. Era burrice mesmo. Poderia continuar narrando muitas outras situações, mas todas com o mesmo  perfil.

             Como antes tarde do que nunca. Resolvi que pelo resto da minha vida vou mudar radicalmente de atitude. Não vou me importar mais com a opinião de ninguém a menos que venha para me aprimorar. Críticas pura e simples, sobretudo as que nada constroem ficam agora no passado.

             Já me surpreendo fazendo coisas que me pareciam inadmissíveis. Que não “ combinavam”  com a minha personalidade. Vou para a piscina do prédio na segunda feira, levando um jornal e uma cerveja sem me preocupar se os vizinhos vão me considerar um preguiçoso.  Ouço as músicas que quero sem me preocupar se vão achar brega e assim por diante.

As favas a opinião alheia.  Estou adorando essa fase de liberdade.

 

FOME NÃO ESPERA…

          Com mais de quinze dias de quarentena, resolvi das umas voltas no Parque Areião. Uma pista larga, com cerca de 2.800m, ideal para quem queria tirar as teias de aranha das articulações. Fiquei surpreso ao ver um vendedor de côco trabalhando, com um olho no freguês e outro no carro da polícia que passava. Por decreto do governador, ele não deveria estar ali, e sim em casa. Quando terminei resolvi tomar uma água de côco, me dirigi para a barraca. O vendedor, um homem de vinte e poucos anos, desafiava flagrantemente o decreto governamental. Perguntei a ele a razão de sua postura, e ouvi o seguinte relato: “Olha doutor, tentei obedecer por achar que estava certo. Na televisão se alardeava o terror. Fiquei com medo de me contaminar e levar para minha mulher e minhas filhas. Me preparei, comprei um pouco mais de  mantimentos e outros artigos, e fiquei em casa. Agora ja acabou tudo. Não tenho de onde tirar  meu sustento a não ser como vendedor ambulante. Geladeira e armários vazios me obrigaram a botar a faca nos dentes e desafiar o governo. Veja o senhor. Cheguei aqui as 6:00 da manhã e abri parcialmente a barraca. Temia que a clientela nem fosse aparecer, que estivessem todos confinados em casa. Mas não, tem muita gente saindo para fazer caminhada, compras, e mesmo para dar uma desestressada fora das casas e apartamentos. Tenho medo que a polícia venha e me mande para a casa, mas enquanto não vier vou vendendo. Até agora (10 horas) já vendi uns 80 reais. Já dá para reabastecer parte do que já acabou. Como eu, tem milhares de pessoas na mesma situação. Esse auxilio em dinheiro que o governo está prometendo, nem sei se vou ser habilitado, e nem quando sai. Agora, a fome dos meus filhos é pontual, e tenho que fazer alguma coisa”.  Paguei o côco e fui embora pensando que ele realmente não tinha alternativa. Se tem uma coisa que não espera é a fome, sobretudo das crianças. Não fiz a ele nenhum tipo de censura e nem tinha o direito. Na situação dele eu próprio faria o mesmo. Temos muitos Brasis dentro do Brasil, e alguns deles realmente não vão poder esperar. E não haverá como o governo reprimir isso. Provavelmente amanhã   outros vendedores vão aderir a ele. E porteira que passa um boi, passa uma boiada. A ajuda do governo pode até chegar, mas vai demorar, nesse meio tempo, o instinto de sobrevivência falará mais alto. O vírus que nos desculpe.

