Há pouco tempo tive que ir a embaixada americana para obter uma série de informações no departamento comercial. Liguei antes e fui informado que teria que agendar o atendimento. No dia, cheguei uns vinte minutos antes do horário marcado, e deparei ali com uma multidão que lá estava por motivos variados. Seguranças por todos os lados. Respostas ríspidas dos funcionários, gente revoltada, chorando. Então, enquanto esperava comecei a relembrar a primeira vez que ali estive, aos dezoito anos, para pedir um visto de turista para aquele País.

                    Final dos anos 1960. O Local já era o mesmo, mas a divisão de Brasília não era ainda Embaixada, era um Consulado. Desci na estação rodoviária na praça dos três poderes. O sol quase a pino, um calor infernal, a umidade relativa do ar muitíssimo baixa, dava a sensação de clima de deserto. Localizei a Catedral. Sabia por informação de um amigo, que era ali por perto. Caminhei na sua direção e fui descobrindo o quanto é grande aquela praça. Já molhado de suor e às portas daquela obra magistral de Oscar Niemeyer perguntei a um ciclista onde ficava o consulado americano.   O homem simples levantou o chapéu de palha e enxugando o suor com a manga da camisa disse “Não sei direito, mas pode descer por essa avenida mesmo, que logo ali tem algumas bandeiras de países estrangeiros, deve ser por lá. O logo ali que ele disse, era uns dois quilômetros à frente. Enfim cheguei ao local indicado pelo meu informante, e logo identifiquei o consulado. Finalmente, suado, cansado e faminto cheguei ao meu destino. Tinha um policial brasileiro na porta e apenas duas funcionárias. Dona Frida, um pouco mais velha aparentava ser a chefe, e dona Odete que datilografava freneticamente numa máquina Olivetti elétrica, que na época era o que tinha de mais moderno. Eram ambas brasileiras. Me apresentei, e disse o que queria. Dona Frida me disse que o cônsul tinha acabado de sair para o almoço, e voltava as duas da tarde. Pedi permissão para esperar ali mesmo, pois o sol não estava moleza.  Além das funcionárias não tinha mais ninguém e assim permaneceu enquanto estive lá. De repente fiquei sozinho. As duas saíram por uma porta nos fundos da sala. Alguns minutos depois, dona Odete apareceu na porta e me perguntou “Você já almoçou meu jovem?”, eu disse que não e cruzei os dedos por um convite, pois estava sendo torturado pelo cheiro de comida que vinha da sala anexa. Então ouvi aquela voz maravilhosa da qual me lembro até hoje, dizer “vem almoçar com a gente”. Comi salada, prato principal, sobremesa, refrigerante, tudo o que tinha direito, e voltei para meu cantinho no sofá. O Cônsul chegou no horário esperado, mas não cheguei a ver a cara dele. Dona Odete pegou meu passaporte com um único formulário que é o mesmo até hoje, entrou na sala do Consul e em cinco minutos voltou com um visto válido para quatro anos, categoria BI/BII, e me desejou uma boa viagem. Então voltei a enfrentar o sol, agora feliz e aliviado por ter conseguido.

                    Conto essa estória para os meus amigos que frente as dificuldades de hoje para obtenção de visto ou qualquer outra coisa naquela Embaixada, acham que é brincadeira. Mas não é, essa foi minha primeira e inesquecível experiência com o meio diplomático americano.

