MARTINHO

                 “Dona Isabel, o Martinho caiu do pé de manga e eu acho que machucou” gritou um menino de cabelo sarará. A senhora de meia idade que lavava roupa em um tanque improvisado na varanda de trás da casa abandonou o que fazia e correu em socorro do filho. Era um garoto de dez anos, loirinho, e bastante levado. Vivia subindo nas árvores, nadando nos açudes das redondezas, e caçando inhambus e codornas nas palhadas onde era cultivado arroz e onde se mostrava hábil no manejo do estilingue. Nesse dia subiu numa mangueira alta para investigar a existência de um ninho de pássaros que suspeitava existir nos galhos mais altos da árvore. Quando já quase alcançava o topo, esbarrou sem querer numa caixa de marimbondos. Tentou desesperadamente descer e para isso abandonou todos os cuidados. Seu negócio era pressa. De repente, pendurou num galho mais fino que não aguentando seu peso  quebrou. Caiu de uma altura de uns cinco metro, e conforme a mãe constatou assim que o viu, quebrara um dos braços Além de ter levado umas dez picadas ou mais dos marimbondos. O vizinho veio ajudar, pegou o menino  no colo e o colocou em uma carroça que passava e rumaram para o único hospital de Caçú na região  sul de Goiás. O médico que estava atendendo era um jovem recém formado, que empalideceu ao ver o braço do menino com uma tortuosidade estranha. Era a primeira vez que ficava sozinho tomando conta do hospital todo. Mais aflito ficou quando percebeu que a criança estava com a respiração cada vez mais difícil. “Que será meu Deus?”, não dava tempo de consultar nenhum livro, tinha que dar uma solução para o caso ali, na bucha. Já tinha lido a respeito de reações alérgicas fatais após picada de abelhas e outros insetos, mas nunca tinha visto um caso assim, ao vivo. A respiração do garoto piorava e foi ficando ruidosa. Resolveu fazer um corticoide sabia que era usado em situações de emergência respiratórias mas não pode fazê-lo porque simplesmente não tinha no hospital. O Garoto começou a arroxear as mãos e os lábios. A enfermeira informou que tinha um médico já aposentado que morava ali próximo ao hospital, e que talvez pudesse ajudar. O jovem doutor não se fez de rogado abriu mão do orgulho e disse: “Mande chama-lo agora”. Quando o  doutor Brito chegou olhou a situação e do alto de seus quase cinquenta anos de medicina, tomou a única atitude que podia. Mandou tirar todos os acompanhantes e estranhos da sala, fechou a porta e disse ao jovem colega: “Rápido, vamos fazer uma traqueostomia, e vamos fazer aqui mesmo, não dá tempo de arrumar o centro cirúrgico”, alguém alertou que não tinha a cânula apropriada. “Então vamos improvisar”. Enquanto higienizava o pescoço do garoto que já estava semi-inconsciente pediu a sonda retal mais fina que tivesse, cortou as duas pontas e ficou com um pequeno tubo de polietileno de mais ou menos uns 4 a 5 centímetros. Fez uma anestesia local no pescoço de Martinho, com o bisturi fez um corte até a traqueia do menino, depois abriu-a e colocou o pequeno tubo pelo corte até o interior da traqueia. Os pulmões se encheram imediatamente, e Martinho passou a respirar pelo tubo. Uma funcionária chegou da farmácia trazendo o corticoide e o doutor administrou no garoto sem se preocupar muito com a dose. “Emergência é emergência” disse ele. Em poucos segundos a cor arroxeada começou a desaparecer e a respiração do menino foi voltando ao normal. Olhando para o jovem plantonista disse:  “Foi um edema de glote, tivemos sorte, providencie a ambulância e o transfira para o hospital de Jataí que tem mais recursos, meu heroísmo termina aqui”. E ainda a completou “Vá junto com ele, se tiver alguma urgência por aqui eu atendo”. No braço nem mexeram, puseram apenas uma tala e atadura. A fratura podia esperar. O doutor Douglas, o novato não discutiu. No caminho para Jataí foi pensando “Aprendi mais nessa meia hora que em um ano de faculdade”. O Doutor Brito ficou pensando:  “O diploma que esses médicos novos estão recebendo, é apenas uma licença para começarem a aprender”. Os dois estavam certos. A quantidade exagerada de faculdades de medicina pelo país, tem levado a uma queda acentuada na qualidade do profissionais que estão saindo. Se não fizerem especialização ficam numa situação muito difícil. A atuação do doutor Brito confirmou que um médico nunca se aposenta. Mesmo que já esteja fora do hospital há muito tempo, sempre pode ser útil. Ninguém esquece tudo o que aprendeu ao longo da vida. – Que sorte hein Martinho?

