Destaque

ÀS FAVAS

                                                       08/04/2017

            Sempre tive ao longo da vida, uma autocensura muito acentuada. Nunca consegui conviver com a hipótese de parecer ridículo ou inconveniente, seja do meu próprio ponto de vista, ou de terceiros. Acredito que isso tenha sido o meu “calcanhar de Aquiles” , tenho vários outros mas talvez tenha sido o mais importante.  Tive uma coleção imensa de medos e receios. Fui me desvencilhando de alguns ao longo do tempo, outros permaneceram até hoje. Ah! Como era difícil chamar uma moça para dançar. Será que minha roupa está condizente com a festa? Será que ela tem namorado? E se ela disser NÃO, vou ficar com uma cara de idiota. Não, não tenho coragem, melhor tomar mais uma caipirinha. Quando a coragem chegava eu já estava eufórico ou bêbado e aí Pimba!!! , Ia lá e falava coisas imbecis e as vezes inconvenientes e o Não vinha com mais veemência (Problema superado quando enfim num lance de sorte me casei).  –  Tinha pavor de falar em público. Vou gaguejar, vou perder o raciocínio, vão me achar despreparado etc. etc. isso embora eu fosse muitas vezes o mais preparado entre todos. Fazer perguntas na aula  era um terror. De antemão já me sentia sendo julgado  por toda a classe. Que pergunta idiota, esse cara  é um burro!!! (superado com o tempo) – Até para comprar tinha dificuldades, se o vendedor me mostrasse muitas opções eu já ficava sem jeito de sair sem comprar nenhuma. Para vender alguma coisa também não era diferente. Ficava com vergonha de dar o preço. Vão achar muito caro e não vão querer, e aí eu sempre vendia por menos do que pretendia (superado com o tempo).  Enfim, intercalando fases melhores e piores vivi asses meus 65 anos. Sempre preocupado com a opinião dos outros. Hoje olhando para trás não creio que fosse só timidez. Era burrice mesmo. Poderia continuar narrando muitas outras situações, mas todas com o mesmo  perfil.

             Como antes tarde do que nunca. Resolvi que pelo resto da minha vida vou mudar radicalmente de atitude. Não vou me importar mais com a opinião de ninguém a menos que venha para me aprimorar. Críticas pura e simples, sobretudo as que nada constroem ficam agora no passado.

             Já me surpreendo fazendo coisas que me pareciam inadmissíveis. Que não “ combinavam”  com a minha personalidade. Vou para a piscina do prédio na segunda feira, levando um jornal e uma cerveja sem me preocupar se os vizinhos vão me considerar um preguiçoso.  Ouço as músicas que quero sem me preocupar se vão achar brega e assim por diante.

As favas a opinião alheia.  Estou adorando essa fase de liberdade.

 

RECOMPENSA EMOCIONAL…

          Há dois anos atrás, em visita a um lar de idosos, minha mulher voltou impressionada com o grau de necessidade ali presente. O apoio oficial é mínimo. A sobrevivência desses lares dependente na maior parte, de doações particulares e trabalho voluntário de pessoas de bem. Muitos colaboram como podem. Doações em dinheiro, alimentos, roupas, cobertores, e outros bens materiais, chegam em volume razoável. No entanto a principal falta que os internos sentem é de afeto, calor e contato humanos. Muitas famílias levam os idosos para esses locais e desaparecem. Alguns passam anos sem contato com a família, isso leva a um alto grau de sofrimento, que aos poucos se transforma em indiferença e no completo desinteresse pelo convívio social. A dor os transforma em ilhas de solidão. As pessoas deveriam fazer uma experiência doando uma hora por mês para frequentar um desses lugares, conversar com os velhinhos, ouvir suas lamentações. O simples fato de conversar com alguém em tamanho estado de carência é uma via de mão dupla. Faz bem a quem recebe e a quem doa, além de ser um gesto de grande generosidade. Ali se encontram vários níveis de lucidez. Escolha alguém, entre em suas fantasias, não contradiga nem argumente muito. Ouça mais do que fale, estabeleça um vínculo por mais fantasioso que seja, não importa. Doe seu tempo, atenção, e carinho sem expectativas de cognição. É claro que também existem crianças carentes, no entanto existem creches em maior número, com maior apoio oficial, e muito mais gente interessada em ajudar, adotar, cuidar. Criança é bonitinha, esperta, brincalhona, sorridente. Velhos são caladões, chatos, rabugentos, reclamam de tudo e talvez por isso não contem com tanto interesse e simpatia.  Na verdade, eles vivem reclusos. É uma reclusão piedosa, mas ainda assim reclusão. São raros os passeios pela dificuldade de pessoal e logística. Portanto, qualquer gesto que minimize o sofrimento humano é sempre bem-vindo por quem precisa, e gera um grande crédito emocional a quem o pratica.