Destaque

ÀS FAVAS

                                                       08/04/2017

            Sempre tive ao longo da vida, uma autocensura muito acentuada. Nunca consegui conviver com a hipótese de parecer ridículo ou inconveniente, seja do meu próprio ponto de vista, ou de terceiros. Acredito que isso tenha sido o meu “calcanhar de Aquiles” , tenho vários outros mas talvez tenha sido o mais importante.  Tive uma coleção imensa de medos e receios. Fui me desvencilhando de alguns ao longo do tempo, outros permaneceram até hoje. Ah! Como era difícil chamar uma moça para dançar. Será que minha roupa está condizente com a festa? Será que ela tem namorado? E se ela disser NÃO, vou ficar com uma cara de idiota. Não, não tenho coragem, melhor tomar mais uma caipirinha. Quando a coragem chegava eu já estava eufórico ou bêbado e aí Pimba!!! , Ia lá e falava coisas imbecis e as vezes inconvenientes e o Não vinha com mais veemência (Problema superado quando enfim num lance de sorte me casei).  –  Tinha pavor de falar em público. Vou gaguejar, vou perder o raciocínio, vão me achar despreparado etc. etc. isso embora eu fosse muitas vezes o mais preparado entre todos. Fazer perguntas na aula  era um terror. De antemão já me sentia sendo julgado  por toda a classe. Que pergunta idiota, esse cara  é um burro!!! (superado com o tempo) – Até para comprar tinha dificuldades, se o vendedor me mostrasse muitas opções eu já ficava sem jeito de sair sem comprar nenhuma. Para vender alguma coisa também não era diferente. Ficava com vergonha de dar o preço. Vão achar muito caro e não vão querer, e aí eu sempre vendia por menos do que pretendia (superado com o tempo).  Enfim, intercalando fases melhores e piores vivi asses meus 65 anos. Sempre preocupado com a opinião dos outros. Hoje olhando para trás não creio que fosse só timidez. Era burrice mesmo. Poderia continuar narrando muitas outras situações, mas todas com o mesmo  perfil.

             Como antes tarde do que nunca. Resolvi que pelo resto da minha vida vou mudar radicalmente de atitude. Não vou me importar mais com a opinião de ninguém a menos que venha para me aprimorar. Críticas pura e simples, sobretudo as que nada constroem ficam agora no passado.

             Já me surpreendo fazendo coisas que me pareciam inadmissíveis. Que não “ combinavam”  com a minha personalidade. Vou para a piscina do prédio na segunda feira, levando um jornal e uma cerveja sem me preocupar se os vizinhos vão me considerar um preguiçoso.  Ouço as músicas que quero sem me preocupar se vão achar brega e assim por diante.

As favas a opinião alheia.  Estou adorando essa fase de liberdade.

 

O PEQUENO KADIR…

  O PEQUENO KADIR

Surgindo da multidão como um raio, o pequeno Kadir (nome fictício). Saltou para o vagão do metrô na estação Taksim em Istambul, um segundo antes do fechamento da porta, trazendo nas mãos duas belas maçãs. O homem esbaforido chegou atrasado e ainda bateu algumas vezes no vidro enquanto via o menino morder uma das frutas. Estávamos nas proximidades do porto e me lembrei de ter visto algumas famílias pobres pedindo ajuda aos transeuntes. Tinham muitas crianças, então supus que aquela fosse a origem de Kadir.  Fui informado pelo guia, que se tratavam de ciganos, uma minoria nômade da população turca de origem discutível. Já li que os primeiros ciganos vieram da Índia, mas não sei, pois também já ouvi dizer que vieram da Hungria. Mas o certo é que esse povo errante vive pelo mundo há muitos séculos, cercados de preconceitos e desconfiança. Mantêm sua história envolta em mistérios, com poucos registros escritos. Os ciganos que me lembro na minha infância, viviam em barracas armadas em terrenos públicos ou privados das cidades brasileiras. Não pediam permissão, pois provavelmente seria negada, então era assim. De um dia para o outro podia aparecer um acampamento de ciganos na sua rua, ou numa praça próxima. Isso era tido como mau agouro. As mulheres se espalhavam pela cidade vendendo tachos de cobre, e “lendo a sorte” na mão das pessoas. Os homens tinham fama de espertalhões, velhacos para negócios e de caráter duvidoso. Ficavam pelas barracas, ou misturavam-se à população propondo jogos de cartas ou pequenos negócios quase sempre arriscados. Eram mestres em ludibriar.  Teve uma época em que os ciganos da minha cidade melhoraram significativamente de vida e passaram a ocupar bela mansões agrupadas numa mesma área que logo ficou conhecida como “bairro cigano”. Passaram a ter negócios, lojas, garagens de automóveis, estacionamentos e outros. Mas nem assim venceram a resistência da população. Os imóveis das quadras adjacentes tiveram forte desvalorização, ninguém queria morar nas vizinhanças. E o curioso é que mesmo vivendo em boas casas, muitos deles não abriam mão de uma barraca no quintal onde promoviam festas que duravam dias. Tocavam músicas deliciosas de seu folclore e suas danças eram lindas. Ainda menino, fui contaminado com uma certa magia que aquela vida exercia sobre mim. Não cheguei a ter amigos ciganos, nem sei ao certo porquê. As crianças ciganas saíam pelas ruas, pedindo, praticando pequenos furtos. Por isso os pais geralmente não permitiam que seus filhos se misturassem com eles. Isso aumentava o fascínio.  Enquanto o metrô se movia, fiquei pensando se algum pequeno Kadir poderia ter sido meu amigo naquela época. Teríamos feito grandes peripécias, com certeza. Na estação seguinte a porta se abriu e Kadir desapareceu tão rápido como surgiu.