DIVÓRCIOS À VISTA…

           Há duas semanas que só saio de casa para o estritamente necessário. Essa reclusão forçada criou uma situação difícil e embaraçosa. Não estou aguentando mais nem olhar para o meu marido. Aquele barrigudo imprestável, deitado no sofá o dia inteiro. Não colabora em nada com a arrumação da casa. Além de não fazer nada, se sente no direito de pedir tudo na mão. “Zilu, me traz um copo d’água”. Ora homem, não vê que estou ocupada. Daí a pouco: “Meu bem, estou com fome”. Meu bem uma ova, tira a bunda do sofá e vá procurar uma fruta. Vá ao supermercado, compre o que achar e pare de me encher o saco.  “Você parece nervosa, o que foi?”. Não sei, já acordei assim. – Não passava tanto tempo com meu marido desde a nossa lua de mel há 30 anos. Geralmente ele levanta cedo, toma um café rápido e vai trabalhar e só volta a noite. Agora, por conta desse bosta desse corona vírus, sou obrigada a aturar esse palerma dentro de casa o dia inteiro. Ele foi o primeiro a dispensar a empregada, dizendo que era arriscado, ela vinha de ônibus. Então sobrou para mim. Estou lavando, passando e cozinhando. Ele vendo televisão, lendo, dormindo, jogando paciência no computador. Se peço para aguar as plantas lá vem ele: “Não tenho tempo agora, estou no meio de um programa legal, depois eu faço isso”. Dá vontade voar no pescoço dele. Vá ser preguiçoso assim na china. Opa, na China não, foi de lá que esse infeliz desse vírus veio. Tento segurar a onda, mas está difícil. A noite, estou morta de cansada, mal aguento assistir um noticiário, falo um boa noite que ele mal responde e saio de fininho para dormir. Aí ele se lembra de desligar a TV, e vem todo cheio de graça: “Querida, vamos partir para as escaramuças do amor?”. Primeiro nunca vi abordagem pior, depois, cansada como estou dispenso Brad Pitt, Richard Gere,  Mel Gibson, quanto mais um simples Augusto barrigudo. não aguento mais, quando isso passar vou pedir “um tempo” para refletir.

Augusto sai do quarto chateado. Qual é a dessa mulher? Não quer mais cumprir suas obrigações de esposa. Todo dia está cansada.  Não aguento mais ver ela zanzando pela casa o dia inteiro, arruma uma coisa, arruma outra, uma varreção de casa que ninguém aguenta. Escreveu não leu está limpando banheiro. Me manda fazer isso, manda fazer aquilo não dá sossego. Vá gostar de serviço doméstico assim na China. Opa, na China não, a culpa desta situação veio de lá, essa porra desse vírus. Nunca tinha reparado o quanto a Zilu é chata. Estamos casados há 30 anos, e tudo estava tão bem. Bastou essa quarentena para eu enxergar os defeitos dela. Se durar muito tempo não vou aguentar, vou pedir “um tempo”, vou dar um freio de arrumação na minha vida. Mulher mandona, chata. 

            Quando o marido ou a mulher decidem pedir um tempo, a vaca já está atolada até as canelas no brejo. Essa quarentena está sendo um teste valioso para os casais. Se terminarem juntos aí é para o resto da vida.