                  Escolhemos um desses locais e passamos a fazer uma pequena festa para os aniversariantes do mês. Levamos um bolo, refrigerantes, salgadinhos fazemos uma mesa de aniversário. No começo esse gesto foi recebido com certa desconfiança, mas hoje é um sucesso total.  Eles ficam esperando pelo terceiro sábado do mês. Esse relato não tem o propósito de auto exaltação, mas simplesmente de demonstrar que existem muitas maneiras de rezar (orar). Fazer o bem sobretudo de maneira direta é uma das mais eficazes.

AVP MAIO/2019

AMIGOS DE VOLTA…

                 Há algum tempo resolvi que não deixaria mais o meu aniversário passar em branco. A medida que vamos ficando “menos jovens” temos uma tendência natural ao isolamento. Seja por comodismo, preguiça, ou pelo feitiço que os meios eletrônicos exercem sobre nós, e consomem o nosso tempo. Celular, televisão, computador, jogos eletrônicos, vão aos poucos substituindo nosso círculo social. Cria a falsa sensação de que estamos próximos. Falo com meus filhos e alguns amigos diariamente pelo WhatsApp, ligo pelo FaceTime para ver e falar com meus netos, mas não é a mesma coisa. O contato pessoal, olho no olho, conversa direta, interação, são ingredientes indispensáveis ao nosso equilíbrio emocional. A convivência em grupo acompanha os homens desde os primórdios de sua existência. Estamos mais acostumados a ele, por isso temos grande dificuldade para nos adaptar  aos novos comportamentos que o  progresso traz. Chegará o dia em que ter amigos virtuais será a tônica, mas até lá, nós da geração “cadeira na calçada para um bate papo com os vizinhos” , vamos ter que procurar alternativas de transição, ou correremos o risco de entrar numa espiral depressiva. Resolvi reunir se não todos, pelo menos boa parte dos meus amigos no meu aniversário, para rever a fisionomia  e  relembrar o tom de voz de cada um. Faço na minha casa, num restaurante ou espaço para festas. Tem sido uma experiência extraordinária, temos nos reaproximado muito. Passei a ligar, ao invés de simplesmente mandar mensagens. Ligo para trocar idéias, conversar fiado, comunicar fatos de interesse comum, fazer uma fofocazinha que ninguém é de ferro, convidar para um café. Amizade é como uma planta, precisa de cuidados, de água, fertilizantes para que os frutos venham em abundância, nutrindo e alegrando a alma de todos. A lei da reciprocidade entrou em ação. Os amigos passaram a retribuir meus convites e as reuniões agora são frequentes. Voltei a ter uma vida social que preenche os meus anseios e da minha mulher. Estamos sempre com os amigos por perto novamente. Isso não tem preço, e é um remédio que mesmo em overdose não faz mal a ninguém. Sugiro a quem ler esse texto, que tente também um comportamento parecido pois te fará muito bem, e com certeza a todos os seus amigos reais, não virtuais.

