Há pouco tempo tive que ir a embaixada americana para obter uma série de informações no departamento comercial. Liguei antes e fui informado que teria que agendar o atendimento. No dia, cheguei uns vinte minutos antes do horário marcado, e deparei ali com uma multidão que lá estava por motivos variados. Seguranças por todos os lados. Respostas ríspidas dos funcionários, gente revoltada, chorando. Então, enquanto esperava comecei a relembrar a primeira vez que ali estive, aos dezoito anos, para pedir um visto de turista para aquele País.

                    Final dos anos 1960. O Local já era o mesmo, mas a divisão de Brasília não era ainda Embaixada, era um Consulado. Desci na estação rodoviária na praça dos três poderes. O sol quase a pino, um calor infernal, a umidade relativa do ar muitíssimo baixa, dava a sensação de clima de deserto. Localizei a Catedral. Sabia por informação de um amigo, que era ali por perto. Caminhei na sua direção e fui descobrindo o quanto é grande aquela praça. Já molhado de suor e às portas daquela obra magistral de Oscar Niemeyer perguntei a um ciclista onde ficava o consulado americano.   O homem simples levantou o chapéu de palha e enxugando o suor com a manga da camisa disse “Não sei direito, mas pode descer por essa avenida mesmo, que logo ali tem algumas bandeiras de países estrangeiros, deve ser por lá. O logo ali que ele disse, era uns dois quilômetros à frente. Enfim cheguei ao local indicado pelo meu informante, e logo identifiquei o consulado. Finalmente, suado, cansado e faminto cheguei ao meu destino. Tinha um policial brasileiro na porta e apenas duas funcionárias. Dona Frida, um pouco mais velha aparentava ser a chefe, e dona Odete que datilografava freneticamente numa máquina Olivetti elétrica, que na época era o que tinha de mais moderno. Eram ambas brasileiras. Me apresentei, e disse o que queria. Dona Frida me disse que o cônsul tinha acabado de sair para o almoço, e voltava as duas da tarde. Pedi permissão para esperar ali mesmo, pois o sol não estava moleza.  Além das funcionárias não tinha mais ninguém e assim permaneceu enquanto estive lá. De repente fiquei sozinho. As duas saíram por uma porta nos fundos da sala. Alguns minutos depois, dona Odete apareceu na porta e me perguntou “Você já almoçou meu jovem?”, eu disse que não e cruzei os dedos por um convite, pois estava sendo torturado pelo cheiro de comida que vinha da sala anexa. Então ouvi aquela voz maravilhosa da qual me lembro até hoje, dizer “vem almoçar com a gente”. Comi salada, prato principal, sobremesa, refrigerante, tudo o que tinha direito, e voltei para meu cantinho no sofá. O Cônsul chegou no horário esperado, mas não cheguei a ver a cara dele. Dona Odete pegou meu passaporte com um único formulário que é o mesmo até hoje, entrou na sala do Consul e em cinco minutos voltou com um visto válido para quatro anos, categoria BI/BII, e me desejou uma boa viagem. Então voltei a enfrentar o sol, agora feliz e aliviado por ter conseguido.

                    Conto essa estória para os meus amigos que frente as dificuldades de hoje para obtenção de visto ou qualquer outra coisa naquela Embaixada, acham que é brincadeira. Mas não é, essa foi minha primeira e inesquecível experiência com o meio diplomático americano.

