DESPREZO PELA VIDA…

             A garotada brincava alegremente durante o recreio. Um improvisado jogo de futebol se desenrolava na pequena quadra de cimento. Dois times corriam freneticamente atrás da bola. De repente alguém gritou “corre gordo!”. o pequeno Rafael, de oito anos, parou de correr, virou-se para o autor do insulto e disse “Gordo é seu cu! vou reclamar para a tia Sandra”, e correu em direção a diretoria, onde já chegou chorando para relatar o ocorrido. A diretora ouviu, consolou o menino mas não deu muita importância pois era um fato repetitivo, e no fim as próprias crianças se acertavam. Chegando em casa Rafael contou ao Pai e pediu para mudar de escola. Não suportava mais ser chamado de “gordo”.  Encolerizado Fernando, policial aposentado, de gênio forte, ligou para a escola, espinafrou a diretora e ameaçou intervir pessoalmente para defender o filho. Alguns dias depois, foi buscar o Rafael na escola, encontrou com Carlos, pai de Fred, o outro garoto, e aproveitou para tirar satisfações. “Seu filho está chamando o meu de gordo,  se continuar fazendo isso vou dar um corretivo nele”. Carlos ainda tentou contemporizar, mas os ânimos se exaltaram, então ele disse “Você não é homem para bater no meu filho. Se fizer isso vai se ver comigo”. Essas sementes uma vez plantadas podem preceder a tragédias. Com a repetição do fato, os pais voltaram a se enfrentar desta vez de forma mais violenta. Fernando perdeu a razão e deu um tapa em Fred, que ofendera seu filho novamente. Carlos não se contendo foi até o carro pegou uma arma e baleou Fernando no peito que mesmo prontamente socorrido, já chegou morto ao Hospital. Carlos foi preso em flagrante por uma patrulha policial que passava. Com certa frequência vemos nos jornais e na televisão, episódios igualmente ou mais violentos, perpetrados por crianças e jovens que se dizem vítimas de bullying. Jovens que invadem escolas e atiram indiscriminadamente em colegas e professores. Pessoas que retornam a antigos empregos e atentam contra a vida dos ex-colegas. Tudo em nome desse conceito moderno chamado bullying, que até vinte anos atrás passava despercebido, e o tempo acabava resolvendo as diferenças. Embora o caso dos dois garotos tenha culminado nesse trágico desfecho, uma semana após o velório, eles já estavam brincando novamente. Depois da aula Fred chamava o amigo “vem gordo, vamos brincar de pique esconde.” E os dois saíam correndo para encontrar o resto da turma.