SEMANAS DE SETE DOMINGOS

        Ao me levantar todos os dias, dou uma olhada no tempo, e pelo aspecto semi-deserto da cidade, me convenço que é domingo. Peço ao porteiro para por o jornal no elevador e mandar para mim. Leio, pulando as páginas que falam sobre meu carcereiro, o corona, sobram então umas duas ou três, falando de temas econômicos, sociais, culturais e, os classificados, estes cada vez menores.  Relaxo, ouço o canto dos pássaros, bem mais audíveis no silencio de domingo e me sinto um privilegiado. Sim, porque tenho todo o dia para me refazer e recuperar as energias para enfrentar a segunda feira. Leio um livro de contos de Anton Tchekov, muito bom por sinal, além de servir de subsídio para os meus próprios escritos. Evito os noticiários televisivos tão pouco confiáveis e tão contraditórios. Preciso me concentrar, amanhã será segunda feira, e preciso estar com força total para o trabalho. Que horas será o almoço? Ao meio dia? As duas? tanto faz, hoje é domingo mesmo. Vou me arrastando preguiçosamente pelo dia. No fim da tarde faço ginástica acompanhando uma aula de aeróbica na TV. Não faço nem a metade dos movimentos, mas sou insistente. Lembrei de um hobby antigo, ressuscitei  algumas partituras de violão e voltei a toca-las. Tão mal quanto antigamente, mas me ajuda a passar esse domingo. A noite chega, já descansei o dia todo, me sinto cheio de gás, amanhã vou me entregar com força total ao trabalho. Ligo a TV a cabo, assisto um ou dois filmes, ate o sono chegar. Vou para a cama feliz, me sinto cheio de energia. Amanhã ninguém me segura. Vou trabalhar como nunca. O Brasil precisa de seus filhos e eu estou disposto a fazer a minha parte.  Acordei cedo, e quando estava tomando uma ducha, minha mulher perguntou se eu pretendia ir a algum lugar. “Trabalhar é claro! Afinal é o que sempre faço de segunda a sexta, e hoje é segunda”.  ela então subiu um pouco o tom de voz dizendo “Volte Já para a cama. Você não vai trabalhar coisa nenhuma”, meio assustado com a bronca, falei: “Mas, Mariana, hoje é segunda feira”. Ela fazendo uma careta estranha disse: “O que? Você ficou louco? Hoje é domingo homem. E até o final desse pesadelo vai ser sempre domingo entendeu”  Meio confuso, atravessei o quarto e abri a cortina: Tudo parado, a cidade morta. Então me conformei e voltei para a cama. É domingo de novo. Amanhã também será, depois de amanhã também… sempre domingo.

ESCAPADELA…

            Olhei pela janela e vi um caminhão parado em frente ao verdurão do Félix, descarregando mercadorias. Saí pé ante pé do apartamento, pois minha mulher também faz parte da patrulha. Chamei o elevador que veio vazio felizmente.  Passei pela portaria rapidinho, mas quando fui abrir a porta para sair ouvi o porteiro dizer: “Aonde o senhor vai doutor?, o senhor tem que ficar em casa. Ordem do governador”. já saindo falei. “Só cinco minutos, vou ali comprar um queijo”. Saí na calçada, olhei a rua nos dois sentidos e não vi ninguém, e fui andando devagar em direção ao Félix, que não é mais que uns 200 metros de minha casa. Nesse pequeno trajeto ouvi alguns impropérios vindo das janelas dos apartamentos: irresponsável, velho rebelde, teimoso e outros adjetivos. Quando cheguei, Valdete, a moça do caixa, assustou-se quando me viu. Parecia olhar para um ET e foi logo dizendo: “Doutor, era só telefonar que a gente entregava”. Mal ela sabia que o queijo era só desculpa para sair um pouquinho  da gaiola. Pequei o embrulho, paguei e pensei: “Vou acabar de dar a volta no quarteirão, não vai fazer muita diferença” Desci mais uns cinquenta metros e virei a direita, me deliciando com aquela liberdade momentânea quando passou um carro e o motorista gritou “VAI PRA CASA VÉI!!!”.  O primeiro impulso que tive foi manda-lo tomar no **. Mas não ficaria bem, afinal sou um homem educado. Me contive, ate porquê, pensando melhor, ele de estava de certa forma zelando pelo meu bem estar. Já tinha dado a volta no quarteirão e voltava para casa, quando fui abordado por uma viatura da polícia que rondava por ali.  O Tenente, muito educado e medindo as palavras disse: “Meu senhor, para a sua segurança, volte para casa e permaneça lá enquanto passa essa onda de vírus, eles estão em toda parte. Na sua idade é melhor ter cuidado”. Agradeci ao policial, dizendo que morava ali naquele prédio da esquina, e finalmente cheguei. O porteiro já tinha ligado para minha mulher, aquele fofoqueiro. Entrei em casa, tomei uma descompostura da patroa, porque além de tudo, ela já havia feito compras pela internet, inclusive queijo. Não sei se valeu a pena levar tanta reprimenda, mas pelo menos dei uma volta no quarteirão. E vírus mesmo, cá pra nós, não vi nenhum.