Destaque

ÀS FAVAS

                                                       08/04/2017

            Sempre tive ao longo da vida, uma autocensura muito acentuada. Nunca consegui conviver com a hipótese de parecer ridículo ou inconveniente, seja do meu próprio ponto de vista, ou de terceiros. Acredito que isso tenha sido o meu “calcanhar de Aquiles” , tenho vários outros mas talvez tenha sido o mais importante.  Tive uma coleção imensa de medos e receios. Fui me desvencilhando de alguns ao longo do tempo, outros permaneceram até hoje. Ah! Como era difícil chamar uma moça para dançar. Será que minha roupa está condizente com a festa? Será que ela tem namorado? E se ela disser NÃO, vou ficar com uma cara de idiota. Não, não tenho coragem, melhor tomar mais uma caipirinha. Quando a coragem chegava eu já estava eufórico ou bêbado e aí Pimba!!! , Ia lá e falava coisas imbecis e as vezes inconvenientes e o Não vinha com mais veemência (Problema superado quando enfim num lance de sorte me casei).  –  Tinha pavor de falar em público. Vou gaguejar, vou perder o raciocínio, vão me achar despreparado etc. etc. isso embora eu fosse muitas vezes o mais preparado entre todos. Fazer perguntas na aula  era um terror. De antemão já me sentia sendo julgado  por toda a classe. Que pergunta idiota, esse cara  é um burro!!! (superado com o tempo) – Até para comprar tinha dificuldades, se o vendedor me mostrasse muitas opções eu já ficava sem jeito de sair sem comprar nenhuma. Para vender alguma coisa também não era diferente. Ficava com vergonha de dar o preço. Vão achar muito caro e não vão querer, e aí eu sempre vendia por menos do que pretendia (superado com o tempo).  Enfim, intercalando fases melhores e piores vivi asses meus 65 anos. Sempre preocupado com a opinião dos outros. Hoje olhando para trás não creio que fosse só timidez. Era burrice mesmo. Poderia continuar narrando muitas outras situações, mas todas com o mesmo  perfil.

             Como antes tarde do que nunca. Resolvi que pelo resto da minha vida vou mudar radicalmente de atitude. Não vou me importar mais com a opinião de ninguém a menos que venha para me aprimorar. Críticas pura e simples, sobretudo as que nada constroem ficam agora no passado.

             Já me surpreendo fazendo coisas que me pareciam inadmissíveis. Que não “ combinavam”  com a minha personalidade. Vou para a piscina do prédio na segunda feira, levando um jornal e uma cerveja sem me preocupar se os vizinhos vão me considerar um preguiçoso.  Ouço as músicas que quero sem me preocupar se vão achar brega e assim por diante.

As favas a opinião alheia.  Estou adorando essa fase de liberdade.

 