THEODORA…

              De férias na ilha grega de Mykonos, minha mulher e eu nos hospedamos num hotel mediano naquele paraíso, onde chegamos as duas da tarde. Ali conhecemos Theodora, que alegremente nos mostrou as instalações e serviu um drink de boas vindas. Não era tão bonita, mas sua agilidade e gentileza chamava a atenção. Jovem, na faixa dos vinte e cinco a trinta anos. Quando saímos para ter as primeiras impressões da ilha e obter informações sobre os passeios e programas disponíveis adequados a nossa faixa etária, ficou trabalhando. Nos encantamos com o lugar e só voltamos ao hotel já perto das dez da noite. Minha mulher pediu da copa um café com leite e torradas. Bateram na porta, quando abri, lá estava ela, sorridente e gentil. Perguntei se era grega e ela respondeu que não. Nascera na antiga Iugoslávia, na região que é hoje a Bósnia, de onde sua família saiu na década de noventa fugindo das crueldades da guerra dos Bálcãs, vindo se refugiar na região de Peloponeso na Grécia. No dia seguinte ao descermos para o café da manhã, quem estava lá ajudando a servir as mesas? Isso mesmo, a própria. Quando voltamos do passeio a noite, lá estava ela trabalhando. Durante os quatro dias que permanecemos no hotel, reparamos que a moça tinha uma carga  excessiva de trabalho. Mesmo estando ali para descansar e me divertir, não pude deixar de observar o que para mim beirava a trabalho escravo. Pesquisando a respeito dessas migrações forçadas, fui vendo que os refugiados de todos os lugares, raças e crenças, enfrentam problemas comuns. São direcionados aos trabalhos mais difíceis, com jornada excessiva e salários geralmente muito baixos. É claro que existem exceções, alguns se sobressaem, têm qualificação profissional e conseguem vencer. Porém a grande maioria dessas pessoas são submetidas a condições que só não se igualam a escravidão porque existe remuneração. Latinos enfrentam esse problema nos Estados Unidos, refugiados  africanos e asiáticos na Europa. No Brasil também encontramos  problemas semelhantes com, bolivianos, haitianos e agora venezuelanos. São efeitos colaterais das milhares de guerras de colonização pelo mundo afora ao longo dos tempos, onde os vencedores escravizavam os vencidos. Isso veio com o tempo a se tornar um traço reprovável do comportamento humano. Theodora sem se dar conta, vive num paraíso, mas trabalha como uma escrava, e ainda é grata por isso, pois o difícil mesmo é não ter trabalho algum. É utópico pensar que chegará o dia em que em que um ser humano não será mais explorado por outro.

GATO POR LEBRE…

          Entre os inúmeros prejuízos que o tabagismo traz ao ser humano, o espessamento das cordas vocais por edema e laringite crônica, mais evidente em mulheres, trazendo como consequência uma voz grave, praticamente masculina é bastante frequente.  Esse era o caso de Dona Lúcia. Já com quase cinquenta anos e fumante deste os dezesseis, era com frequência tratada de “senhor” pelo telefone. Certa feita, começou a apresentar problemas na coluna lombar que foram aumentando até limitar os seus afazeres diários. Seguindo conselhos de amigos, procurou um ortopedista para cuidar de suas dores. Após realização de exames, radiografia, tomografia, e um exame clínico o médico convenceu-se que D. Lúcia nada tinha de grave, era só uma contratura nos músculos paravertebrais, que dão sustentação à coluna. Receitou-lhe alguns anti-inflamatórios, e recomendou vinte sessões de fisioterapia. Por questão de comodidade, ela resolveu fazer a fisioterapia no mesmo hospital pois atendiam o seu convênio e era mais perto de sua casa.

