GRANA FÁCIL…

                       Tourada nunca foi um espetáculo muito frequente no Brasil, mas de vez em quando aparecia alguma. Eram cheias de improvisos e amadorismos, organizadas por pessoas que tinham poucas informações a respeito do assunto. Viam em filmes, ou  revistas e resolviam organizar uma. E, para isso,  sempre conseguiam um patrocinador incauto. Esse era o caso de Mário Porfírio, proprietário de uma loja de tecidos na pequena Aloândia no interior de Goiás. Sendo assediado por vários dias por dois homens que se diziam amigos de seu filho já falecido, Mário resistiu um pouco, mas logo  começou a enxergar ali, a oportunidade de ganhar uma bolada fácil. “Vocês entendem desse negócio?” Perguntou ele ainda meio ressabiado. “Claro, já organizamos várias no interior de São Paulo”. Pronto, falou em São Paulo era coisa séria. A promessa era que ele ficaria com a metade da arrecadação e os outros dois com a outra. Trato feito passaram a organizar a famosa “tourada”. O sistema de auto-falantes da praça começou a divulgar o evento. O prefeito  cedeu uma área da prefeitura para a armação da estrutura necessária. o Caminhão com as lonas e os postes para montagem da arena chegaria em dez dias. A cidade ficou em polvorosa e os ingressos começaram a ser vendidos e tinha várias categorias, até camarote. Mário era entusiasmo só, a arrecadação subindo e ele era só sorrisos. A noticia se espalhou por outros municípios, veio gente de Joviânia, Pontalina, Morrinhos, Buriti Alegre atrás dos ingressos. Foram vendendo mesmo não tendo certeza do número máximo de lugares. Aí o projeto começou a entrar areia.  O tempo passou, o caminhão não chegou com o material. Mário e seus sócios estavam desesperados, então resolveram montar uma arena às pressas, usando postes de madeira fincados em circulo, nos quais foram amarradas peças de tecido da loja de Mario formando um estranho e multicolorido cercado. O público quando viu aquela “armadilha” pressentiu o golpe e começou a fazer barulho e protestar. Os três peões que seriam os “toureiros”, estavam desde cedo no bar do Tonhão, bebendo enquanto esperavam o início da festa. Os touros prometidos por um fazendeiro não apareceram, e mesmo que tivessem vindo, os toureiros já não tinham condições de enfrenta-los, estavam caindo de bêbados. Mário era homem de palavra, foi tirar satisfação com seus sócios, pois queria devolver o dinheiro do público. Mas, eles já tinham batido em retirada, levando todo a renda da bilheteria. Ah, se arrependimento matasse! O prefeito conhecia o  comerciante há anos e para protegê-lo mandou tranca-lo na cadeia até que a multidão enfurecida se acalmasse. Prometeu pagar a todos mas precisava de tempo para ganhar o dinheiro. No período de um ano, foi pagando um a um até acabar. Nunca mais soube dos “sócios”, e também nunca mais se aventurou atrás de dinheiro fácil. Lição aprendida. Não tinha a menor queda para vigarista.

 

XÁ CUMIGO!

                  Já na quarta legislatura como deputado federal, aquele homem gordo, pletórico, era simpatia pura. Muito afável e descontraído, tinha uma memória de elefante. Encontrava as pessoas na rua lembrava-se do nome, e da filiação de todos em sua  cidade natal,  que lhe servia de base eleitoral. Tinha como secretária informal a sua mãe, a quem  enviava os eleitores para registrar seus pedidos, e explicar suas necessidades. Não quero aqui inflar o ego de dona Honorina, mas era uma velha de mal com a vida. Carrancuda, ríspida e mal humorada. Despachava a todos  em poucos segundos. O deputado era incapaz de falar “não”. Tudo que era pedido ele ouvia pacientemente, e respondia com um inconfundível  “xá cumigo”, procure dona Honorina que ela anota e eu vou resolvendo na medida do possível”. “Mas deputado, é urgente!” ele geralmente dava um beliscão na barriga do solicitante e repetia “xá cumigo, já falei, vá lá e registre com dona Honorina”. Aí o infeliz já perdia a esperança, mas ainda assim ia lá enfrentar a megera. Com essa manobra ele enganava o eleitorado, ficava com fama de bonzinho, pois era a mãe quem atrapalhava tudo. Muitos diziam “O deputado, prometeu me ajudar, foi a mãe dele que interferiu, velha chata, megera. “Se não fosse aquela bruxa ele tinha resolvido meu problema”. E assim ia sendo eleito a cada quatro anos.