O VALOR DE CADA UM…

           Suely chegou ao trabalho antes das seis da manhã. Era enfermeira no centro cirúrgico do hospital Camilo Dantas no centro de Jundiaí. A primeira cirurgia do dia era hérnia de disco e seria realizada pelo doutor Daniel, as seis e meia. Tomou café rapidamente e foi preparar a mesa com os instrumentos cirúrgicos. O médico era um cirurgião jovem, mas já renomado e muito exigente. Chegou pontualmente e começou a verificar se estava tudo certo e se estavam todos a postos. Notou que o anestesista ainda não tinha chegado, e o paciente ainda não estava na sala. Pronto, foi o bastante para ele perder as estribeiras. Encolerizou-se de tal forma que começou a desacatar a todos, falando palavras chulas e de baixo calão. Suely tentou acalmar os ânimos e aí sobrou para ela. “Sua incompetente” gritou o médico “porquê não tomou providências, você é a enfermeira chefe do centro cirúrgico. Isso aqui está uma bagunça, nunca trabalhei em lugar pior” Gritava, gesticulava e ofendia todo mundo. Nisso chega Dr. Fidélis, o anestesista, entrou de mansinho na sala, vendo Sueli com cara de choro, e o cirurgião fazendo todo aquele espalhafato dirigiu-se a ele com calma, “O que está acontecendo aqui Daniel? Porque essa brabeza toda?“ O homem se exasperou mais ainda, “Você ainda pergunta? não sabe respeitar horário não? Estou de saco cheio de marcar cirurgia e nunca começar na hora, vocês são uns irresponsáveis. Se continuar assim não vou mais operar nesse hospital. Vou me queixar a direção”.  Uns vinte minutos depois, a cirurgia começou, com um clima pesado, ninguém falando com ninguém. A paciente, uma mulher de quarenta e nove anos, vinha queixando-se de fortes dores na coluna lombar, irradiando-se para a perna direita, que a impedia de andar e trabalhar. Fora convencida pelos filhos a se submeter a cirurgia, e esperava uma recuperação rápida. A certa altura, o cirurgião desconcentrado pela raiva, aprofundou o bisturi mais do que o normal, e lesou uma artéria importante, que devia ser preservada. Assustado, tentou debelar o sangramento, gritou com o auxiliar, um residente do quarto ano “pince a artéria seu idiota, você é oligofrênico? “A incisão era pequena, e o auxiliar teve grandes dificuldades. “A pressão está baixando muito” avisou o anestesista ligando mais um frasco de soro com drogas vasopressoras e mandando chamar o banco de sangue. Suely movimentava-se com destreza, aspirando, trocando as compressas e tentando manter o campo cirúrgico o mais limpo possível. O cenário parecia um campo de guerra. O banco de sangue chegou e iniciaram a transfusão. Nesse meio tempo, Daniel e o auxiliar suando em bicas, ampliaram um pouco mais a incisão e finalmente conseguiram pinçar o vaso que sangrava. Respiraram fundo e então foram corrigir a hérnia da paciente.  Embora estivesse estressado ao máximo, durante aquela intercorrência Daniel começou a pensar na importância da equipe. De nada valeria todos os seus títulos, fellows e outros comprovantes de especialização. Sem o esforço de todos, teria perdido a paciente.  Desse dia em diante transformou-se num ser humano melhor e mais humilde. Ao término da cirurgia, reuniu a equipe toda e se retratou pedindo desculpas e reconhecendo a importância de cada um. Perdeu por completo aquela postura de semideus, tão própria dos médicos jovens que acreditam ter poderes e soluções para tudo. Esses profissionais prepotentes e agressivos, geralmente procedem assim para disfarçar insegurança, e raramente reconhecem que o diploma que recebem é simplesmente uma autorização oficial para começarem a aprender. Daniel tomou por ensinamento que humildade e agua benta não fazem mal a ninguém.

 

 

 

 

BERENALDO…

        Passeando de barco pela lagoa de Mundaú em Maceió, puxei conversa com o barqueiro. “Como é o seu nome amigo?”, ele sorrindo com aquela alegria natural dos nordestinos disse “Berenaldo, e tenho certeza que tu não vai esquecer vai? quantos Berenaldo tu já encontrou na vida?” Pensei alguns segundos e disse “você é o primeiro”.  Na conversa que se seguiu, perguntei a Berenaldo se ele nunca tinha tido vontade de migrar para São Paulo como milhões de conterrâneos seus. “Já tentei uma vez” disse ele, e me contou essa história.