AVP MAIO/20219

ANJOS EM AÇÃO…

           Dona Tomásia fazia uma sopa de legumes duas vezes por semana por gosto de seu marido Harry, que fazia questão.  Funcionário do Ministério da saúde, trabalhava em ações sanitárias domiciliares, borrifando um produto chamado BHC, nas casas das pessoas, para matar “barbeiros”, insetos transmissores da doença de Chagas. As vezes na cidade, outras na zona rural. Tinha vindo transferido do Piauí há três anos, com a mulher e os seis filhos, quatro deles e dois de criação. Segundo ele aquela sopa era para desintoxicar, temia a contaminação pelo veneno. A mulher caprichava nos temperos, de modo que a sopa cheirava num raio de uns duzentos metros. O bairro era muito pobre, nos casebres vizinhos muito modestos, moravam dezenas de crianças, quase sempre famintas. Geralmente não comiam até que o pai chegasse do trabalho, trazendo um pacote de macarrão, uma carne com osso, um leite, um pão, ou simplesmente um “hoje não deu”. O cheiro da sopa era um forte atrativo. Mesmo antes do seu Harry chegar a noitinha, as crianças começavam a chegar devagar, uma a uma iam sentando ao pé da janela da cozinha. Era organizado, chegavam de mansinho e iam se enfileirando ali no chão, se misturando com os da casa, na esperança que sobrasse alguma coisa para elas. Seu Harry, homem durão, quando chegava de maus bofes, punha a molecada para correr, mas encontrava sempre resistência na mulher. Dona Tomásia se dirigia a ele dizendo “Deixe Harry, as crianças estavam tudinho aí espiando. Devem estar com uma fome amuada, isso não há de fazer falta para nós” E pelo tamanho da panela ela já esperava por eles. Então ele cedia mas salvava sempre seu prato primeiro. Aquela sopa quando liberada para a garotada, era “palhas ao vento”, acabava em segundos. Depois da sopa as crianças iam até suas casas, tomavam banho e ali pelas oito da noite voltavam para assistir ao programa de luta livre chamado Tele catch Montila. Ali estava uma das duas televisões do bairro. A outra era na casa paroquial, e o padre não deixava.  Enquanto viveram no bairro, mantiveram a tradição do sopão e da televisão coletiva. Era como se tivessem uns vinte filhos. Provavelmente sem se dar conta, aquele casal espalhou amor e colheu gratidão de todas aquelas crianças. Chego à conclusão de que os anjos agem assim, de maneira espontânea, sem alarde, vão espalhando pelo mundo, a grande obra de Deus.

LÍNGUAS DIFERENTES…

                        A língua portuguesa original, presente nos livros antigos e falada pela elite cultural portuguesa, soa afetada e pedante.  Na verdade, serviu de gabarito, sobre o qual foram se sobrepondo regionalismos, expressões idiomáticas, influência de outras línguas, até chegar ao idioma que falamos no Brasil. Essas variações são como temperos, que foram tornando mais palatável e mais leve o idioma lusitano. Hoje quando comparamos o português falado no Brasil e em Portugal, percebemos que são duas línguas. O arcabouço é o mesmo, guardam  muitas  similaridades. Porém um cidadão português passeando pelo Brasil tem dificuldades em nos entender. Acha nossa pronúncia engraçada e demora a reconhecer as palavras. Precisa de várias repetições e explicações. Assim também ocorre quando vamos a Lisboa. Banheiro é “casa de banhos”, freios são “travões”, ventania é “buzaranha” fila é “bicha”, balas são “rebuçados”, e tudo com aquela pronúncia rápida e com charmosos solavancos. Ouvi certa vez de um jogador de futebol brasileiro que jogava em Portugal, que tinha contratado um intérprete pois não entendia o que o treinador e os companheiros falavam. A língua que Cabral trouxe em suas caravelas, em pouco tempo passou a incorporar palavras e expressões indígenas. Os escravos africanos, deram uma contribuição muito importante, bem como as levas de imigrantes que aqui aportaram. Hoje o português falado no Brasil é um patrimônio cultural nosso e  e bem que poderia chamar-se língua brasileira. Minha mulher não concorda comigo por ser portuguesa de nascimento e posteriormente naturalizada brasileira. Como veio criança, perdeu o sotaque. Mas insiste em que é a mesma língua. Numa das visitas que fizemos a Portugal, eu procurava imitar a fala das pessoas de lá, e ela não. Um tio dela falando comigo disse “Eh pá! como pode ser isto? Tú és brasileiro, e minha sobrinha portuguesa. A ti percebo, e a ela não percebo nada!”.