FALTA DE SORTE…

           A professora Julieta tinha a aparência de uma vovó bondosa. Tinha um sorriso afetuoso e tratava todos os alunos por “meu filho” pois tinha dificuldades em guardar os nomes. Tinha por baixo uns 70 anos. Já podia estar aposentada há tempos, mas continuava por opção a dar aulas de desenho artístico na Escola Técnica de Goiânia. Era uma escola federal, de cunho profissionalizante. Ao final do curso ginasial o aluno saía com conhecimentos razoáveis na profissão que escolhesse. Todos os cursos eram técnicos. Ali só estudavam meninos e os cursos eram: Gráfica e tipografia, Instalações elétricas, Tornearia mecânica, fundição, marcenaria, e radiotécnico. Não era muito compreensível um curso de desenho artístico na grade curricular da escola. Mas como a professora já estava lá há quase quarenta anos é provável que a direção a conservasse quase que por tradição, e não pela relevância da matéria. O fato é que a matéria existia e eu estava em apuros com ela, pois não tinha nenhuma afinidade com aquelas gregas e rosáceas que ela nos ensinava a desenhar. Ficava depois da aula, a professora me ajudava, mas não tinha jeito, o meu rendimento era muito ruim e eu estava em vias de tomar bomba. No dia da prova final, não consegui executar nenhum dos desenhos a contento, e fiquei de segunda chamada. A  mestra Julieta (assim a chamávamos), veio conversar comigo com aquela meiguice da qual tenho saudades até hoje e me disse: “meu filho, eu tenho plena consciência de que essa matéria que leciono não tem grande importância para esses cursos técnicos que a escola oferece. Saber nunca é demais, mais vocês terão muito pouca utilidade para os conhecimentos que transmito em suas vidas profissionais. Portanto, você leve estes quatro desenhos para estudar nas férias, e no dia da prova de segunda chamada, em fevereiro, você traz eles prontos para mim e terá a nota para passar de ano”. Agradecido e emocionado com a sinceridade dela fui embora já me considerando aprovado. Treinei os quatro desenhos até ficarem impecáveis. Repeti umas vinte vezes cada um ate me convencer de que estavam ótimos. – No dia 11 de fevereiro voltei à escola despreocupado, ia só entregar os desenhos e receber a nota. Isso era o que eu pensava, mas o acaso não concordou comigo. Ao chegar, me deparei com um homem de aproximadamente uns 30 anos, sentado na mesa da professora. Suas roupas um pouco exóticas para homens daquela época chamavam a atenção. Cumprimentei-o com cortesia, e perguntei se a Mestra Julieta iria demorar. Ele ficou surpreso com a pergunta, me olhou por alguns instantes, depois juntando as mãos disse “coitadinho, não está sabendo. A mestra Julieta morreu queridinho. Eu estou aqui para dar a prova no lugar dela”. Levei um susto, pois nunca esperava aquilo. Olhei no quadro negro e já estavam lá os desenhos a serem executados, nada a ver com os quatro que eu tinha prontos. Não quis revelar o segredo do meu acordo com a falecida mestra. Sentei e tentei fazer os desenhos. Resultado, minha nota foi 3,5 e tive que repetir o ano por causa de uma matéria que até hoje não senti a mínima falta em minha vida profissional. Nem como torneiro mecânico, nem como médico, nem como coisa nenhuma. Repeti o ano, e não repeti a matéria pois com a morte da professora foi retirada do currículo. Pensem numa falta de sorte.