CONFISSÃO

Seduzido pela beleza das flores

Que margeavam meu longo caminho

Tornei-me descuidado. e desatento

Caí na armadilha da vaidade

Que se apodera da alma dos mesquinhos

Embevecido com os louros das vitórias

Esqueci-me das virtudes da humildade

Achei-me um semideus, fui prepotente

Insensível, tirano, incoerente

Não fui na essência, um verdadeiro homem

Minha alma manchou-se com a maldade

Tornando-me surdo e indiferente

Aos que clamavam por pão, justiça ou afeto

Quisera eu, retornar ao começo

Para corrigir meus erros

Evitar os mesmos tropeços

Seria mais justo, humilde, amigo e solidário

Evitando o desgosto de acabar amargo e solitário…

AVP-28/09/2020

ORGULHO

Enquanto brilhar o sol neste céu azul-anil

Haverei de ter orgulho de ser filho do Brasil

Terra rica, generosa, cheia de oportunidades

Terra de paz, amor e liberdade

Claro, aqui também tem problemas

Desigualdade na renda, nas chances de educação

Mas isso não nos difere de qualquer outra nação

É só problema de escala, de régua, de medição

Uma análise que faço sem pretender ser preciso

É que os homens dessa terra precisam criar Juízo

Não pensar no próprio umbigo e sim no bem coletivo

O pior mal que aqui vejo não é a falta de visão

A cegueira coletiva que sofre a população

É que aqui infelizmente, brota corrupto do chão

Valendo-nos da arma que cada um tem na mão

Um voto só vale voto, somados vão aos milhões

Quem sabe não nos livramos desta matilha de cães

Que de nós todos recebam, desprezo asco e desdém

O Brasil não merece a escória de políticos que tem

Eis que é chegado o momento

Do povo chamar para si todo o protagonismo

Mandar no próprio nariz, escolher o seu caminho

Mandar as ervas daninhas para o colo do ostracismo…

TELE-VIZINHO

Seu Maneco era um homem de bom coração morava em lote grande na Vila Nova um dos primeiros bairros de Goiânia. Construiu ali sua casa de frente para a rua, e nos fundos uma meia dúzia de pequenos barracões que alugava para famílias pobres que se mudavam para a Capital. Naquela época televisão era uma diversão cara, mas estava ao alcance das posses de se Maneco. Era a única televisão naquele lote e uma das poucas do bairro. A noite generosamente ele abria a janela para que seus inquilinos tivessem acesso àquela maravilha da tecnologia. Mas a verdade é que sua mulher, que era uma paraibana de maus bofes o obrigava a incluir aquela benesse no preço do aluguel. A princípio eu não acreditava, mas com o tempo foi ficando demonstrado que ele realmente cobrava um a taxa para dar direito aos vizinhos de assistirem pela janela. A partir das sete da noite, os inquilinos se amontoavam na janela que por sorte era grande, para assistir a novelas, shows, jogos de futebol, missas. Sempre tinha gente na janela, pois quem não gostava de uma coisa, gostava de outra.Alguns chegavam a levar cadeira, tamborete para subir e ver melhor. Moravam cerca de trinta pessoas no seu pequeno cortiço. Volta e meia dona Querubina, sua mulher, pressionava para aumentar a taxa porque a conta de energia estava alta. Quem por acaso não concordasse não podia assistir. O filho deles um esquisitão com problemas mentais, que andava pelas ruas conversando como os postes era quem fiscalizava e afastava dali os inadimplentes. O horário de pico, eras oito quando passava uma novela chamada Redenção, acho que a primeira ou segunda novela na televisão. Quando tocava a música da novela era um corre corre para pegar o melhor lugar vez por outra saíam xingamentos, brigas desacatos até vias de fato. Numa dessas confusões seu Marcelino um carioca de cerca de cinquenta anos, muito folgado, desquitado e metido a galã passou a mão pelas “intimidades” da mulher de Felício que se retesou toda aprovando a ousadia, o que fez parecer que já era um costume. Mas seu marido percebeu e aí a coisa ficou preta. Felício foi até seu barraco e voltou com uma faca para acertar as contas com Marcelino, depois se acertaria com a mulher pois achava que ela vinha facilitando. Mas o outro não esperou fugiu correndo pela rua. e não voltou nem para buscar sua mudança. Em vista do ocorrido, seu Maneco fechou a janela avisando que não a abriria mais, pois estava dando muita confusão, muita briga. A novela estava caminhando para o seu final, faltava uns dez capítulos. Os inquilinos ficaram revoltados, estavam sendo punidos por um erro de outra pessoa, e além do mais tinham pagado a tal “taxa” que seu Maneco cobrava e resolveram ir atrás de seus direitos. O filho de um deles era advogado e resolveu interpelar na justiça. Não era justo que ficassem sem sua diversão favorita logo na fase melhor da novela. Uma liminar foi concedida aos impetrantes da ação, os inquilinos. Seu Maneco foi obrigado a manter a janela aberta por força da lei, que dava direito a eles. Levou um sermão do Juiz por cobrar daquelas pessoas pobres uma coisa que lhe custava tão pouco. De agora em diante a janela ficaria aberta todas as noites, e de graça. Dona Querubina que sempre mandou por trás dos bastidores, teve que se conformar assistia a novela com cara de poucos amigos depois voltava a fazer seu tricô. A vida seguiu calmamente no cortiço da rua 220, com todos tendo direito à TELE-VIZINHO.

AMANHECE

As sombras da noite se vão aos poucos

Ruídos rotineiros vão surgindo

Passos, carros, vozes, chamamentos

Abrem-se as portas da padaria

Preparando para o dia bolos quitandas e pão

Diaristas, porteiros e vigias vão trocando seus “bom-dias”

Assim começam meus dias

O amanhecer é uma caixa de surpresas

Nunca se sabe o que traz, se alegria ou tristeza

Então me ponho de pé

E antes de tomar café, preparo meu coração

Para o que der e vier

A vida passa tranquila, segue sua partitura

Não vou ficar resmungando dizendo que a vida é dura

Tão-pouco choramingando esperando quem me console

Pois há muito aprendi na luta

Que a vida é bem mais dura para quem é mole…

CAMINHOS

A vida nos oferece um cardápio de caminhos

Há caminhos que escolhemos

Outros  ela  nos impõe

Alguns deles são suaves

Outros cheios de entraves

Abismos pedras  espinhos

Por cada um que passamos

Nos tornamos diferentes

Louros, flores cicatrizes

Marcam a alma da gente

As marcas que que se acumulam

Ao longo da caminhada

São testemunhas sinceras

Dos sonhos abandonados

Dos sentimentos contidos

Dos amores não vividos

No transcorrer da jornada

Ainda assim vale a pena

Não cabem choro ou lamentos

Não cabem mágoas, tristezas

Tão-pouco  arrependimentos

Chegar ao fim do caminho

Ainda que fatigado

Terá valido a pena cada passo que foi dado.