                        Não cabe muitas discussão. As línguas do Brasil e de Portugal são próximas, mas cada uma delas tem estrutura gramatical, ortografia, e sonoridade próprias.  Digamos que sejam gêmeas não identicas.

 

 

 

 

BOM SENSO E RAZÃO…

           Estávamos indo para a festinha de aniversário de um sobrinho, num bairro um pouco afastado do nosso. Era uma sexta feira, o trânsito do começo da noite ainda estava pesado. Não consigo relaxar muito quando dirijo. Congestionamentos geralmente acirram meu estado nervoso. Apesar disso, tudo corria bem, até que olhando pelo retrovisor vi uma Kombi costurando no meio do tráfego. Não demorou muito e comecei a sentir pressão. O cara queria passar mas não tinha como, então ele começou a me fustigar, encostando de propósito  no para-choque traseiro do nosso carro.  Minha mulher ficou assustada e as crianças também. e eu pensando “Que maluco, não vê que o transito está engarrafado?” . Cometi o erro de colocar a mão para fora e provoca-lo fazendo um gesto que indicava “passe por cima”. Aí ele ficou possesso, bateu por várias vezes  no meu carro. Minha mulher aflita, as crianças chorando . Não eram batidas muito fortes, mas insistentes. Por fim, resolvi sair daquele bolo. Virei numa rua pequena a direita, e respirei aliviado, pensando “Sujeito desagradável”, mas não tive tempo para retomar a calma, a kombi saiu junto e continuou atrás de mim. Entrei em pânico e comecei a serpentear para não deixa-lo passar temendo que estivesse armado, e fizesse algum mal a mim ou a minha família. Seguimos assim por mais ou menos um quilometro. Eu dirigindo em alta velocidade e em zig zag. Então minha mulher me chamou a razão. “Que loucura é essa?” e eu com, os olhos vidrados na pista falei “Esse filho da p… continua atrás de mim, fungando no meu cangote”. Então ela me deu um sábio conselho, “Deixe ele passar”.  Encostei rapidamente o carro, pois a rua era estreita. A Kombi passou e sumiu no mundo. Era apenas coincidência de itinerário, mas poderia não ser. Aquele gesto de mandar “passar por cima” foi desrespeitoso e infeliz. Fiquei por um longo tempo pensando. “Será que a facilitação para obtenção de armas de fogo pela população não poderia aumentar o risco de tragédias?”. Pequenos aborrecimentos podem se transformar em grandes ofensas e levar a reações desproporcionais à que o caso requer. Se eu estivesse armado, e o motorista parasse para tirar satisfações poderia haver ali um entrevero de consequências imprevisíveis. Tomei uma firme decisão. Não usarei armas. Chamarei a polícia sempre que necessário.

O ESCRITOR…

             Seu Antonio Denófrio, era pai de uma colega de profissão muito querida. Depois que se aposentou do Fisco, começou a dar vazão a uma antiga paixão, as letras. Gostava de escrever, e tinha uma razoável pegada literária. Animava-lhe o fato de que a escritora  e poetisa Cora Coralina, publicara seu primeiro livro aos setenta anos de idade. Ele com sessenta e cinco, já estava no lucro. Em poucos meses  era visto pelas ruas, entrando nas lojas, abordando as pessoas tentando convencê-las a comprarem seus livros  que eram editados em pequenas tiragens. Fazia um breve resumo, mostrando as capas dos exemplares que trazia em uma sacola, com a logomarca da “Roche”, um laboratório farmacêutico que a filha  lhe dera. Não eram de todo ruins, traziam relatos variados de sua larga experiência de vida, abordava temas relacionados a família, criação de filhos e incluía alguma religiosidade, católico fervoroso que era. As vezes se aventurava por temas mais polêmicos, tratava de política, moral e bons costumes. Talvez pudesse ser classificado como um escritor conservador ou de extrema direita. Certo dia me presenteou com um de seus livros, que  trazia conceitos muito bons e estimulava  uma saudável reflexão do tema Pais & Filhos. Era comum as passagens dele pela nossa Clínica, onde já era amigos de todos os médicos e funcionários, passava ali horas lendo jornal, tomando café e batendo papo. De repente ele sumiu, estava atarefado escrevendo dois romances que pretendia lançar na feira do livro, que aconteceria em seis meses no Centro de Cultura e convenções.  Quando chegou o evento, fui com minha mulher numa tarde de domingo. Passeando pelos Stands divididos por assuntos: Medicina e saúde, Ciência e tecnologia, informática, literatura estrangeira, literatura brasileira, variedades. Neste último, deparei com uma pequena pilha de livros sobre uma mesa. Distraidamente peguei um e comecei a ler a “orelha” quando vi a foto do autor, era Antonio Denófrio. Procurei em volta mas não o vi. Folheei o livro que tinha cerca de duzentas páginas, e resolvi levar um exemplar para casa. Vou dar uma força para ele, pensei. Algum tempo depois, Seu Antonio apareceu na Clínica, tranquilo do mesmo jeito, conversa agradável. O boa praça de sempre. Ao chegar para o trabalho, deparei com ele calmamente tomando seu cafezinho e lendo uma revista. Me dirigi a ele e após cumprimenta-lo disse: ‘Seu Antonio, comprei um livro seu na feira literária”. Ele abaixou a revista, e me olhando disse sorridente e surpreso: “Foi você?, fico contente que tenha sido um amigo querido”  Ali percebi que ele não tinha qualquer ambição literária. Escrevia porque gostava, e ponto final.