          “Nasci e me criei numa cidade pequena, Girau do Ponciano, ali pelas bandas de Arapiraca. Terra seca da peste! Quando completei dezoito anos escrevi a Ribamar, um primo meu que mora em S.Paulo, dizendo de minha intenção de me mudar para lá. Com a aprovação de Ribamar no mês seguinte entrei num ônibus  desses clandestinos e quatro dias depois estava em São Paulo. Era dia três de Julho, nunca me esqueci porque quando desci do ônibus tava um frio arretado. Pensei que meus ossos iam se partir. Pedi ao Padre Cícero para me ajudar, e de longe avistei meu primo.   Antes de cumprimentar Ribamar já disse logo “Primo, que diabo de frio da moléstia é esse, homem?” Ele riu e disse “oxe! tu escolheu a data errada, estamos no inverno. Vai ficar assim até meados de agosto”  e me entregou um agasalho pois já previa a situação.  Vesti a jaqueta e melhorou um pouco, mais ainda sentia frio nas mãos, pés, e nas pernas pois a calça era de pano fino. Ribamar disse “Bora andá, se ficar parado o frio aumenta” e saiu apressado. Eu o seguia de perto e quanto mais andava  mais o frio aumentava. Por sorte descemos umas escadas e embarcamos num trem que parecia uma minhoca andando por baixo da terra. O frio diminuiu um pouco, tinha muita gente no vagão. Finalmente chegamos ao Grajaú, bairro onde Ribamar morava. Fui tumá banho, pois embora Ribamar não tenha dito, eu me sentia uma jaratataca depois de quatro dias de viagem. A água era morna, mas quando saí do chuveiro, comecei a tremer feito vara verde corri para o quarto e me meti debaixo das cobertas até parar de tremer. No dia seguinte Ribamar me chamou cedo e fomos tumá café na padaria da esquina. O frio tava matando. Aí apareceu uma novidade. Quando eu falava, saía fumaça de minha boca, de minha venta. Fiquei vexado, nunca fumei na vida. Tentava disfarçar cobrindo a boca com a mão quando falava. Entramos na padaria e Ribamar pediu um café pingado e um “racha e brea” que logo descobri que era um pão francês passado na chapa com bastante manteiga. Pedi o mesmo. Um cachorro veio deitar encostado nos meus pés. Incomodado, dei um chute no cachorro e ele deu um latido comprido “Auuuuu” aí percebi que saiu fumaça da boca do cachorro. Então pensei cachorro não fuma, isso deve ser outra coisa. Também percebi que não era só eu, mas todas as pessoas. Parei de ficar vexado.  Ribamar já tinha arranjado uma vaga para mim no obra em que estava trabalhando. Trabalhei ali o justo tempo de juntar um dinheiro para a passagem de volta.  Chegando a Maceió, arranjei esse emprego e fiquei quieto. Ganho pouco, mas não tenho que enfrentar um clima daquele. Deus me livre! Meu lugar é aqui.

              A conclusão que tirei, é que Berenaldo desistiu diante do primeiro obstáculo. Mas ele não estava errado.  Simplesmente não quis pagar o preço que milhões de nordestinos pagaram. E se todo nordestino migrasse para São Paulo, quem estaria dirigindo aquele barco, naquele passeio tão agradável. Por tanto, as coisas dão certo para uns e não dão para outros. É questão de acertar o seu espaço, e se sentir feliz com ele. Esse era o caso de Berenaldo, que parecia feliz, sem ter a menor saudade de São Paulo.

QUERIDO MESTRE…

               Nunca gostei muito das aulas de português, exceto as de leitura e interpretação de textos. Acho que tinha a ver com o professor Geraldo da Paixão, homem simples, dedicado, e com um profundo amor pelo que fazia. Reforçava diariamente a seus alunos, a importância de ler com atenção, interpretar, e reproduzir os mais variados tipos de texto. Não importava se prosa, poesia, ficção ou realidade, textos históricos, bíblicos, o que fosse, seu esmero era o mesmo ao ensinar seus alunos. Fazia perguntas de surpresa para avaliar o grau de compreensão. Mandava repetir com as próprias palavras, e se não ficasse satisfeito o aluno ficava lhe “devendo” para ser cobrado quando lhe aprouvesse. Como não sabia quando  seria cobrado, via de regra o aluno tratava de estudar. Mestre Geraldo, não se preocupava muito com as notas mensais dos alunos. Mas, avisava desde o início do ano, que seria muito rigoroso na prova final. Quem chegasse lá precisando de nota alta estava em maus lençóis. Não tinha perdão, se não conseguisse por méritos próprios não adiantava chorar, era bomba na certa. Falo do professor com admiração e respeito. Estava sempre disponível para ajudar os alunos sempre que fosse solicitado. Um dia, enquanto fazíamos um exercício em classe, o mestre parou junto a minha carteira por alguns minutos e disse “venha falar comigo depois da aula”. De pronto fiquei preocupado e quando soou a sirene, me dirigi a sua mesa. “Você parece gostar muito da minha matéria. Quero que seja meu auxiliar ajudando alguns colegas com mais dificuldade. O que acha?” disse ele. Feliz e surpreso aceitei a incumbência. Fizemos uma boa parceria até que deixei a escola três anos depois. Uma coisa curiosa é que ele gostava muito de um poema de Arthur de Azevedo, chamado “VELHA ANEDOTA”,  praticamente obrigava todos os seus alunos a decora-lo e declama-lo perante a classe. Uma das maneiras de saber se uma pessoa estudou na Escola Técnica de Goiânia na década de 60, é manda-lo declamar esse poema. Peço licença para transcreve-lo abaixo, em homenagem  ao grande mestre.