PERIGO NA ESTRADA

PERIGO NA ESTRADA

Eram cinco da tarde quando Apáricio acordou na cabine de seu caminhão. Ali era parada costumeira, almoçava e dormia até o sol esfriar para continuar viagem. Era uma manobra usada por quase todos os caminhoneiros para poupara os pneus. Agora continuaria rodando até o posto onde passaria a noite. Comprou na loja de conveniência alguns biscoitos, encheu o um galão com água potável e ligou o caminhão dando um tempo para aquecer o motor. Enquanto verificava os pneus, um rapaz moreno alto, com uma mochila nas costas se aproximou perguntando: “O senhor vai passar por Ourinhos?” Ressabiado o caminhoneiro já com mais de vinte anos rodando pelas estradas Brasil a fora, previu um pedido de carona. Avaliando o rapaz dos pés à cabeça respondeu “Vou, mas a empresa não permite que eu leve passageiros em hipótese nenhuma”. O rapaz agradeceu e começou a se afastar. Aparício sentiu vontade de reconsiderar o que dissera. Não tinha nada de empresa, era desculpa dele. E além do mais seria uma companhia para ele viajar a noite. Chamou o rapaz de volta e fez algumas perguntas. De onde vinha? Para onde ia? No que trabalhava . As respostas lhe pareceram convincentes e uns quinze minutos depois já estavam na estrada. O rapaz era bom de prosa e seguiram conversando como sem fossem velhos amigos. Depois de rodarem umas duas horas começou a sair muita fumaça do motor. Apáricio lembrou-se então que tinha esquecido da água do radiador. Vamos esperar esfriar e repor a água. Tinham acabado de passar uma ponte e constatando que não tinha água suficiente, pediu ao rapaz para voltar e encher o galão no córrego. eram no máximo uns duzentos metros, e assim que seus olhos se acostumaram à escuridão Trajano foi buscar a água. Quando voltava percebeu um carro parado ao lado do caminhão, a estrada tinha pouco movimento, e a uma certa distancia começou a ouvir vozes que foram se avolumando, parecia uma discussão. Deixou o galão no chão e foi se aproximando cautelosamente então viu Aparício ajoelhado no chão pedindo que não o matassem, que levassem tudo o que quisessem, até o caminhão. um dos homens apontava uma arma para a cabeça do motorista enquanto o outro vasculhava a carga procurando alguma coisa. “Tem certeza que é esse caminhão? o Marquinhos informou a placa?” perguntou o que remexia a carga. “É esse mesmo, procure um embrulho amarelo”. Trajano subiu silenciosamente na carroceria segurando uma pedaço de pau encontrado no percurso. Quando o bandido pressentiu sua presença e quis se virar, levou uma violenta pancada na cabeça, e caiu da carroceria com um baque surdo. Enquanto o outro bandido gritava “Que merda é essa cara? Anda logo”. Pulando para o chão com agilidade, Trajano encontrou a arma do bandido caído e rendeu o que ameaçava Aparício. “largue a arma e levante as mãos”, o bandido começou a levantar as mãos mas mudou de ideia, girou o corpo rapidamente e disparou sua arma. Trajano pressentira essa reação e tinha dado dois passos para o lado e aí não teve escolha. disparou três vezes contra o vagabundo. Abaixou-se e verificou que o homem estava morto, voltou ao caminhão e e viu que a pancada abrira o crânio do outro infeliz que também dava seus últimos suspiros. Com os dois assaltantes mortos, passaram a procurar na carga o tal embrulho amarelo e quando o encontraram constataram que continha vários quilos de um pó branco, provavelmente cocaína. transferiram o volume para o carro dos bandidos e nele colocaram também os corpos. Puseram água no radiador para viagem, deixando aquela cena macabra para trás. Apáricio estava num grande dilema, pesava em parar no primeiro posto policial que encontrasse contar tudo à polícia e deixar que que resolvessem o caso.Foi quando Trajano abriu o jogo: “Fique tranquilo, sou policial, já sabia que tinham escondido a droga no seu caminhão e quer tentariam intercepta-lo. O plano era recolherem a droga, mata-lo e fugir. Há tempos que perseguimos essa quadrilha. Resolvi pedir carona para protege-lo”. Aparício estava incrédulo “policial, mas sem arma?”, O passageiro sorrindo calmamente indicou a mochila,”está lá dentro, você estava desconfiado, então guardei na mochila. Não pretendia me afastar dela, mas com o imprevisto do radiador fui buscar a água e cometi um erro que um policial jamais deve cometer, afastar-de de sua arma. Tivemos muita sorte, esses homens são extremamente perigosos”. Enfiando a mão no bolso, Trajano tirou a identificação apresentou ao motorista dizendo: “Siga sua viagem, vá com Deus e obrigado pela carona. Vou ficar aqui e aguardar a equipe que Já está a caminho”.Aparício entrou no caminhão ainda trêmulo, e cheio de dúvidas. Aquela história estava muito esquisita. Mas pelo sim pelo não meteu o pé no acelerador e foi embora. Não tinha nada a ver com aquilo e não queria complicações. O medo ainda o perseguiu por muito tempo, Nunca mais soube do misterioso passageiro.