           Na data da primeira sessão, D. Lúcia chegou cedo ao hospital, sem acompanhante e dirigiu-se ao setor de fisioterapia. Geralmente esses departamentos são compostos de uma sala mais ampla, dividida em boxes por biombos, possibilitando o atendimento simultâneo a vários pacientes, sob a supervisão de um único técnico. Este deitava os pacientes nos boxes, posicionava os aparelhos quando era o caso, acionava o cronômetro e sentava-se numa pequena antessala esperando os alarmes que anunciavam o termino da sessão de cada um.  Naquele horário só constavam na agenda D. Lucia, e outro paciente, este do sexo masculino. Ambos foram colocados no chamado forno de Bier, um equipamento para aplicação de calor local. Após uns cinco minutos, o técnico ouviu de sua mesa “Está muito quente”, como era uma voz grave, ele entrou na sala e alterou a regulagem do aparelho do rapaz e voltou para a sua mesa. Mais uns três minutos a voz insistiu dessa vez com mais ênfase “tá muito quente moço!”. Balançando a cabeça impaciente, ele retornou à sala e novamente mexeu na regulagem do aparelho do rapaz. Quando ia saindo D. Lúcia não se contendo e já com as costas em brasa gritou com aquele vozeirão soturno, “VOLTA AQUI SEU IDIOTA, QUEM ESTÁ QUEIMANDO SOU EU”.  O técnico deu meia volta foi atende-la se desmanchando em desculpas, embora em pensamentos a recriminasse. “Quem mandou fumar tanto, e ter voz de homem?”.  E ainda ouviu do rapaz “desse jeito não vai adiantar nada, o meu está frio”.

 

DESPREZO PELA VIDA…

             A garotada brincava alegremente durante o recreio. Um improvisado jogo de futebol se desenrolava na pequena quadra de cimento. Dois times corriam freneticamente atrás da bola. De repente alguém gritou “corre gordo!”. o pequeno Rafael, de oito anos, parou de correr, virou-se para o autor do insulto e disse “Gordo é seu cu! vou reclamar para a tia Sandra”, e correu em direção a diretoria, onde já chegou chorando para relatar o ocorrido. A diretora ouviu, consolou o menino mas não deu muita importância pois era um fato repetitivo, e no fim as próprias crianças se acertavam. Chegando em casa Rafael contou ao Pai e pediu para mudar de escola. Não suportava mais ser chamado de “gordo”.  Encolerizado Fernando, policial aposentado, de gênio forte, ligou para a escola, espinafrou a diretora e ameaçou intervir pessoalmente para defender o filho. Alguns dias depois, foi buscar o Rafael na escola, encontrou com Carlos, pai de Fred, o outro garoto, e aproveitou para tirar satisfações. “Seu filho está chamando o meu de gordo,  se continuar fazendo isso vou dar um corretivo nele”. Carlos ainda tentou contemporizar, mas os ânimos se exaltaram, então ele disse “Você não é homem para bater no meu filho. Se fizer isso vai se ver comigo”. Essas sementes uma vez plantadas podem preceder a tragédias. Com a repetição do fato, os pais voltaram a se enfrentar desta vez de forma mais violenta. Fernando perdeu a razão e deu um tapa em Fred, que ofendera seu filho novamente. Carlos não se contendo foi até o carro pegou uma arma e baleou Fernando no peito que mesmo prontamente socorrido, já chegou morto ao Hospital. Carlos foi preso em flagrante por uma patrulha policial que passava. Com certa frequência vemos nos jornais e na televisão, episódios igualmente ou mais violentos, perpetrados por crianças e jovens que se dizem vítimas de bullying. Jovens que invadem escolas e atiram indiscriminadamente em colegas e professores. Pessoas que retornam a antigos empregos e atentam contra a vida dos ex-colegas. Tudo em nome desse conceito moderno chamado bullying, que até vinte anos atrás passava despercebido, e o tempo acabava resolvendo as diferenças. Embora o caso dos dois garotos tenha culminado nesse trágico desfecho, uma semana após o velório, eles já estavam brincando novamente. Depois da aula Fred chamava o amigo “vem gordo, vamos brincar de pique esconde.” E os dois saíam correndo para encontrar o resto da turma.