 

AVP-JUNHO/2020

O CATIVEIRO…

                O homem moreno, alto e magro atravessava calmamente  a praça todas as  manhãs. Quando voltava, ao cair da noite sempre vinha com uma sacola pesada a julgar pelo esforço que fazia. Apressado virava em um dos becos e desaparecia. Poucos o conheciam embora já morasse por ali há alguns meses. A pontualidade e a repetição, começou a intrigar alguns moradores vizinhos que logo começaram a traçar hipótese sobre a real natureza de seus atos. Seu Lindomar, funcionário público aposentado, com tempo de sobra começou suas sondagens. Seguiu o homem a uma boa distância quando  ele voltava com a sacola, e descobriu onde morava. Era uma pequena casa nos fundos de um grande terreno, com um certo ar de abandono. Um cachorro latiu e veio ao encontro do homem ainda  no portão e seguiram juntos para a casa. Lindomar ainda esperou um pouco, não tendo novas movimentações voltou para casa. Repetiu algumas vezes aquela rotina, e numa delas teve a impressão de ter mais gente na casa. pensou: “Deve ser algum parente dele, com dificuldade de locomoção”. Com a curiosidade em altos níveis, aproveitando-se de que, naquela manhã o homem saíra com o cachorro, Lindomar pulou o muro e foi aproximando da casa lentamente. Expiou para dentro, depois de limpar o vidro da janela, e arrepiou-se com o que viu. Uma mulher sentada numa cadeira, com braços e pernas amarradas, e uma fita adesiva na boca. Mais adiante, um homem deitado no chão sobre um colchonete fino, também amarrado da mesma forma. Lindomar não esperava aquela cena, ficou indeciso sobre o que fazer. Deveria entrar e libertar as pessoas, ou correr ao encontro da polícia? Optou pela segunda alternativa. Desceu do peitoril da janela, e ao virar-se deu de cara com o homem da sacola, com uma arma na mão, tendo a seu lado o cão que ao vê-lo passou a rosnar incessantemente. Seguro de estar sendo seguido, o homem simulou uma saída com o cão e voltou, flagrando Lindomar bisbilhotando a casa. “procurando alguma coisa?” perguntou o ele, segurando o cão pela coleira. Sem jeito, e com muito medo, Lindomar balbuciou “Não, só curiosidade mesmo”.

                       Chegando da academia, Isaura, segunda mulher de Lindomar viu o bilhete em cima da mesa: “Fui espionar a casa de perto, tenho certeza que tem alguém a mais lá dentro. Volto logo”.  Agora, já passadas quase duas horas, pressentiu que algo estava errado. Sabia qual era a casa, e foi atrás dele. Olhou por cima do muro e ouviu o homem dizer ao seu marido: “curiosidade matou o gato, e agora vai matar você'” e apontou a arma para Lindomar.  Isaura não se conteve, e gritou “Pare, a Polícia está chegando!”. Distraindo-se momentaneamente, o homem soltou o cão, que correu em direção ao muro. Lindomar, movido pelo instinto de sobrevivência, atracou-se com ele. Durante a luta corporal  a arma caiu, e Lindomar apossou-se dela. Rendeu o homem, enquanto Isaura chamava a polícia. Ao chegar, o capitão Begliomini Libertou o casal de Fazendeiros sequestrados em em Araxá há mais de trinta dias. A curiosidade excessiva as vezes prejudica, mas foi graças a ela que ao longo do tempo, inúmeros crimes foram desvendados, e seus responsáveis punidos.

 