AVP 26/04/2019

ABSTINÊNCIA…

         Ontem esqueci meu celular na clínica onde trabalho, numa cidade do interior. Fui descobrir a noite quando já estava chegando em casa. Pensei “Bom, eu me viro com o fixo até amanhã. Quando meu sócio voltar, ele traz para mim”. Foi então que deparei com o grau de dependência que tenho hoje deste pequeno aparelho. Grande parte da minha vida, sobretudo profissional está ali dentro. Meus contatos, agenda, compromissos acertados, lembretes e todos os dados que preciso para tocar minha rotina estão confinado naquele minúsculo aparelho.  Tentei me distrair, fui ao telefone fixo ligar para meus filhos e saber dos netos. Não consegui pois não lembrei do número. Há anos que não ligo para ele do telefone fixo, É muito mais fácil abrir os contatos no celular e clicar “filho”, e nisso você vai esquecendo os números dos filhos, dos amigos, da sua própria empresa pois bastar pegar o celular e clicar “Clínica”.  Sabia que tinha uma reunião pela manhã com Diogo, do Banco do Brasil mas não tinha certeza do horário. Não consegui ligar para o Diogo porque não sabia o número, nem dele nem do banco. Só me vinha a mente aquele “Diogo-B.Brasil” no celular. Passei o dia me sentindo incompleto, de pés e mãos amarrados. Tudo que pensava em fazer esbarrava na falta do danado do aparelhinho. É impressionante como vamos transferindo aos poucos o gerenciamento de nossas  vidas para equipamentos eletrônicos. Celulares, computadores, babás eletrônicas, câmeras de vigilância, e um sem número de geringonças que vão aos poucos substituindo nossa memória. Observamos que essa situação tende a piorar drasticamente com o avanço da automação e da robótica. Num futuro razoavelmente próximo poucas serão as tarefas que poderemos executar sem contar com a colaboração desses equipamentos. É o futuro, e dele não podemos fugir. Mas é bem desconfortável essa fase de transição. Já não sentimos necessidade de memorizar quase nada, basta registrar na memória do celular, tablet, computador e pronto. Porém se os perdemos, ficamos praticamente desmemoriados. As crianças já estão nascendo com um “chip” novo, mas nós seres analógicos ainda vamos sofrer muito para nos transformarmos em seres digitais. Já são seis da tarde e meu sócio ainda não chegou. Haja ansiedade! Se ele não trouxer, amanhã bem cedo estarei na estrada. Vou buscar minha memória.

CONTO DA SEXTA FEIRA SANTA…

             Naquele tempo se respeitava as datas importantes do catolicismo, principalmente a quaresma e a semana santa. Na sexta-feira da paixão não se fazia nada, tudo em respeito ao flagelo de Jesus. Não se ouvia música, todo o serviço da casa ficava para os dias seguintes. As pessoas compravam provisões na quinta, porque na sexta o comercio fechava por completo. Era uma devoção intensa, e um dia particularmente triste.