O VALOR DE CADA UM…

           Suely chegou ao trabalho antes das seis da manhã. Era enfermeira no centro cirúrgico do hospital Camilo Dantas no centro de Jundiaí. A primeira cirurgia do dia era hérnia de disco e seria realizada pelo doutor Daniel, as seis e meia. Tomou café rapidamente e foi preparar a mesa com os instrumentos cirúrgicos. O médico era um cirurgião jovem, mas já renomado e muito exigente. Chegou pontualmente e começou a verificar se estava tudo certo e se estavam todos a postos. Notou que o anestesista ainda não tinha chegado, e o paciente ainda não estava na sala. Pronto, foi o bastante para ele perder as estribeiras. Encolerizou-se de tal forma que começou a desacatar a todos, falando palavras chulas e de baixo calão. Suely tentou acalmar os ânimos e aí sobrou para ela. “Sua incompetente” gritou o médico “porquê não tomou providências, você é a enfermeira chefe do centro cirúrgico. Isso aqui está uma bagunça, nunca trabalhei em lugar pior” Gritava, gesticulava e ofendia todo mundo. Nisso chega Dr. Fidélis, o anestesista, entrou de mansinho na sala, vendo Sueli com cara de choro, e o cirurgião fazendo todo aquele espalhafato dirigiu-se a ele com calma, “O que está acontecendo aqui Daniel? Porque essa brabeza toda?“ O homem se exasperou mais ainda, “Você ainda pergunta? não sabe respeitar horário não? Estou de saco cheio de marcar cirurgia e nunca começar na hora, vocês são uns irresponsáveis. Se continuar assim não vou mais operar nesse hospital. Vou me queixar a direção”.  Uns vinte minutos depois, a cirurgia começou, com um clima pesado, ninguém falando com ninguém. A paciente, uma mulher de quarenta e nove anos, vinha queixando-se de fortes dores na coluna lombar, irradiando-se para a perna direita, que a impedia de andar e trabalhar. Fora convencida pelos filhos a se submeter a cirurgia, e esperava uma recuperação rápida. A certa altura, o cirurgião desconcentrado pela raiva, aprofundou o bisturi mais do que o normal, e lesou uma artéria importante, que devia ser preservada. Assustado, tentou debelar o sangramento, gritou com o auxiliar, um residente do quarto ano “pince a artéria seu idiota, você é oligofrênico? “A incisão era pequena, e o auxiliar teve grandes dificuldades. “A pressão está baixando muito” avisou o anestesista ligando mais um frasco de soro com drogas vasopressoras e mandando chamar o banco de sangue. Suely movimentava-se com destreza, aspirando, trocando as compressas e tentando manter o campo cirúrgico o mais limpo possível. O cenário parecia um campo de guerra. O banco de sangue chegou e iniciaram a transfusão. Nesse meio tempo, Daniel e o auxiliar suando em bicas, ampliaram um pouco mais a incisão e finalmente conseguiram pinçar o vaso que sangrava. Respiraram fundo e então foram corrigir a hérnia da paciente.  Embora estivesse estressado ao máximo, durante aquela intercorrência Daniel começou a pensar na importância da equipe. De nada valeria todos os seus títulos, fellows e outros comprovantes de especialização. Sem o esforço de todos, teria perdido a paciente.  Desse dia em diante transformou-se num ser humano melhor e mais humilde. Ao término da cirurgia, reuniu a equipe toda e se retratou pedindo desculpas e reconhecendo a importância de cada um. Perdeu por completo aquela postura de semideus, tão própria dos médicos jovens que acreditam ter poderes e soluções para tudo. Esses profissionais prepotentes e agressivos, geralmente procedem assim para disfarçar insegurança, e raramente reconhecem que o diploma que recebem é simplesmente uma autorização oficial para começarem a aprender. Daniel tomou por ensinamento que humildade e agua benta não fazem mal a ninguém.