 

 

 

CHANTAGEM…

           O fiscal chegou meio de surpresa e diante de uma secretária sobressaltada, perguntou pelo proprietário da empresa. Com uma voz fraca Valquiria balbuciou: “Ele ainda não voltou do almoço, mas já deve estar chegando, se o senhor quiser pode esperar, sente-se ali por favor”. Marçal era um fiscal veterano, muito conhecido por sua maneira peculiar de atuar. Revistava tudo, e dificilmente deixava passar alguma irregularidade. Era severo em suas punições, mas sempre lembrava ao comerciante, que havia uma maneira mais fácil de resolver o assunto. Ponderando que uma mão lava a outra, que lei nem sempre é justa, arrastava a conversa para o campo da chantagem, e do achaque. Não demorou muito e o Seu Vilela chegou. Valquíria apresentou o fiscal ao patrão, e saiu para a copa em busca de água e café para ambos. Marçal começou pela análise dos documentos de constituição da empresa e meia hora depois pediu para ver os blocos de notas fiscais dos últimos três anos. “É muita coisa, você vai ter que me dar um tempo para reunir tudo, pelo menos dois dias, pode ser?” O fiscal fez uma cara estranha e logo marcou posição: “Os documentos devem estar à disposição da fiscalização na hora em que forem solicitados. Mas tudo bem, vou conceder esses dois dias”. Despediu-se e foi embora. Quando voltou, dois dias depois, Marçal encontrou pequenos montes de blocos espalhados pelo chão, separados pelos anos correspondentes. Começou a trabalhar sem pressa, confrontando qualquer pequena suspeita, rasuras, imperfeições no preenchimento. Seu Vilela continuava em sua mesa fingindo que estava trabalhando, mas de olho no fiscal, de quem, já conhecia a fama. Marçal pediu as notas fiscais de entrada, Valquiria correu para providenciar, pois não tinha se lembrado delas. Quando voltou com as notas, seu Vilela perguntou “Trouxe tudo valquíria?” A moça simples, sem experiencia, nem malícia, aquele era o seu primeiro emprego, respondeu com candura: “Trouxe sim, Seu Vilela, ficaram lá ágora só aqueles registros das vendas sem nota, era para trazer também?”. Seu Vilela ficou pálido, quase caiu da cadeira, tomou um gole de água e disse: “Não”, bem seco, torcendo para o fiscal não ter entendido. Mas uma dessas, jamais passaria despercebida pelo veterano fiscal. Marçal examinou mais algumas notas e deu o trabalho por encerrado. Dirigindo-se a mesa de Seu Vilela, sentou-se calmamente, mesmo sem convite e disse: “Parabéns, não encontrei nada significativo no que examinei”. Seu Vilela quase pulou de alegria pois parecia que o fiscal não tinha ouvido a imprudente revelação de Valquíria.  Depois de uma longa pausa, o velho fiscal chamou seu Vilela num canto da sala, pôs-lhe a mão no ombro e soltou o torpedo: “Agora, quanto as vendas sem nota, vou fingir que não ouvi, e vou mandar um portador para pegar dez mil reais em dinheiro, na semana que vem. Combinado?). Seu Vilela ainda pálido, sentiu a raiva lhe subir à cabeça e pensou: “Que filho da puta! Eu devia denuncia-lo.” Mas, ciente de que, se o homem esmiussasse mais a fiscalização seria muito pior disse apenas “Semana que vem não, na outra pode ser?” e fecharam aquele vergonhoso acordo. Era o roto, enquadrando o esfarrapado. Numa situação destas é provável que que Valquíria tenha sido demitida. Coisas da vida.