MENSAGEIRO

Hoje um passarinho alegre

Pousou em minha janela

A vida me convidava

A caminhar sob o sol

Saí da cama animado,

Tomei um café quentinho

O dia estava nublado

Onde foi o passarinho?

Mensageiro iluminado

Veio trazer um recado

Que eu não soube interpretar

O sol estava encoberto

Não entendi que por certo

Sua luz se refletia

No brilho do meu olhar

Mensageiro iluminado

Eu não pude entender

Nem tudo é belo na vida

Depende como se vê

Um belo dia nublado

Por não ter tanta cor

Pode não ser tão brilhante

Mas ser repleto de amor

A ESTRADA

Não são muitos os que têm a chance de comemorar 44 anos de casamento. Hoje (10/09/2020) minha mulher e eu estamos recebendo essa benção. Parece que passou muito rápido, mas não pulamos etapas. É que o tempo as vezes brinca de ilusionista com a gente. Casamo-nos no frescor da juventude aos 25 anos, com voluntariedade, dinamismo e hormônios de sobra. Os arroubos e as vezes a teimosia e egoísmo dos jovens nos causaram muitos contratempos, desencontros de opinião e até algumas poucas brigas, mas nada que o amor não pudesse reverter. Tivemos dois filhos com diferença de idade de quatro anos que muito cedo encheram nossas vidas de alegria e de muitas responsabilidades. Durante nossas gravidez, sim, porque o homem fica grávido junto. Levantei algumas vezes no meio da noite para ir atrás de caldo de cana para minha mulher. Que desejo mais exótico, e fora de hora. Mas é isso mesmo, senão não seria desejo. Praguejava um pouco, mas ia sempre e já tinha até um fornecedor que levantava e moía a cana para mim a qualquer hora. Cobrava bem, mas resolvia o problema. O tempo passava, os filhos cresciam, e nessa fase tivemos que ficar de olho neles para orienta-los e sobretudo educa-los. As amizades, os interesses, as lições de casa, a recreação, tudo tinha o nosso cuidado e orientação. Felizmente não foram filhos difíceis, e com frequência repito, fui muito pouco testado como pai. Tivemos uma longa carreira profissional que nos custou grandes esforços mas que nos trouxe grandes recompensas emocionais materiais. Passamos por vários Brasis , várias crises econômicas e políticas mas nunca perdemos a fé nem em Deus, e nem nos homens. Esse país maravilhoso e generoso em que vivemos nos permitiu ter uma vida plena e feliz. Claro que nem tudo foram flores, todo mundo passa por dificuldades, tristezas, perdas, e nós não fugimos à regra. Nestes momentos difíceis sempre encontramos um no outro o apoio e o amparo do companheirismo. Hoje, na fase em que o corpo já não responde aos impulsos com a agilidade de antes, a roda da vida vem nos trazer alento e mais felicidade na forma de netos. Agora com toda a doçura da convivência mas com muito menos responsabilidades. Voltamos a ser crianças junto com eles criando um mundo imaginário de piratas, princesas e tesouros perdidos. Enfim foram fases diferentes dessa longa vida, mas todas com seus encantos e prazeres. E quando olhamos para trás vemos apenas um par de pegadas. É que há muito tempo minha grande companheira e eu, nos tornamos um só. E somos imensamente gratos a Deus por isso.