 

 

 

 

BERENALDO…

        Passeando de barco pela lagoa de Mundaú em Maceió, puxei conversa com o barqueiro. “Como é o seu nome amigo?”, ele sorrindo com aquela alegria natural dos nordestinos disse “Berenaldo, e tenho certeza que tu não vai esquecer vai? quantos Berenaldo tu já encontrou na vida?” Pensei alguns segundos e disse “você é o primeiro”.  Na conversa que se seguiu, perguntei a Berenaldo se ele nunca tinha tido vontade de migrar para São Paulo como milhões de conterrâneos seus. “Já tentei uma vez” disse ele, e me contou essa história.

          “Nasci e me criei numa cidade pequena, Girau do Ponciano, ali pelas bandas de Arapiraca. Terra seca da peste! Quando completei dezoito anos escrevi a Ribamar, um primo meu que mora em S.Paulo, dizendo de minha intenção de me mudar para lá. Com a aprovação de Ribamar no mês seguinte entrei num ônibus  desses clandestinos e quatro dias depois estava em São Paulo. Era dia três de Julho, nunca me esqueci porque quando desci do ônibus tava um frio arretado. Pensei que meus ossos iam se partir. Pedi ao Padre Cícero para me ajudar, e de longe avistei meu primo.   Antes de cumprimentar Ribamar já disse logo “Primo, que diabo de frio da moléstia é esse, homem?” Ele riu e disse “oxe! tu escolheu a data errada, estamos no inverno. Vai ficar assim até meados de agosto”  e me entregou um agasalho pois já previa a situação.  Vesti a jaqueta e melhorou um pouco, mais ainda sentia frio nas mãos, pés, e nas pernas pois a calça era de pano fino. Ribamar disse “Bora andá, se ficar parado o frio aumenta” e saiu apressado. Eu o seguia de perto e quanto mais andava  mais o frio aumentava. Por sorte descemos umas escadas e embarcamos num trem que parecia uma minhoca andando por baixo da terra. O frio diminuiu um pouco, tinha muita gente no vagão. Finalmente chegamos ao Grajaú, bairro onde Ribamar morava. Fui tumá banho, pois embora Ribamar não tenha dito, eu me sentia uma jaratataca depois de quatro dias de viagem. A água era morna, mas quando saí do chuveiro, comecei a tremer feito vara verde corri para o quarto e me meti debaixo das cobertas até parar de tremer. No dia seguinte Ribamar me chamou cedo e fomos tumá café na padaria da esquina. O frio tava matando. Aí apareceu uma novidade. Quando eu falava, saía fumaça de minha boca, de minha venta. Fiquei vexado, nunca fumei na vida. Tentava disfarçar cobrindo a boca com a mão quando falava. Entramos na padaria e Ribamar pediu um café pingado e um “racha e brea” que logo descobri que era um pão francês passado na chapa com bastante manteiga. Pedi o mesmo. Um cachorro veio deitar encostado nos meus pés. Incomodado, dei um chute no cachorro e ele deu um latido comprido “Auuuuu” aí percebi que saiu fumaça da boca do cachorro. Então pensei cachorro não fuma, isso deve ser outra coisa. Também percebi que não era só eu, mas todas as pessoas. Parei de ficar vexado.  Ribamar já tinha arranjado uma vaga para mim no obra em que estava trabalhando. Trabalhei ali o justo tempo de juntar um dinheiro para a passagem de volta.  Chegando a Maceió, arranjei esse emprego e fiquei quieto. Ganho pouco, mas não tenho que enfrentar um clima daquele. Deus me livre! Meu lugar é aqui.

              A conclusão que tirei, é que Berenaldo desistiu diante do primeiro obstáculo. Mas ele não estava errado.  Simplesmente não quis pagar o preço que milhões de nordestinos pagaram. E se todo nordestino migrasse para São Paulo, quem estaria dirigindo aquele barco, naquele passeio tão agradável. Por tanto, as coisas dão certo para uns e não dão para outros. É questão de acertar o seu espaço, e se sentir feliz com ele. Esse era o caso de Berenaldo, que parecia feliz, sem ter a menor saudade de São Paulo.