AVP-MAIO/2020

O MENINO E O JATOBÁ

        Fernando era o nome do pequeno nordestino que estudou comigo no ensino secundário. Era baixo, um pouco gordinho, mas tinha uma agilidade invejável. Se não me engano era piauiense, tinha um sotaque engraçado. Éramos amigos e compartilhávamos  as brincadeiras da turma, que na maioria das vezes consistia em brincar e jogar futebol nos campinhos que existiam no bosque que circundava nosso colégio. É onde hoje se localiza o parque Mutirama em Goiânia. Era na época um bosque denso, cortado por uma avenida e rico em frutas regionais como: guapeva, ingá, veludinho e jatobá.  Uma tarde, como não havia garotos suficientes para uma partida de futebol, Fernando resolveu subir num pé de jatobá, uma árvore alta, de troco grosso e que dá uma fruta horrível, mas ele gostava. É uma espécie de vagem de casca dura e espessa. Quando quebrada, libera sementes revestidas de um pó verde de gosto para mim deplorável, que adere fortemente aos dentes. Mas gosto é gosto. A árvore tinha uma inclinação em relação ao solo, que aparentemente facilitava a escalada.Fernando avaliou a situação e como seus braços eram curtos para abarcar todo o diâmetro do tronco, resolveu subir por uma árvore vizinha, mais fina e que tinha galhos comunicantes no alto com o majestoso jatobá. Já no topo, apanhou algumas frutas que jogou no chão. Balançando alguns galhos derrubou mais umas tantas. Quando já havia uns vinte ou trinta jatobás no chão, deu-se por satisfeito e resolveu descer. Não querendo descer pelo mesmo caminho da subida pensou: “o tronco é inclinado, vou descer pelo lado de cima e tudo bem”. Mas não contava com o pó que a árvore ia liberando sob o atrito de seu corpo, e que somando-se à força da gravidade foi desviando seu trajeto para o lado de baixo do tronco. Quando estava na lateral, e não conseguindo abraçar o tronco, sentiu que a queda era inevitável. Olhando para baixo com os olhos esbugalhados suplicantes e aflitos, gritou “alimpa o chão! alimpa o chão!” Calculei rapidamente onde ele cairia passei correndo por ali chutando as pedras maiores e os galhos secos. Antes de me virar ouvi o baque às minhas costas. Fernando esborrachou-se no chão e ali ficou um longo tempo deitado de costas, se contorcendo em dores e olhando para a majestosa árvore que o derrotou. Quando enfim levantou-se, começou  a andar lentamente para ir embora perguntei: “não vai levar os jatobás?” Sem se virar respondeu: “nunca mais como essa merda”. Fernando tronou-se policial. Quando o via pela cidade recordávamos este episódio engraçado, mas que felizmente não teve maiores consequências.

AVP-17/05/2020

AS VOLTAS DO MUNDO…

             A estrada pedregosa serpenteava morro acima em direção à casa de pedra, sede da fazenda Alambique. Germano dirigia lentamente enquanto pensava na história daquelas terras. Ali,  por várias gerações viveram os Junqueira. família de gente braba, marcada pela prática do coronelismo, impondo sua vontade e suas decisões com ações truculentas e desumanas.  Onde quer que entrasse um Junqueira, o ambiente carregava. Pessoas se esquivavam pelos cantos, temendo testemunhar atos de selvageria e barbarie. Há muitos anos ele não voltava ali. Desde que, ainda menino, viu seu pai escorraçado pelo último dos coronéis, Virgílio Junqueira. Vivendo numa pequena propriedade de pouco mais de 40 hectares que fazia divisa com a grande fazenda dos Junqueira, e que por dar acesso ao rio claro era objeto de grande cobiça. Primeiro ofereceram-se para comprar por um valor que beirava ao irrisório. Oferta recusada, começaram as pressões visando intimidar Seu Antero, que fez uma ocorrência na delegacia de Jataí. Olhando-o de cima a baixo, o delegado  sorriu dizendo: “Venda logo, senão você vai ter sérios dissabores. Além disso o preço não é tão ruim”. Mostrando ares de intimidade com o coronel, o delegado prosseguiu: “O compadre Virgílio é um homem generoso, venda logo a terra e vá cuidar de sua vida, o preço que ele está oferecendo é mais do que justo”. Sentindo-se desamparado pela lei Seu Antero viu seus esperanças diminuirem. Pouco tempo depois, após um incêndio  suspeito em seu celeiro, não aguentou mais e vendeu a terra a preço de banana para o coronel mudando-se com a mulher e os três filhos para a Capital. Germano nessa época com oito anos de idade.  Agora aos quarenta, era advogado e trabalhava na vara de falências no fórum estadual. Quase nunca lê aqueles editais infindáveis e monótonos, mas naquele dia alguma força o moveu, em pouco tempo reconheceu que a fazenda que estava indo a leilão era a dos Junqueira. Depois que se mudaram dali, nunca mais tiveram notícias daquela família. Nesse meio tempo aconteceram algumas tragédias que arrasaram com os Junqueira. Seu único filho desentendeu-se com um dos empregados da fazenda, e foi assassinado a poucos metros dele, que nada pode fazer.  Daí em diante, viveu apenas para a vingança, nunca mais se recuperou, virou alcoólatra e foi abandonado pela mulher. Seus negócios foram de mal a pior, e agora enfrentava aquele processo movido pelo banco. Germano instintivamente inscreveu-se para participar do leilão, juntou suas economias com um empréstimo a juros facilitados, e no dia fez uma despretensiosa oferta, e para sua surpresa saiu vencedor. Chegando a antiga sede da fazenda, agora com ar de abandono, avistou um senhor vindo em sua direção. O Homem trôpego, encurvado, muito magro se aproximou devagar. Germano quase não acreditou ao reconhecer o velho coronel. Dava pena, mas a vida é assim mesmo, aqui se faz, aqui se paga. Entregou alguns papeis a Virgílio Junqueira e disse: “Vim tomar posse da fazenda Coronel, sou o novo dono”.