ESCONDE ESCONDE…

             Hoje, levantei cedo para ficar mais tempo a toa, pois estou confinado em casa. Os curtos trajetos que me propus fazer, foram em volta de minha casa. Um pequeno passeio no parque, e na volta passei na padaria e comprei algumas quitandas e brioches para comer enquanto escrevo. A cidade praticamente vazia, mas com um ar pesado, revela o clima de pânico que tomou conta da população. Parece que os pouquíssimos transeuntes se esgueiram desconfiados pelas calçadas, prontos para fugir ao primeiro sinal do vírus. Parece brincadeira de esconde esconde. É como se o inimigo estivesse em grupos procurando humanos para atacar.  Meus passos ecoavam na rua vazia e o ruído dos pássaros, soava mais alto que de costume. Estava tudo muito estranho. Nunca vivi nada parecido. Liguei para meu irmão na Califórnia. O relato dele é muito semelhante. Pessoas apavoradas, confinadas em casa, saindo apenas para comprar comida e artigos de higiene pessoal. Nunca havia passado 48 horas dentro de minha casa. Aproveitei para explora-la. Descobri aposentos em que me sinto melhor, mais relaxado. Em outros minha angustia aumenta, e a sensação de clausura chega a ser apavorante. Vou para o computador, escrevo um pouco. Depois pego um livro e me acomodo na sacada para lê-lo. Como uma fruta, volto a ler, depois de mais algum tempo paro para descansar. Ligo a televisão e tome “corona vírus”.  Mudo para o Netflix e como tenho todo o tempo do mundo, assisto vários episódios de uma série. É uma boa ferramenta para passar o tempo sabiam?. Tomo mais um lanche, pego meu celular e dou sequência a um curso qualquer de língua estrangeira, Italiano, Francês. Descobri, várias instituições e universidades, que estão disponibilizando  cursos online muito muito úteis, interessantes e gratuitos, pelos próximos 30 dias. Taí outra dica. De repente me ocorreu que se eu estivesse preso, condenado por algum crime, digamos, a 10 anos de prisão, eu não teria condições mentais de aguentar. Esse isolamento temporário e de certa forma voluntário, já está abalando minhas bases psicológicas. Imaginem uma supressão prolongada de liberdade.  Não estou reclamando, sou um homem de 68 anos de idade, e, entendo que entre outras coisas, esse confinamento favorece a minha preservação, pois estou no grupo de risco. Darei minha contribuição para a redução da velocidade de propagação da doença, o que é plenamente justificado pela capacidade limitada do sistema público ou privado de saúde. Mas cá para nós. Fácil não está.

SEM EGOISMO, POR FAVOR…

             Certa vez, voltando de carro de Icaraíma no noroeste do Paraná, onde residem alguns dos meus parentes. Vi quando um caminhão capotou há uns dois quilômetros na minha frente. Diminuí a marcha e notei que muitos carros começaram a parar  dos dois lados da estrada. Pessoas atravessavam a pista correndo. A princípio pensei que iriam socorrer o motorista. Parei também, e fui me inteirar da situação. Era um caminhão baú, transportando  açúcar, já embalado em sacos de 5 kg. O motorista estava saindo sozinho, com dificuldades, da cabine do caminhão, ao mesmo tempo em que dezenas de pessoas começavam a “saquear” a carga. que se espalhara pelo chão. Inclusive mães, incentivando filhos a carregar os pacotes para o porta malas do carro, partindo em seguida sem nem olhar para o motorista. Liguei para a polícia rodoviária, depois examinei rapidamente o homem, que por sorte teve apenas alguns cortes nos braços, e um no rosto. Insisti para leva-lo a um hospital, mas ele se recusou, dizendo que precisava esperar a polícia. Como o sangramento parou, segui minha viagem perplexo com a atitude pequena daqueles meus irmãos brasileiros. Egoísmo puro.  Agora, traçando um paralelo para os dias difíceis que estamos vivendo com essa pandemia viral. Volto a ver estarrecido, grande parte da população correndo para os supermercados, farmácias, feiras, comprando e estocando gêneros alimentícios, de higiene pessoal, gás de cozinha, etc. Movidos pelo mesmo sentimento de egoísmo, que moveram aqueles saqueadores. É preciso que haja sentimento de coletividade. Ninguém numa situação de dificuldades como esta pode pensar somente em si, e nos seus. A palavra de ordem É “coletividade”. Devemos pensar e ajudar uns aos outros, cada um dentro da sua função, como numa colmeia. Estamos todos aflitos, a situação por si só já não é fácil, imaginem entrarmos todos em pânico. Se imperar a lei do “cada um por si”, aí sim, será o Caos. O ser humano é capaz dos maiores gestos, e das maiores mesquinharias. Vamos ficar só com os primeiros. Então ficaremos bem. Calma gente, já vivemos coisas piores, só que com menos badalação.