QUERIDO MESTRE…

               Nunca gostei muito das aulas de português, exceto as de leitura e interpretação de textos. Acho que tinha a ver com o professor Geraldo da Paixão, homem simples, dedicado, e com um profundo amor pelo que fazia. Reforçava diariamente a seus alunos, a importância de ler com atenção, interpretar, e reproduzir os mais variados tipos de texto. Não importava se prosa, poesia, ficção ou realidade, textos históricos, bíblicos, o que fosse, seu esmero era o mesmo ao ensinar seus alunos. Fazia perguntas de surpresa para avaliar o grau de compreensão. Mandava repetir com as próprias palavras, e se não ficasse satisfeito o aluno ficava lhe “devendo” para ser cobrado quando lhe aprouvesse. Como não sabia quando  seria cobrado, via de regra o aluno tratava de estudar. Mestre Geraldo, não se preocupava muito com as notas mensais dos alunos. Mas, avisava desde o início do ano, que seria muito rigoroso na prova final. Quem chegasse lá precisando de nota alta estava em maus lençóis. Não tinha perdão, se não conseguisse por méritos próprios não adiantava chorar, era bomba na certa. Falo do professor com admiração e respeito. Estava sempre disponível para ajudar os alunos sempre que fosse solicitado. Um dia, enquanto fazíamos um exercício em classe, o mestre parou junto a minha carteira por alguns minutos e disse “venha falar comigo depois da aula”. De pronto fiquei preocupado e quando soou a sirene, me dirigi a sua mesa. “Você parece gostar muito da minha matéria. Quero que seja meu auxiliar ajudando alguns colegas com mais dificuldade. O que acha?” disse ele. Feliz e surpreso aceitei a incumbência. Fizemos uma boa parceria até que deixei a escola três anos depois. Uma coisa curiosa é que ele gostava muito de um poema de Arthur de Azevedo, chamado “VELHA ANEDOTA”,  praticamente obrigava todos os seus alunos a decora-lo e declama-lo perante a classe. Uma das maneiras de saber se uma pessoa estudou na Escola Técnica de Goiânia na década de 60, é manda-lo declamar esse poema. Peço licença para transcreve-lo abaixo, em homenagem  ao grande mestre.

VELHA ANEDOTA  (Arthur de Azevedo)

Tertuliano, frívolo peralta

que foi um paspalhão desde fedelho

Tipo incapaz de ouvir um bom conselho

Tipo que morto não faria falta.

Lá um dia deixou de andar à malta,

E, indo à casa do pai, honrado e velho,

A sós na sala, diante do espelho,

À própria imagem disse em voz bem alta:

– Tertuliano, és um rapaz formoso!

-És simpático, és rico, és talentoso!

-Que mais na vida se te faz preciso?

Penetrando na sala, o pai sisudo,

que por trás da cortina ouvira tudo,

Severamente respondeu – Juízo!

Homenageio a todos os mestres que tive, na pessoa do professor Geraldo da Paixão que há muito partiu, mas deixou um grande exemplo de amor à arte de ensinar.