 

AVP-ABRIL/2020

 

FOFOCA

       “Calhorda! Vagabundo!” gritou Celeste jogando coisas pela janela, roupas, caçados, violão e outros pertences do marido. “Onde eu estava com a cabeça quando me casei com você? Seu peste. Eu devia estar louca mesmo. Esperava tudo, menos uma baixaria dessas. Me enganar com aquela sirigaita, com cara de santa e bunda de tanajura!” Abelardo tentava argumentar: “Mas, Celeste, que isso meu bem? São fofocas de desocupados. Cuidado, você vai quebrar meu violão. Marinalva é só amiga, você sabe disso.” Mas a mulher não parava de gritar e adjetivar o marido. Estavam juntos há mais de seis anos. Não tinham, tido filhos ainda porque Abelardo esperava uma melhora de vida quando passasse no concurso do Banco do Brasil. Naquela época ser bancário era para lá de chic. Do banco do Brasil então, era quase como uma faculdade. Há dois anos, finalmente  tinha passado, e começado a trabalhar numa agência em Morrinhos, há 120 km de Goiânia. Ia domingo a noite e voltava sexta a noite. Celeste não pôde acompanha-lo a princípio porque fazia faculdade jornalismo na capital. Ficando longe de casa a semana toda, Abelardo foi aos poucos acompanhando os colegas de banco para um futebolzinho depois do expediente. Dali iam tomar um cerveja, e coisa e tal… Não demorou muito para Abelardo colocar as manguinhas de fora. Era um homem bonitão, no auge da testosterona, e em pouco tempo convenceu-se que “o que o olhos não vêem o coração não sente”, e aí pimba! arrumou uma namorada. Celeste as vezes o visitava no decorrer da semana quando tinha alguma folga na faculdade. Numa dessas visitas, foram a uma festinha na casa de um colega de Banco onde Abelardo com absoluta desfaçatez apresentou Celeste a Marinalva, prima do anfitrião. Mulher é bicho matreiro, Marinalva já sabia que ele era casado, então ficou na dela. E não há de ver que as duas ficaram amigas. Passaram a se telefonar, trocar confidencias. Marinalva passou a vir de vez em quando passar o fim de semana na casa da amiga Celeste. Estava o melhor dos mundos. Abelardo vivendo como um paxá. Cardápio variado, não queria outra vida. Mas, como não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Ele foi aos poucos ficando descuidado. Celeste começou a ligar alguns pontos em suas conversas, e já andava bastante desconfiada. Um belo dia a companhia de cartão de crédito ligou para confirmar uma compra de oito mil reais. Celeste disse que o marido não estava mas que ela não sabia do que se tratava. Como a conta era conjunta, a companhia informou que era uma compra de móveis em Morrinhos. Celeste cancelou a compra e a empresa não entregou os móveis.  Marinalva ficou possessa e brigou com Abelardo, dizendo que ele era muito miserável e não queria mais o relacionamento: “está tudo acabado”. Quando voltou para casa na sexta a noite ele teve essa bela recepção. Celeste também o mandou porta a fora, e ele ficou sem as duas, comprovando a máxima de que  “quem tudo quer nada tem”. Dizem até, que se reconciliaram depois, mas aí já é outra fofoca.