VELHA ANEDOTA  (Arthur de Azevedo)

Tertuliano, frívolo peralta

que foi um paspalhão desde fedelho

Tipo incapaz de ouvir um bom conselho

Tipo que morto não faria falta.

Lá um dia deixou de andar à malta,

E, indo à casa do pai, honrado e velho,

A sós na sala, diante do espelho,

À própria imagem disse em voz bem alta:

– Tertuliano, és um rapaz formoso!

-És simpático, és rico, és talentoso!

-Que mais na vida se te faz preciso?

Penetrando na sala, o pai sisudo,

que por trás da cortina ouvira tudo,

Severamente respondeu – Juízo!

Homenageio a todos os mestres que tive, na pessoa do professor Geraldo da Paixão que há muito partiu, mas deixou um grande exemplo de amor à arte de ensinar.

NOSTALGIA…

          Vivo hoje numa cidade de mais de 1.5 milhões de habitantes, e que nada mais tem a ver com aquela cidade pequena, com cerca de 70.000 pessoas para a qual nos mudamos em 1956. Naquela época era possível contar os carros que circulavam pelas ruas, todos importados, caros e feios pra chuchu. Meu vizinho tinha um Packard preto que usava como táxi para fazer umas cinco corridas por mês. Ah, que vida tranquila!  Ainda criança, circulava desenvolto pelas ruas e avenidas. O risco era quase nulo, criminalidade baixíssima. As escolas, quase todas públicas, tinham um ensino de alta qualidade e um quadro de professores extraordinários que realmente ensinavam o que iria fazer diferença para os alunos, sem perder tempo com coisas inúteis e sem extrapolar os reais objetivos da escola. E tinham dos alunos, todo reconhecimento e respeito. Hoje, olhando para trás sinto muita falta daquela cidade que foi se distanciando no tempo, até se transformar nessa metrópole que nos exige um tremendo esforço para suporta-la. Há poucos dias entrei no carro para visitar uma obra social num bairro periférico. O transito estava tão engarrafado e desumano, que meia hora depois, eu ainda não tinha andado dois quilômetros. Um calor infernal tornava a situação mais insuportável ainda. Não tinha jeito de me livrar, então liguei o rádio e tentei relaxar, a música estridente feriu meus ouvidos aumentando o desconforto. Rapidamente passei para um noticiário, aí sim! piorou mais ainda, era uma entrevista do diretor de uma ONG dessas que dizem proteger florestas, índios, mas cujos componentes nada entendem do assunto, e jamais saíram dos escritórios com ar condicionado. Por fim desliguei o rádio e passei a prestar atenção nos transeuntes, morrendo de inveja pois a pé eles estavam mais rápidos que eu. A avenida que eu percorria era uma das principais. Não pude evitar a lembrança de percorrê-la tranquilamente quando menino, em direção ao Cine Goiás, ou Santa Maria para as matinês de domingo. Carros praticamente zero. Milhares de bicicletas se amontoavam nas ilhas centrais das ruas e avenidas. Não é só por saudosismo que descrevo aquele tempo. Os mais jovens não têm esse parâmetro de comparação. Já nasceram no meio do caos, da correria, das dificuldades de locomoção, e por isso nem sabem a diferença. Porém nós, “menos jovens”, sabemos bem comparar os tempos. Não se pode deter o progresso, faz parte da evolução humana. No entanto, ele tem cobrado um alto preço em ansiedade e qualidade de vida a todos nós. O que aqui faço não é uma mera reclamação, visto que o progresso me beneficiou muito pessoal e profissionalmente e por isso sou grato. Mas que tenho saudade daquela vida tranquila e da cidade pequena na qual viemos morar naquela época, isso não posso negar.