            Seu Joaquim aborrecido com o pouco movimento da pensão avisou a mulher que iria dar uma volta. Saiu pelas avenidas do centro da cidade procurando um bar aberto. Não era propriamente um alcoólatra, pois embora bebesse muito, ainda mantinha um certo controle sobre o vício. Chegava em casa bêbado com frequência, mas sem nenhum desrespeito ou agressividade. Mantinha o nível. Depois de passar  por vários bares e restaurantes, todos fechados em respeito a data, avistou o India Bar, na avenida Araguaia com uma das portas abertas pela metade. O dono estava fazendo um inventário do estoque, para vender o estabelecimento. Entrando pela porta entreaberta, pediu uma cerveja. O homem argumentou que o bar estava fechado, mas em pouco tempo foi convencido e abriu a primeira. Tomando vagarosamente a bebida, seu Joaquim conversava com o homem, cotando estórias de sua vida, e coisas do cotidiano. Quando terminou pediu a segunda. Dessa vez o dono nem argumentou, estava gostando da conversa. Trouxe a cerveja e abriu. O “tizzzzz” da cerveja sendo aberta, provocou em seu Joaquim um efeito estranho, foi ampliando o volume ficou ecoando em sua cabeça. Sentiu-se meio atordoado encostou-se no balcão começou a pensar: “Não é possível, num dia santo tão importante as pessoas recolhidas em suas casas, rezando, jejuando. Eu aqui bebendo”. Não tocou na segunda cerveja que já estava servida, pagou a conta e foi embora com a firme decisão: “Nunca mais bebo nada de álcool”. Tinha naquela época quarenta e três nos de idade, até sua morte aos oitenta e nove, nunca mais bebeu uma gota de bebida alcoólica. Recusava até medicamentos que contivessem álcool em sua composição. Passou a considerar a sexta feira da paixão seu segundo aniversário, e todo o ano repetia a história para a família e amigos.

Nota: Seu Joaquim era meu Pai. Relato esse fato verídico nesta data , 19/04/2029 (sexta feira da Paixão), em sua memória, e do  maravilhoso ser humano que ele foi.

O COPEIRO…

   Perdi o contato com seu Efigênio, assim que saí da empresa onde trabalhávamos e segui minha vida como médico. Soube de sua morte há pouco tempo por um antigo companheiro de trabalho.  Era um negro alto, esguio, aparentando uns setenta anos de idade, tinha os cabelos brancos como uma mecha de algodão. Trabalhava como copeiro na diretoria da empresa. É provável tenha estado ali desde a fundação da companhia. Eu trabalhava a noite no centro de processamento de dados Fomos ficando amigos ao longo do tempo. Sempre que o último diretor saía, seu Efigênio me chamava para fazer um lanche lá em cima na copa. Tenho muita gratidão por aquele baiano simpático, de sorriso fácil. Atento à minha condição de estudante pobre, que fazia faculdade de dia e trabalhava a noite. Me esperava na copa com salgadinhos, suco, leite, e outras guloseimas que um ou outro puxa-saco levava para os diretores. Dizia ele “Venha comer meu filho, sirvo essas coisas o dia todo para os vagabundos que frequentam essa diretoria. Nada mais justo que sirva também para você um jovem lutador e com um brilhante futuro pela frente”. Palavras generosas que inflavam meu ego.  Era meio arredio para falar de sua vida, mudava de assunto quando eu tentava saber sobre ele. A poucos dias  de minha saída da empresa, subi para tomar meu lanche, e o achei triste, falando pouco, então insisti em saber um pouco mais de sua história. Ele puxou uma cadeira e sentou-se, olhando fixamente para mim disse “Trabalho arrodeado de gente todos os dias, mas você é meu único amigo, vou te contar um pouco da minha história, resumida, porque completa daria vários livros”.  Respirou fundo, seus olhos estavam úmidos, senti que era a primeira vez que ele iria falar de si mesmo. “Vim da Bahia com vinte e poucos anos, por conta  de uma maluquice que tinha feito por lá, fugindo da polícia e da ameaça de alguns desafetos. Foi legítima defesa, mais a família do morto não queria saber, então vim para Goiás. Fui trabalhar numa fazenda de um figurão famoso, coronel conhecido, de família de gente braba. Em pouco tempo conquistei a confiança do patrão e assumi o cobiçado cargo de jagunço. A mando desse coronel, fiz uma besteira atrás da outra. Matei gente, expulsei famílias pela posse das terras. Fazia tocaia para acerto de contas e um monte de coisas que Deus não gosta. Um dia fui preso, acusado de vários crimes. O coronel sumiu, não foi nem me visitar na cadeia. Fiquei preso quase vinte  anos. Perdi minha primeira família na Bahia, a segunda já em Goiás e estava só no mundo.” O relato se estendeu por muito tempo, carregado de muita emoção. “Por um golpe de sorte e pela mão de Deus, conheci o Dr. Otto, e ele me trouxe para essa empresa. Desde então trabalho nessa copa, e mudei de vida. Moro sozinho, num barracão pequeno, nuca recebo visitas. Esse nosso pequeno encontro diário, é a parte mais feliz do meu dia. Estou triste porque soube que você vai embora, gosto de você como de um filho. Siga seu caminho, trabalhe sempre honestamente, e não se afaste dos caminhos de Deus”. Aí foi a minha vez de desabar. Trocamos um longo abraço de pai e filho. Seu Efigênio me beijou o rosto e foi embora. Nuca mas o vi, mas tenho por ele um profundo sentimento de carinho e gratidão. Siga sua evolução e esteja em paz meu amigo.