ANTENOR E CLARINHA…

         Saí do trabalho pouco depois da meia noite. Fechei as portas de aço do Bar do seu Marcos, na avenida Tocantins, e segui a pé em direção à rua oito, onde meu amigo Barreto, trabalhava numa lanchonete chamada “007 vitaminas”. Parava ali todas as noites, e depois que Raul, o gerente, saía, fazíamos um belo lanche com vitaminas, sanduíches, e algum chocolate. Então ajudava na limpeza da lanchonete, e seguíamos para casa. Morávamos no mesmo bairro, a uns dois quilômetros dali. Era uma rotina quase diária. Geralmente cruzávamos com as mesmas pessoas no caminho. Alguns vigias noturnos. Seu Antenor, dono da tabacaria real que também se dirigia para casa, Cristóvão, garçom do Grande hotel, alguns travestis e prostitutas na Avenida Goiás, tradicional ponto de “trotoir “. Naquela noite específica tinha algo de diferente no ar.  As luzes ainda estavam acesas na tabacaria. Curiosos e apreensivos nos aproximamos para ver o que se passava. Poderia ser um assalto, quem sabe? A porta dos fundos estava entreaberta e ouvia-se vozes lá dentro. Barreto tinha mais coragem do que eu e entrou primeiro, fui me esgueirando para dentro com o coração batendo a mil. E se fossemos descobertos?  A mulher de vermelho esbravejava com seu Antenor, que encolhido num banquinho ouvia calado aquele desabafo.

        — Seu cachorro! Eu sabia que um dia ia te encontrar. Já fazem seis anos que você saiu para comprar aquele frango para o almoço de domingo, e não voltou. Todos pensam que você está morto. Mas eu tinha certeza que não.  As meninas até já se conformaram, dizem aos amigos que o pai morreu ao cair de uma ponte, e nunca encontraram o corpo.

           –Que isso Clarinha? Que brabeza é essa?  Eu ia te avisar, mais sabe como é, o tempo foi passando e eu acabei perdendo a coragem. Você quer saber porque fugi do Maranhão? Vou lhe contar.

              Senti vontade ir embora, mas Barreto me conteve e disse baixinho, “fica quieto, vamos ver o final dessa fofoca”. E seu Antenor continuou:

            — Fui ameaçado.  O Felício mandou os jagunços dele me avisar. Se não pagasse em dois dias o que lhe devia, ia mandar me matar. Eu não devia tanto, mas aquele agiota filho da puta é impiedoso, não aguentei a pressão e dei no pé.

             — E essa vagabunda que você arrumou?

            — Não fale assim da Esmeralda, ela não teve culpa.  Cheguei aqui sozinho e sabe como é. A solidão bate doído, e aí conversa vai, conversa vem, ela caiu no laço e eu “krau”. E estamos juntos até hoje. Mas e você? Não venha me dizer que uma mulher nova, bonita e fogosa não reconstruiu a vida.

            — Engano seu imbecil, passei alguns dias na pior, depois que partiste, mas logo percebi que o homem da minha vida estava bem ali ao meu lado, e eu o ignorava. Então  fomos nos aproximando, conversa vai, conversa vem e ele “krau”.  Estamos vivendo juntos há três anos.

           — E quem é ele mulher?

           — Felício, o agiota.

          –Então Clarinha, estamos quites. Mas por favor, não diga onde estou, e nem que eu o chamei de fdp. Ele ainda pode mandar atrás de mim.

              Comecei a rir e saímos correndo porta afora. Seu Antenor tentou nos perseguir por alguns metros mas desistiu, e voltou para continuar discutindo a relação com Clarinha. E eu, desde aquela noite, fiquei com um pé atrás com as mulheres. São falsas.