AVP – 27AGO/2019

ESPERANTO

        Antes de começar a escrever essa crônica, liguei o spotfy e coloquei num delicioso Jazz, esse gênero de música tem o dom de me acalmar e me deixar num estado de espírito meio Zen. Aproveitando o gancho comecei a pensar na importância da música para as pessoas e para o mundo. Acompanhei muitos movimentos musicais ao longo da vida. Ye Ye Ye, bossa nova, tropicália, jovem guarda , até gêneros mais modernos  como Funk, Hi Hop, sertanejo universitário, e cheguei a conclusão de que todos eles foram  reflexo de comportamentos sociais, revolução de costumes, ou marcos de tribos diversas. Todos eles no entanto têm uma existência limitada, duram até a próxima mudança de conceitos sociais.  Poucos são os gêneros musicais que extrapolam o tempo, desses derivam todos os outros passageiros e efêmeros. O Jazz é um desses gêneros, soma-se a ele a música erudita (clássica) em seus mais diversos desdobramentos.  Estando presente em todas as situações de nossas vidas, alegres, tristes ou comemorativas, essa maravilhosa descoberta humana simbolizada por apenas sete notas primárias, merecem todas as nossas homenagens. A música  é uma linguagem universal. Um músico indiano, australiano, tibetano, russo pode executar uma música escrita por um brasileiro, americano, mexicano sem nenhuma dificuldade. Basta a partitura baseada nas sete notas citadas.  Bom também seria se isso se aplicasse à linguagem falada e escrita. Há tempos não ouço, nem leio a respeito, mas já houve uma tentativa de se universalizar a comunicação  através de uma linguagem chamada “ESPERANTO, criada em 1887 por um médico polonês chamado Ludwik Lejzer Zamenhof. Provavelmente o nome escolhido refletia a esperança de que todos os homens se entendessem numa mesma língua. Deve ter esbarrado em grandes dificuldades, de todas as naturezas, inclusive comerciais. Na teoria parecia muito bom, chegaram a criar núcleos de estudo de “esperantistas” pelo mundo afora. Mas não passou de um tubo de ensaio não tendo chegado a resultados relevantes. Não sei como está seu estágio de desenvolvimento, ou se foi abandonado. Teria sido muito bom se essa tentativa tivesse prosperado e se hoje todos os homens tivessem a facilidade de se comunicar na fala e escrita, tanto quanto na música. Isso, sem contar que com as redes sociais em esperanto poderíamos ficar sabendo das fofocas do mundo todo sem precisar de tradutor. Já pensou?. Cheguei a ter duas aulas de esperanto quando bem jovem, e tudo que me lembro é: La kato estas besto, unkau la czërizo  (O gato é um animal, e também o burro). Infelizmente para mim ficou nisso.