O MEDO…

             O patrão dispensou do trabalho, disse que era um decreto do governador. Saí pela rua em direção ao metrô, mas as advertências eram severas quanto a aglomeração de pessoas. Resolvi ir a pé, com cuidado evitando passar a menos de 10 metros das outras pessoas. Estava do outro lado da rua quando ouvi o chinês da pastelaria espirrar, então me desesperei, corri uns dois quarteirões, torcendo para que minha velocidade fosse maior que a do vírus. Virei numa esquina já esbaforido, esperando que o vírus passasse direto e não me visse. Fui me esgueirando com cuidado. Falaram para comprar álcool em gel e passar nas mãos. Do meio da rua perguntei ao vendedor da farmácia, que me respondeu “acabou, não adianta procurar. Temos o álcool normal”. Pensei: “Tô lascado, parece que só serve em gel”. A cidade parecia muito mais vazia que de costume, continuei caminhando. Olhava as frestas das janelas semi abertas e as vezes surpreendia olhos furtivos me observando.  Queria falar com alguém, saber direito o que estava acontecendo, porque estava tudo tão deserto. Acenei para uma senhora, ela imediatamente correu para dentro de casa. A sede apertou, vou comprar uma água. Mas onde? Tudo fechado, bati numa porta, duas, três, ninguém atendia. Apressei o passo para chegar em casa. Estava apavorado, com medo de uma coisa que eu nem sabia direito o que era. O que é mesmo um vírus? pensava eu. Haviam me dito na empresa, que era uma gripe forte que estava se espalhando pelo mundo. Nestes meus 30 anos já passei no mínimo por umas 10 gripes, algumas delas bem fortes. Será que não conseguirei passar por mais uma? É, mas pelo medo que as pessoas estão demonstrando, melhor não arriscar. Ao me aproximar de casa vi tudo fechado, inclusive o verdurão do Seu Félix, que era minha ultima esperança para comprar algumas frutas e legumes, pois temia que teria que ficar em casa por muito tempo. Senti um grande alívio quando girei a chave na fechadura e entrei em casa. Pelo sim, pelo não, fechei as cortinas, peguei uma garrafa com água na geladeira, e sem mais delongas me meti debaixo da cama. Quero ver esse tal vírus me achar aqui.