NOSTALGIA…

          Vivo hoje numa cidade de mais de 1.5 milhões de habitantes, e que nada mais tem a ver com aquela cidade pequena, com cerca de 70.000 pessoas para a qual nos mudamos em 1956. Naquela época era possível contar os carros que circulavam pelas ruas, todos importados, caros e feios pra chuchu. Meu vizinho tinha um Packard preto que usava como táxi para fazer umas cinco corridas por mês. Ah, que vida tranquila!  Ainda criança, circulava desenvolto pelas ruas e avenidas. O risco era quase nulo, criminalidade baixíssima. As escolas, quase todas públicas, tinham um ensino de alta qualidade e um quadro de professores extraordinários que realmente ensinavam o que iria fazer diferença para os alunos, sem perder tempo com coisas inúteis e sem extrapolar os reais objetivos da escola. E tinham dos alunos, todo reconhecimento e respeito. Hoje, olhando para trás sinto muita falta daquela cidade que foi se distanciando no tempo, até se transformar nessa metrópole que nos exige um tremendo esforço para suporta-la. Há poucos dias entrei no carro para visitar uma obra social num bairro periférico. O transito estava tão engarrafado e desumano, que meia hora depois, eu ainda não tinha andado dois quilômetros. Um calor infernal tornava a situação mais insuportável ainda. Não tinha jeito de me livrar, então liguei o rádio e tentei relaxar, a música estridente feriu meus ouvidos aumentando o desconforto. Rapidamente passei para um noticiário, aí sim! piorou mais ainda, era uma entrevista do diretor de uma ONG dessas que dizem proteger florestas, índios, mas cujos componentes nada entendem do assunto, e jamais saíram dos escritórios com ar condicionado. Por fim desliguei o rádio e passei a prestar atenção nos transeuntes, morrendo de inveja pois a pé eles estavam mais rápidos que eu. A avenida que eu percorria era uma das principais. Não pude evitar a lembrança de percorrê-la tranquilamente quando menino, em direção ao Cine Goiás, ou Santa Maria para as matinês de domingo. Carros praticamente zero. Milhares de bicicletas se amontoavam nas ilhas centrais das ruas e avenidas. Não é só por saudosismo que descrevo aquele tempo. Os mais jovens não têm esse parâmetro de comparação. Já nasceram no meio do caos, da correria, das dificuldades de locomoção, e por isso nem sabem a diferença. Porém nós, “menos jovens”, sabemos bem comparar os tempos. Não se pode deter o progresso, faz parte da evolução humana. No entanto, ele tem cobrado um alto preço em ansiedade e qualidade de vida a todos nós. O que aqui faço não é uma mera reclamação, visto que o progresso me beneficiou muito pessoal e profissionalmente e por isso sou grato. Mas que tenho saudade daquela vida tranquila e da cidade pequena na qual viemos morar naquela época, isso não posso negar.

AVP – 27AGO/2019

ESPERANTO

        Antes de começar a escrever essa crônica, liguei o spotfy e coloquei num delicioso Jazz, esse gênero de música tem o dom de me acalmar e me deixar num estado de espírito meio Zen. Aproveitando o gancho comecei a pensar na importância da música para as pessoas e para o mundo. Acompanhei muitos movimentos musicais ao longo da vida. Ye Ye Ye, bossa nova, tropicália, jovem guarda , até gêneros mais modernos  como Funk, Hi Hop, sertanejo universitário, e cheguei a conclusão de que todos eles foram  reflexo de comportamentos sociais, revolução de costumes, ou marcos de tribos diversas. Todos eles no entanto têm uma existência limitada, duram até a próxima mudança de conceitos sociais.  Poucos são os gêneros musicais que extrapolam o tempo, desses derivam todos os outros passageiros e efêmeros. O Jazz é um desses gêneros, soma-se a ele a música erudita (clássica) em seus mais diversos desdobramentos.  Estando presente em todas as situações de nossas vidas, alegres, tristes ou comemorativas, essa maravilhosa descoberta humana simbolizada por apenas sete notas primárias, merecem todas as nossas homenagens. A música  é uma linguagem universal. Um músico indiano, australiano, tibetano, russo pode executar uma música escrita por um brasileiro, americano, mexicano sem nenhuma dificuldade. Basta a partitura baseada nas sete notas citadas.  Bom também seria se isso se aplicasse à linguagem falada e escrita. Há tempos não ouço, nem leio a respeito, mas já houve uma tentativa de se universalizar a comunicação  através de uma linguagem chamada “ESPERANTO, criada em 1887 por um médico polonês chamado Ludwik Lejzer Zamenhof. Provavelmente o nome escolhido refletia a esperança de que todos os homens se entendessem numa mesma língua. Deve ter esbarrado em grandes dificuldades, de todas as naturezas, inclusive comerciais. Na teoria parecia muito bom, chegaram a criar núcleos de estudo de “esperantistas” pelo mundo afora. Mas não passou de um tubo de ensaio não tendo chegado a resultados relevantes. Não sei como está seu estágio de desenvolvimento, ou se foi abandonado. Teria sido muito bom se essa tentativa tivesse prosperado e se hoje todos os homens tivessem a facilidade de se comunicar na fala e escrita, tanto quanto na música. Isso, sem contar que com as redes sociais em esperanto poderíamos ficar sabendo das fofocas do mundo todo sem precisar de tradutor. Já pensou?. Cheguei a ter duas aulas de esperanto quando bem jovem, e tudo que me lembro é: La kato estas besto, unkau la czërizo  (O gato é um animal, e também o burro). Infelizmente para mim ficou nisso.