A HERANÇA…

              O Coronel Lindoso tinha três filhos e uma filha, e a vida toda tentara mantê-los por perto para ter controle sobre eles, e ao mesmo tempo ir transmitindo seus conhecimentos de fazendeiro experiente, ensinando-lhes a enfrentar os ardis da vida no campo. Vivia numa propriedade grande onde criava gado e cultivava café.  Esperava que quando partisse dessa vida, seus filhos dessem continuidade  e ampliassem  aquele  patrimônio que lutara tanto para conseguir. Porém a medida que foram completando maioridade, os filhos homens começaram a manifestar desejo de se livrarem daquele jugo opressivo do Pai.  o mais novo foi o primeiro a seguir seu rumo. Com a pequena economia que tinha, comprou parte de um garimpo de diamantes no Tejuco e foi cuidar de sua vida, sentindo-se respirar mais fácil assim que transpôs as divisas de Rancho Alegre. Os outros dois também alegando vocações diferentes partiram para São Paulo onde se estabeleceram no comércio. A filha, moça prendada, aprendera com a mãe os segredos da boa mesa e de uma boa governança doméstica, era a caçula, e nunca pensou em  ir embora. Casou-se cedo com o filho do professor da escola rural que frequentava. A princípio o velho Coronel não gostara da escolha, porém em pouco tempo o genro lhe caiu nas graças. Jovem forte, trabalhador incansável, e como se mostrava de confiança Lindoso foi aos poucos dividindo  com  ele a tarefa de administrar seu patrimônio. As notícias se espalharam rapidamente, e logo começaram a chegar manifestações dos filhos distantes, descontentes com a atenção e o tratamento que o pai dispensava ao cunhado. Tinham ficado sabendo que Cantídio  estava mandando mais na propriedade que o próprio sogro. Aquilo não estava certo, onde já se viu entregar o controle dos bens a uma pessoa que entrara na família há pouco tempo, diziam eles. O Genro tinha grande respeito pelo coronel e seguia trabalhando sem dar ouvido aos cunhados. “Porque não ficaram para ajudar o pai?” pensava ele. Tempos depois, Lindoso pensando numa maneira de pacificar e reunificar a família resolveu reservar uma parte das terras para ele e a mulher, e dividir o resto com os filhos. Preferia fazê-lo em vida pois previa grande embates depois de sua partida. Aproveitando a festa do seu octogésimo aniversário, com todos os filhos presentes anunciou que havia feito a partilha conforme sua vontade. Ficaria com  vinte por cento, destinaria quarenta por cento para a filha e o genro e os outros quarenta por cento seriam divididos entre os outros três filhos. Aproveitou para chamar os filhos de volta para trabalhar e desenvolver o que herdaram.  Estava disposto a orienta-los e ajuda-los. Nem consideraram o chamado, foi uma confusão, os ânimos se acirraram mais ainda e passaram a nem se falar. Mas foi tudo feito segundo a vontade do Coronel. Homologada a partilha e regularizados os documentos.  Em menos de dois anos, só a filha e o genro continuavam lutando e progredindo. Os outros venderam as suas partes e romperam definitivamente com o resto da família. Após o falecimento dos Pais, os que se sentiram lesados entraram na justiça para para rever e modificar a partilha. Então tiveram nova surpresa, Lindoso havia feito outro documento deixando os vinte por cento que reservara para si e sua mulher, também para a filha e o genro, como bônus por nunca terem lhe abandonado. A ação de revisão já se arrasta por mais de quinze anos, os três reclamantes já gastaram praticamente tudo que herdaram e provavelmente perderão. Pouca coisa causa mais discórdia do que dinheiro, sobretudo o que vem de mão beijada.