ANTENOR E CLARINHA…

         Saí do trabalho pouco depois da meia noite. Fechei as portas de aço do Bar do seu Marcos, na avenida Tocantins, e segui a pé em direção à rua oito, onde meu amigo Barreto, trabalhava numa lanchonete chamada “007 vitaminas”. Parava ali todas as noites, e depois que Raul, o gerente, saía, fazíamos um belo lanche com vitaminas, sanduíches, e algum chocolate. Então ajudava na limpeza da lanchonete, e seguíamos para casa. Morávamos no mesmo bairro, a uns dois quilômetros dali. Era uma rotina quase diária. Geralmente cruzávamos com as mesmas pessoas no caminho. Alguns vigias noturnos. Seu Antenor, dono da tabacaria real que também se dirigia para casa, Cristóvão, garçom do Grande hotel, alguns travestis e prostitutas na Avenida Goiás, tradicional ponto de “trotoir “. Naquela noite específica tinha algo de diferente no ar.  As luzes ainda estavam acesas na tabacaria. Curiosos e apreensivos nos aproximamos para ver o que se passava. Poderia ser um assalto, quem sabe? A porta dos fundos estava entreaberta e ouvia-se vozes lá dentro. Barreto tinha mais coragem do que eu e entrou primeiro, fui me esgueirando para dentro com o coração batendo a mil. E se fossemos descobertos?  A mulher de vermelho esbravejava com seu Antenor, que encolhido num banquinho ouvia calado aquele desabafo.

        — Seu cachorro! Eu sabia que um dia ia te encontrar. Já fazem seis anos que você saiu para comprar aquele frango para o almoço de domingo, e não voltou. Todos pensam que você está morto. Mas eu tinha certeza que não.  As meninas até já se conformaram, dizem aos amigos que o pai morreu ao cair de uma ponte, e nunca encontraram o corpo.

           –Que isso Clarinha? Que brabeza é essa?  Eu ia te avisar, mais sabe como é, o tempo foi passando e eu acabei perdendo a coragem. Você quer saber porque fugi do Maranhão? Vou lhe contar.

              Senti vontade ir embora, mas Barreto me conteve e disse baixinho, “fica quieto, vamos ver o final dessa fofoca”. E seu Antenor continuou:

            — Fui ameaçado.  O Felício mandou os jagunços dele me avisar. Se não pagasse em dois dias o que lhe devia, ia mandar me matar. Eu não devia tanto, mas aquele agiota filho da puta é impiedoso, não aguentei a pressão e dei no pé.

             — E essa vagabunda que você arrumou?

            — Não fale assim da Esmeralda, ela não teve culpa.  Cheguei aqui sozinho e sabe como é. A solidão bate doído, e aí conversa vai, conversa vem, ela caiu no laço e eu “krau”. E estamos juntos até hoje. Mas e você? Não venha me dizer que uma mulher nova, bonita e fogosa não reconstruiu a vida.

            — Engano seu imbecil, passei alguns dias na pior, depois que partiste, mas logo percebi que o homem da minha vida estava bem ali ao meu lado, e eu o ignorava. Então  fomos nos aproximando, conversa vai, conversa vem e ele “krau”.  Estamos vivendo juntos há três anos.

           — E quem é ele mulher?

           — Felício, o agiota.

          –Então Clarinha, estamos quites. Mas por favor, não diga onde estou, e nem que eu o chamei de fdp. Ele ainda pode mandar atrás de mim.

              Comecei a rir e saímos correndo porta afora. Seu Antenor tentou nos perseguir por alguns metros mas desistiu, e voltou para continuar discutindo a relação com Clarinha. E eu, desde aquela noite, fiquei com um pé atrás com as mulheres. São falsas.