REFORMA MORAL

É um tema recorrente, mas que tem o poder de indignar de maneira avassaladora aos cidadãos de bem que ainda se pautam pela decência, moral e respeito. Há uns trinta anos atrás transitando por uma estrada no oeste do Paraná, presenciei o capotamento de um caminhão baú carregado de pacotes de açúcar. Na capotagem o baú se abriu, e a carga espalhou-se pela pista e pelo acostamento. Parei imediatamente pois como médico não me omitiria de dar socorro ao motorista, pelo menos até a chegada do resgate. O homem ferido no rosto e meio atordoado tentava sair da cabine. Ainda jovem e ágil subi no caminhão e ao constatar que eram ferimentos leves ajudei-o a sair. Enquanto fazia os primeiros curativos no homem notei que havia se formado uma grande fila de carros no acostamento de ambos os lados da pista, e os ocupantes saqueavam vergonhosamente a carga. Homens mulheres crianças transportando pacotes de açúcar para os porta malas, carrocerias. Pais ordenando aos filhos para voltar e pegar mais. Uma cena para mim inimaginável, se não estivesse vendo com meus próprios olhos teria dificuldade em acreditar. A carga estava espalhada no chão por força de um acidente. Tinha dono, nota fiscal e tudo. Então aquela ação consistia para mim simplesmente num roubo. – Hoje 08/09/2020, vi em um noticiário de TV, a mesma e lamentável cena. Um caminhão baú, carregado com peças de carne bovina tombou na rodovia Regis Bitencourt na altura de Itapecerica da Serra em São Paulo. Desta vez foi ainda pior porque o baú não chegou a abrir foi aberto por um dos saqueadores e imediatamente começaram a retirar a carga de dentro do caminhão. Grupos de pessoas carregando peças inteira de carne num grande esforço, e colocando no porta mala dos carros. Espalhando quartos de boi pela pista e pelo acostamento, ao lado dos quais se postava alguém disposto à briga para evitar que outros levassem sua parte no butim. É de dar nojo esse tipo de atitude. Vi há pouco nas redes sociais, afirmações de que esse é o resultado de uma sociedade sofrida e faminta. Para mim apenas um bando de ladrões se aproveitando de circunstâncias lamentáveis para praticar ações lastimáveis. Famintos coisa nenhuma! Nos dois casos que citei as pessoas desciam dos carros, homens barbados, fortes, bem nutridos, e quem tem carro não se encaixa na categoria de necessitados e nem mesmo esses teriam o direito de fazê-lo. É no mínimo apropriação indébita, ou em palavras mais condizentes, é roubo mesmo. Esse fio de desonestidade presente em boa parte de nossa sociedade e que veio se decantando há séculos, dificulta as ações de combate a corrupção, aos desmandos e à famosa “Lei de Gérson”. Essas ações diminuem a força de qualquer manifestação de apoio aos que tentam restaurar a moralidade no país. A principal reforma que nós brasileiros precisamos além das econômicas e políticas que já estão em curso no congresso, é uma reforma moral. Um exame de consciência, e que cada brasileiro esteja disposto a lavar as nódoas de sua própria conduta. Aí sim, quando todos todos nós nos preocuparmos com nossos deslizes morais e nos livrarmos deles, poderemos ter esperança em um alvissareiro futuro. Isso é trabalho para muitos anos, mas precisa começar com urgência.

AINDA HÁ LUZ

O que sinto na alma se parece com dor

Mas não chega a ser dor

Uma inquietude, aquela dos confinados

Querendo ouvir o ecos dos passos

Nas ruas calçadas e becos

Nas madrugadas sem lua

Faz falta o contato o abraço

A magia dos sorrisos

O calor dos hálitos condimentados

Tudo que me faça sentir vivo

Numa espécie de torpor espero

Que quando a porta se abrir

Um facho de luz e me desperte

Resgatando-me deste estado inerte

E indicando a direção da rua

Me solte para a plena liberdade

A salvo das sombras da insanidade

Proponho um brinde a esperança

Menina travessa quem entra e sai nos meus dias

Quando sai leva todo o meu viço

Quando entra me traz a certeza

De que a vida vai melhorar um dia

E aí, adeus tristeza! E esqueçamos tudo isso…