UTILIDADE PÚBLICA…

            Aos poucos a vizinhança foi se acostumando com aquele homem de pele escura, mal vestido, com aparência de mendigo, que dormia sob a marquise de um prédio abandonado da rua 42, próximo a minha casa em Maringá. Chegava por volta das seis da tarde,  trazendo o que parecia ser todo o seu patrimônio. Uma mochila, com algumas panelas velhas penduradas, um cobertor surrado e uma pequena pochete que trazia junto ao corpo para os documentos e alguns papeis. As vezes, quando o tempo ajudava, era visto na madrugada tomando banho no chafariz da praça. Tinha um português muito bom para um “sem teto”. Acostumamos a pensar nele como um louco inofensivo, seu nome era Gerson. Nosso primeiro contato ocorreu por acaso. Eu atravessava a rua, quando ele me abordou pedindo uma caneta para terminar uma carta. Remexi os bolsos e encontrei uma BIC que sempre trazia comigo. Fiquei curioso e não me contive. “Para quem você escreve cartas?” O homem fez uma longa pausa, depois me olhou nos olhos e disse “Se tiver tempo sente-se aí que vou lhe contar uma história”. Escreveu mais umas duas frases na carta, assinou, dobrou o papel e enquanto me devolvia a caneta começou a se abrir. “Escrevo mas não envio as cartas, não sei mais o endereço, já faz muito tempo. Não sei mais da minha família. Acho que sou do Rio de Janeiro, mas não tenho certeza. Tenho apenas alguns flashes de memória. O nome de minha mulher Marília, é das poucas coisas que me lembro. Vivíamos numa casa bonita, perto de uma estação de metrô, mas não me lembro da rua, número nada nada, por isso não envio as cartas. Acho que não temos filhos. Ou será que temos?” Eu estava cansado e com fome, mas achei que aquele homem precisava muito de mim naquele momento, então fiquei impassível ouvindo sua história, e pensando numa maneira de ajuda-lo. Continuou falando por mais de meia hora. Era uma narrativa confusa, e não consegui captar mais nada. Levantei-me fui até a padaria da esquina, comprei pão e mortadela, uma garrafa de refrigerante, levei para ele, me despedi e fui para casa. Contei para minha mulher que ao fim me disse. “Amanhã você volta lá e tire uma foto dele, vamos postar nas redes sociais”. De posse da foto pedi minha filha de catorze anos para me ajudar a “viralizar” na internet acrescida do nome, altura estimada, cor da pele, idade aproximada, e meu endereço eletrônico para contato. Nos dias seguintes recebi muitos contatos falsos, com brincadeiras de mau gosto e já estava quase desistindo quando chegou uma mensagem de Marília, com telefone para contato. Ao ligar tive certeza de que era a mulher de Gerson. Segundo suas informações ele era cirurgião pediátrico num hospital em Duque de Caxias. Após um insucesso cirúrgico em que perdera um pequeno paciente, foi submetido a um processo no Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro e considerado culpado. Entrou num estado de depressão muito intenso e um dia simplesmente desapareceu. Virou um andarilho e saiu pelo País vivendo da caridade alheia, até ser encontrado vários anos depois aqui no interior do Paraná. Marília chegou dois dias depois para buscar o marido. Fiquei feliz pelo seu emocionado reencontro com a família, e extremamente impressionado com a força das redes sociais. Quando utilizadas para o bem, essas ferramentas prestam um inestimável serviço de utilidade pública. A volta para casa fez Gerson aos poucos se recuperar e voltar a trabalhar. Nunca mais quis operar, e hoje exerce Clínica geral no Rio de Janeiro. Nunca mais o vi, mas nos falamos por telefone, geralmente por volta do Natal. Ah, na época não tinham filhos, agora têm um casal. Marília deu meu nome ao menino “Diomedes”, é muita honra!

A FACE VISÍVEL…

                 Quando florescem os Ipês na minha terra, a beleza se expõe nas cores roxa, branca e amarela, induzindo todos nós à reflexão sobre a grandiosidade e a importância da natureza. Antes deviam ser muito mais numerosos, mas a chegada dos desmatamentos, para formação de pastagens, lavouras, e outros fins os reduziram a esparsos exemplares ao longo das estradas. Percorro semanalmente uns quatrocentos quilômetros de uma estrada que felizmente ainda conta com dezenas dessas árvores ao longo de seu trajeto. Espero com ansiedade a chegada dos meses de julho e agosto, para revê-las e me deliciar com esse espetáculo grandioso e gratuito. Fico pensando, se essa renovação cíclica da natureza não seria uma linguagem usada pelo criador para se comunicar conosco? Lembrando que ele está lá, vivo, vigilante, zelando pelo bem dos seus filhos. Quando a natureza se manifesta não aceita argumentos. Se impõe pela beleza para nos premiar ou pela força para nos repreender. Nessa época sou invadido por um sentimento de euforia e esperança e me sinto feliz em perceber que por mais dura que tenha sido a vida, e ela teve momentos muito difíceis, não perdi a capacidade de me emocionar com as mensagens da natureza. Acho grandioso e me sinto privilegiado por conservar em mim, sensibilidade suficiente para admirar o belo. São duas faculdades que diferenciam o homem do restante dos animais, a razão e a capacidade de se emocionar. Nos últimos tempos a natureza tem sido agredida de maneira brutal pelos homens, que por ambição ou desconhecimento, acreditam que os recursos naturais são inesgotáveis, e que portanto, a preocupação de preservar e proteger o meio ambiente não se justifica. Com isso vieram “reprimendas” como aquecimento global, aumento de tornados, furacões, enchentes, deslizamentos de terra e outras. Ainda é tempo, podemos e devemos repensar nossa relação com a natureza, voltando a preserva-la com zelo e carinho. Repassar aos mais jovens, e sobretudo as crianças a importância de fazê-lo, garantirá a continuidade das ações de recuperação, deste que é o nosso maior patrimônio. Tenhamos em mente que a natureza não é simplesmente uma criação de Deus, mas a sua face visível. Existem muitas maneiras de rezar (orar), respeita-la e conserva-la para as futuras gerações, é uma das mais eficientes.