CORAÇÃO DE MULHER…

      Era um medo gigante de enfrentar a vida sozinha, com os filhos para criar, que mantinha Isabel na companhia de Roberto. O homem era um traste. Não era assim a princípio, mas foi se transformando conforme foram enfrentando as agruras da vida. Quando ficou desempregado por falência da empresa, enredou-se em más companhias. Homens que se aglomeravam na porta do Sindicato ou nos pequenos bares das redondezas. Roberto começou a beber. Passou daí em diante a ser rude com a mulher, até na frente dos filhos. Dando início a uma atitude que viria a ser rotineira. Isabel suportava calada. Seu pânico era evidente, como seria a vida sem aquele homem? Teria condições de cuidar das crianças?  No início não trabalhava por exigência do marido, mas como ele seguia desempregado, começou a fazer e vender doces pela vizinhança. Assim que soube, Roberto começou a agredi-la por ciúmes. Finalmente tomou coragem e resolveu romper aquele casamento de nove anos. Não aguentava mais os maus tratos, e além disso, a venda dos doces é que punha alguma comida em casa já há algum tempo. Deixou os filhos com a mãe, e foi para casa esperar o marido para comunicar sua intenção de deixa-lo.  Já passavam das nove da noite quando Roberto chegou, bêbado como sempre, comeu com requintes de deselegância, reclamando da comida, arrotando e desacatando a mulher. Quando finalmente entrou no assunto da separação, Isabel viu seu marido se transtornar. Empurrou a mesa para o lado derrubando a comida. Levantou-se e completamente fora de si apontou o dedo para o nariz da mulher e disse “eu te mato! Se você repetir essa bobagem eu TE MATO”. Isabel estava resoluta dessa vez e ignorando a ameaça falou “Bom, se você não sair de casa, saio eu e as crianças”.  Roberto enfurecido começou a gritar impropérios e agredir a mulher que tentava se defender. Sendo mais franzina Isabel recebeu uma bofetada que a fez sair do chão e cair entre a mesa e a pia da cozinha. Tentou erguer-se, sua mão alcançou uma faca sobre a pia. Roberto não se conformava com aquela conversa de separação e avançou para mostrar à mulher quem era o dono do pedaço. A última coisa que viu, foi o brilho da lâmina mergulhando macio em seu abdome, e a mulher dizendo “Eu não vou apanhar mais seu bêbado miserável”.  Isabel repetiu o gesto várias vezes, até ver o marido com os olhos esbugalhados cair no piso frio da cozinha. Quando recuperou a razão, seu primeiro pensamento foi de arrependimento e de dúvida. “E agora, o que vou fazer sem ele?”.  Tem base?