AVP/MAR/2020

MULHER LEAL…

              “Old Frog” era o nome de uma pequena pousada, na margem direita do Rio Araguaia, com alguns chalés, apartamentos e uma área para camping, na periferia da cidade de Britânia – GO. Em alguns feriados prolongados como semana santa, carnaval, Dirceno, o proprietário reunia ali parentes e familiares para curtirem uma convivência mais próxima em um ambiente alegre e festivo. Organizavam jogos, passeios de barco, gincanas e outras brincadeiras. À noite, ascendiam fogueiras para contarem causos, e desfilar as vozes nas rodas de cantoria. Para animar o ambiente, Dirceno convidava sempre uma dupla ou trio de cantores, o que aumentava a animação e o encanto do local. Naquele feriado específico, o convidado foi Barbosinha e sua esposa Dulcineia para fazerem a trilha musical do encontro. Barbosinha tocava um violão que dava para o gasto, porém sua voz não era lá das melhores. Já sua mulher era afinada e casava letras e melodias com uma incrível facilidade. Barbosinha sabia disso, mas era machista. Em sua cabeça, o artista era ele. A mulher era apenas uma coadjuvante. As pessoas pediam música para Dulcineia, mas o marido se adiantava e ele mesmo cantava. Vez por outra, ele  a deixava cantar uma música inteira, como ser a estivesse prestigiando. Bebida alcoólica correndo solta. Cerveja, vinho barato, e algumas batidas feitas artesanalmente por Arnaldo, um expert no assunto. Depois de algum tempo começaram os sussurros: “Ele podia deixar ela cantar mais”, ou “ela é muito melhor que ele”. O zum-zum foi crescendo, mas Barbosinha ignorava, e continuava a premiar a plateia com aquela voz estridente e anasalada. Lúcio, um pernambucano gordo e macilento, era frequentador assíduo desses encontros, devido a amizade muito próxima com Dirceno. Sua característica mais conhecida é que quando ficava bêbado, falava mais do que a boca. Incomodado com a situação, levantou-se alargou sua base de sustentação abrindo um pouco as pernas, atravessou lentamente a roda e diante de um Barbosinha empolgado, detonando uma canção chamada “Chalana”, falou com seu delicioso sotaque nordestino, escolhendo as palavras, pois não queria ser grosseiro:  “Amigo, não leve a mal não, mas , vamos fazer o seguinte: Você não cante mais não. Deixe apenas tua mulé. Tua mulé  dá de goleada em você. Fique aí tocando teu violãozinho, mas cantá, tu deixa com ela, que ela é 10. Não cante mais não visse?”. Barbosinha surpreso, demorou a reagir. Lúcio virou-se para voltar ao seu lugar, então veio a surpresa. Dulcineia tomou o violão das mãos do marido, e o quebrou com um golpe certeiro na cabeça do abusado, dizendo: “Nunca mais humilhe o meu marido seu idiota. Ele pode não cantar tão bem, mas é o meu homem, e eu exijo respeito”. O lual acabou, pois não tinha mais clima, nem instrumento. Todos se recolheram aos seus aposentos, a maioria pensando: “Isto é amor para mais de cem anos”. Os homens invejosos diziam: “Queria uma mulher assim, leal e companheira”.

GRANA FÁCIL…

                       Tourada nunca foi um espetáculo muito frequente no Brasil, mas de vez em quando aparecia alguma. Eram cheias de improvisos e amadorismos, organizadas por pessoas que tinham poucas informações a respeito do assunto. Viam em filmes, ou  revistas e resolviam organizar uma. E, para isso,  sempre conseguiam um patrocinador incauto. Esse era o caso de Mário Porfírio, proprietário de uma loja de tecidos na pequena Aloândia no interior de Goiás. Sendo assediado por vários dias por dois homens que se diziam amigos de seu filho já falecido, Mário resistiu um pouco, mas logo  começou a enxergar ali, a oportunidade de ganhar uma bolada fácil. “Vocês entendem desse negócio?” Perguntou ele ainda meio ressabiado. “Claro, já organizamos várias no interior de São Paulo”. Pronto, falou em São Paulo era coisa séria. A promessa era que ele ficaria com a metade da arrecadação e os outros dois com a outra. Trato feito passaram a organizar a famosa “tourada”. O sistema de auto-falantes da praça começou a divulgar o evento. O prefeito  cedeu uma área da prefeitura para a armação da estrutura necessária. o Caminhão com as lonas e os postes para montagem da arena chegaria em dez dias. A cidade ficou em polvorosa e os ingressos começaram a ser vendidos e tinha várias categorias, até camarote. Mário era entusiasmo só, a arrecadação subindo e ele era só sorrisos. A noticia se espalhou por outros municípios, veio gente de Joviânia, Pontalina, Morrinhos, Buriti Alegre atrás dos ingressos. Foram vendendo mesmo não tendo certeza do número máximo de lugares. Aí o projeto começou a entrar areia.  O tempo passou, o caminhão não chegou com o material. Mário e seus sócios estavam desesperados, então resolveram montar uma arena às pressas, usando postes de madeira fincados em circulo, nos quais foram amarradas peças de tecido da loja de Mario formando um estranho e multicolorido cercado. O público quando viu aquela “armadilha” pressentiu o golpe e começou a fazer barulho e protestar. Os três peões que seriam os “toureiros”, estavam desde cedo no bar do Tonhão, bebendo enquanto esperavam o início da festa. Os touros prometidos por um fazendeiro não apareceram, e mesmo que tivessem vindo, os toureiros já não tinham condições de enfrenta-los, estavam caindo de bêbados. Mário era homem de palavra, foi tirar satisfação com seus sócios, pois queria devolver o dinheiro do público. Mas, eles já tinham batido em retirada, levando todo a renda da bilheteria. Ah, se arrependimento matasse! O prefeito conhecia o  comerciante há anos e para protegê-lo mandou tranca-lo na cadeia até que a multidão enfurecida se acalmasse. Prometeu pagar a todos mas precisava de tempo para ganhar o dinheiro. No período de um ano, foi pagando um a um até acabar. Nunca mais soube dos “sócios”, e também nunca mais se aventurou atrás de dinheiro fácil. Lição aprendida. Não tinha a menor queda para vigarista.