MEDIDA AMARGA…

            Bira abriu vagarosamente o envelope que o carteiro enfiou por baixo da porta, e começou a ler a carta. Era de seu irmão que continuava morando em sua cidade natal, no interior de Mato Grosso. Trazia notícias ruins sobre a saúde de seu pai. O velho estava perdendo rapidamente a lucidez e começando a agir de maneira confusa e temerária, na condução de seus negócios. A família estava solicitando sua presença em Águas Claras para avaliarem a situação. A ideia geral era interditar juridicamente o Pai, e proteger o patrimônio familiar. Bira deixara sua terra há dez anos, mudando-se para São Paulo. Tinha na época vinte e um anos, e queria estudar. Seu pai foi contra sua partida e não lhe deu recursos para a viagem. Seguiu magoado, tinha trabalhado muito na fazenda e quando quis partir não levou nada. Conseguiu um emprego de garçom com ajuda de um conterrâneo que já morava na cidade grande, e sua vida voltou a entrar nos eixos. Estudou direito e passou num concurso público para auditor da receita Federal. Tinha contatos esparsos com a família e só tinha voltado uma vez para uma rápida visita por ocasião da morte da mãe. Agora vinha essa notícia tira-lo de sua zona de conforto. Resolveu ir para não ser omisso, afinal já perdoara o pai há muito tempo.

               Uma semana depois seguia num Jeep de seu primo Calil que o apanhara no aeroporto de Cuiabá, em direção a Águas Claras. Ao chegar na presença do pai, esse o fitou longamente com um olhar sem brilho, e não deu sinal de reconhece-lo. “É o Ubirajara pai, ele veio fazer uma visita” disse Dalva sua irmã. O ancião estendeu a mão em direção ao filho e disse “Muito prazer, eu sou o Genésio, dono da fazenda”. Bira emocionou-se. Seu Pai estava muito magro e enfraquecido. Fora outrora um homem forte, disposto, enfrentando a lida diária tal qual os peões que contratava. A viuvez, no entanto, cobrou seu preço. A partir da morte da mulher o velho patriarca “murchou” estiveram juntos mais de cinquenta anos. Não conseguiu se reerguer nem fisicamente nem mentalmente. Desinteressou-se pelos negócios e pela própria vida, enfileirando prejuízos em transações grandes ou pequenas, daí a preocupação em interdita-lo. Olhando o pai naquela posição de fragilidade, Bira foi acometido de profunda tristeza pois não adiantaria mais dizer-lhe que o amava. Então curvou-se e deu-lhe um beijo carinhoso, o velho fazendeiro nem se moveu. Bira afastou com os olhos cheios de lágrimas e foi se reunir com seus irmãos. Teriam mesmo que tomar aquela providência que a princípio lhe parecera cruel, mas que agora entendia ser para a sua proteção.  Na caminhada até a sala percebeu que seu amor pelo Pai nunca diminuíra, mas mesmo assim independente do amor que sentia, era obrigado a concordar com aquela medida tão amarga.

AVP/AGO/2019