AVP/MAR/2020

CADA UM NA SUA…

           Antes do amanhecer, avistaram as luzes da pequena cidade de Rio Maria. Estavam na estrada há dois dias, desde que deixaram Palmas em direção ao interior do Pará. Vinham convidados pela prefeitura, para se juntar ao programa de saúde da família do município. Joel, médico, com três anos de residência em clínica e cirurgia. Mara, enfermeira, juntou seus sonhos aos dele, e partiram rumo ao desconhecido. Encontraram-se há cinco anos na universidade, e moravam juntos há três. Não tinham se casado ainda pois Joel não terminara o divórcio litigioso com sua primeira mulher. Esperaram o dia raiar, tomaram um café na padaria, onde já despertaram as primeiras curiosidades. Em seguida, foram procurar o prefeito. Herculano Prata, já no segundo mandato, fez um discurso de boas vindas em frente à sua secretária, e em seguida saíram para conhecer o posto de saúde, e o esqueleto do que deveria vir a ser um pequeno hospital. Nestas condições o casal começou a desempenhar sua missão naquela comunidade. Sete anos depois, já tinham conseguido prestígio profissional. Terminaram a construção do hospital e o equiparam aos poucos. Agora realizavam atendimento à boa parte da região, faziam cirurgias de emergência, e algumas eletivas, partos, e outros procedimentos há tanto tempo ansiados por todos e assim ganharam dinheiro e popularidade. Ao mesmo tempo em que criava fama e prestigio, Joel começou a se envolver em política. Escolheu o lado da oposição e em pouco tempo foi escolhido candidato a prefeito. Eleito com uma margem pequena de votos,  começou a nova fase de sua vida, contra a vontade de Mara. Assumiu a prefeitura com os cofres totalmente vazios, dívidas de milhões de reais e um desemprego assustador para um município pequeno. Começou a trabalhar cada vez mais como prefeito, e menos como médico. Chegava atrasado para atender os pacientes, isso quando não cancelava a agenda. De médico atencioso, passou a médico apressado e ríspido. E foi aos poucos perdendo sua clientela para os médicos mais novos que àquela altura haviam chegado para a cidade. Mara estava possessa, viu sua casa virar “terra de ninguém”. As pessoas entravam sem cerimônia procurando por seu marido. Enquanto esperavam, abriam a geladeira, bebiam água, suco, o que tivesse pela frente. Agora com dois filhos pequenos, Mara fazia com frequência doces, bolos e outras guloseimas para as crianças. Tinha que trancar tudo nos armários. Se ficasse à vista, os “eleitores” comiam. Chegavam a qualquer hora, não respeitavam a intimidade da família. Era um tormento. – Joel seguia tentando agradar o povo, mas não era fácil. As demandas eram muito variadas, e quase sempre de iniciativas individuais. Um queria emprego para os filhos. Outro queria dinheiro para terminar sua casinha. Outro queria que a prefeitura arranjasse leito  de UTI, para uma paciente com mais de noventa anos, cega e com Alzheimer. Ele se sentia impotente, e ficava enrolando o povo, não podia simplesmente negar. Foi perdendo também o respeito como prefeito, pois não conseguia fazer nada. Mesmo sendo um homem honesto, começou a despertar suspeitas: “Não faz nada porque deve estar embolsando o dinheiro” e por aí a fora. Enfim, perdeu seu prestígio como médico e como prefeito. No quarto ano de sua gestão, mesmo com poucas realizações, chegou em casa um dia com uma decisão praticamente tomada: “vou partir para a reeleição”. Aí Mara sopitou. Chegou o dedo no nariz do marido de disse: “Chega Joel! Já aguentei demais. Você parece que está cego. A política não trouxe nada de bom para nós. Pelo contrário, atraiu oportunistas para nossa casa, afastou nossos verdadeiros amigos e tirou completamente a liberdade que tínhamos. Não temos tempo para nossa vida pessoal e familiar. Olha aqui, vou te dizer uma vez só. Se essa conversa de reeleição prosperar, pego as crianças e volto para Palmas e será o fim do nosso casamento. Fique você avisado”. Ficaram de carra amarrada um para o outro uns três dias, até que Joel aproximando-se da esposa disse: “Você tem razão. Eu não vou mais fazer política. Não posso permitir que ela me tire o que há de mais importante para mim, você e as crianças. Fase encerrada, vamos  ver se me recupero como médico”.  Essa cronica reforça o que um velho médico e professor repetia com frequência nos meus tempos de estudante: “O verdadeiro médico, só se realiza como médico. Pode até fazer outras coisas mas o que o gratifica mais, é desempenhar sua profissão com amor. Se ele não se sentir assim provavelmente não deveria ser médico”.