 

XÁ CUMIGO!

                  Já na quarta legislatura como deputado federal, aquele homem gordo, pletórico, era simpatia pura. Muito afável e descontraído, tinha uma memória de elefante. Encontrava as pessoas na rua lembrava-se do nome, e da filiação de todos em sua  cidade natal,  que lhe servia de base eleitoral. Tinha como secretária informal a sua mãe, a quem  enviava os eleitores para registrar seus pedidos, e explicar suas necessidades. Não quero aqui inflar o ego de dona Honorina, mas era uma velha de mal com a vida. Carrancuda, ríspida e mal humorada. Despachava a todos  em poucos segundos. O deputado era incapaz de falar “não”. Tudo que era pedido ele ouvia pacientemente, e respondia com um inconfundível  “xá cumigo”, procure dona Honorina que ela anota e eu vou resolvendo na medida do possível”. “Mas deputado, é urgente!” ele geralmente dava um beliscão na barriga do solicitante e repetia “xá cumigo, já falei, vá lá e registre com dona Honorina”. Aí o infeliz já perdia a esperança, mas ainda assim ia lá enfrentar a megera. Com essa manobra ele enganava o eleitorado, ficava com fama de bonzinho, pois era a mãe quem atrapalhava tudo. Muitos diziam “O deputado, prometeu me ajudar, foi a mãe dele que interferiu, velha chata, megera. “Se não fosse aquela bruxa ele tinha resolvido meu problema”. E assim ia sendo eleito a cada quatro anos.

                          Certa feita, estando em dificuldades para credenciar minha clínica junto ao antigo INPS, pois só estava sendo liberado via política. Procurei os deputados do meu estado e solicitei ajuda a todos eles, inclusive da figura em epigrafe, para interferirem a meu favor no Ministério de Previdência e Assistência Social em Brasília. Todos prometeram interferir no processo no sentido de viabiliza-lo. Nosso deputado então me recebeu cordialmente: “Entre doutor, que prazer, como vai o Joaquim e a Odilia (meus pais). Seu cunhado resolveu aquele problema no Incra?”. Passou os primeiros dez minutos da conversa falando de coisas diversas e por fim perguntou “Em que posso ajuda-lo doutor?”  Expliquei-lhe a situação e recebi o velho “xá cumigo”, o ministro Jair é muito meu amigo e emendou: “Fale com dona Honorina, para ela registrar o pedido, mas xá cumigo, xá cumigo”. Saí desanimado, e já conhecendo o esquema, nem perdi meu tempo procurando dona Honorina. Fui embora conformado o que tivesse que acontecer com o meu processo não seria com a ajuda daquele embrulhão. Meses depois foi finalmente aprovado o meu credenciamento. Recebi quatro telegramas de deputados alegando terem sido os autores da façanha, inclusive do próprio. No dele estava escrito “Ministro sensível meu pedido pt. Credenciamento liberado pt. Espero contar seu apoio vg e família, eleições próximas pt”.  Respondi a todos com mesuras e agradecimentos floreados, mas a esse deputado especificamente mandei um telegrama com duas palavras “xá cumigo pt”.  Vá ser cínico assim no raio que o parta.

AVP-31/01/2020