                          Certa feita, estando em dificuldades para credenciar minha clínica junto ao antigo INPS, pois só estava sendo liberado via política. Procurei os deputados do meu estado e solicitei ajuda a todos eles, inclusive da figura em epigrafe, para interferirem a meu favor no Ministério de Previdência e Assistência Social em Brasília. Todos prometeram interferir no processo no sentido de viabiliza-lo. Nosso deputado então me recebeu cordialmente: “Entre doutor, que prazer, como vai o Joaquim e a Odilia (meus pais). Seu cunhado resolveu aquele problema no Incra?”. Passou os primeiros dez minutos da conversa falando de coisas diversas e por fim perguntou “Em que posso ajuda-lo doutor?”  Expliquei-lhe a situação e recebi o velho “xá cumigo”, o ministro Jair é muito meu amigo e emendou: “Fale com dona Honorina, para ela registrar o pedido, mas xá cumigo, xá cumigo”. Saí desanimado, e já conhecendo o esquema, nem perdi meu tempo procurando dona Honorina. Fui embora conformado o que tivesse que acontecer com o meu processo não seria com a ajuda daquele embrulhão. Meses depois foi finalmente aprovado o meu credenciamento. Recebi quatro telegramas de deputados alegando terem sido os autores da façanha, inclusive do próprio. No dele estava escrito “Ministro sensível meu pedido pt. Credenciamento liberado pt. Espero contar seu apoio vg e família, eleições próximas pt”.  Respondi a todos com mesuras e agradecimentos floreados, mas a esse deputado especificamente mandei um telegrama com duas palavras “xá cumigo pt”.  Vá ser cínico assim no raio que o parta.

AVP-31/01/2020

PIMENTA BRAVA

                  Viajando desde as cinco da manhã quando deixaram Brasília rumo a salvador onde passariam o carnaval, o grupo de amigos já estava cansado e faminto. Bráulio, o motorista sugeriu que parassem para almoçar no primeiro restaurante que encontrassem. Pouco antes de Lençóis, na região da Chapada Diamantina,  encontraram um lugarzinho simples mas muito limpo e aconchegante, e ali resolveram almoçar e descansar um pouco. Todos, menos o motorista pediram cerveja e um tira gosto de queijo de cabra.  Logo o cheiro da comida começou a chegar da cozinha, aumentando a fome dos presentes. Tentavam adivinhar os temperos que estavam sendo colocados. Coentro, salsinha, pimenta malagueta, alho, dendê, eram os palpites. Quando chegou a peixada baiana que pediram para todos, alguns se queixaram que estava muito apimentada. Menos Nelsinho, que se dizendo um grande apreciador e conhecedor de pimentas  estava achando até “meio fraco”, na sua opinião poderiam ter colocado mais. O dono do restaurante trouxe um pequeno vidro, que segundo ele era a pimenta mais “brava” daquela região. Nunca ninguém tolerara mais do que três gotas na comida, e ofereceu como desafio ao valentão e entendido Nelsinho.  Olhando o vidro, lendo o rótulo, ele pensava “eu e minha boca grande, agora vou ter que enfrentar”.  Destampou o vidro devagar, cheirou,  e quando tentava pingar algumas gotas no prato caiu uma daquelas vermelhinhas com cara de “venha se tu for macho”. Já meio arrependido mas não querendo voltar atrás Nelsinho esmagou a pimenta e misturou no prato, mexendo bem na esperança que o ardor diluísse.  Então começou a comer rapidamente para acabar logo com aquilo. Depois de umas quatro ou cinco garfadas parou subitamente. A boca semiaberta procurando ar, os olhos arregalados e lacrimejantes. O desconforto na garganta era imenso, ele não conseguia falar, seu rosto vermelho e contraído começou a assustar os presentes. Alguém disse “ele está passando mal”. O dono do restaurante trouxe um copo com água gelada para o desafortunado Nelsinho, que se estrebuchava todo. Depois da água, comeu um pouco de farinha, tomou vinagre puro, e foi fazendo tudo o que os outros diziam que era bom. Assim que melhorou um pouco falou “Mãe de Deus, essa é mesmo das braba”. E todos já mais relaxados caíram na gargalhada. Antes de seguir viagem tiveram que esperar umas duas horas pela recuperação do “apreciador e conhecedor de pimentas”. Nos dias que se seguiram não viram mais Nelsinho reclamar dos temperos. Volta e meia alguém brincava “Vai uma pimentinha aí valentão?. Quando voltavam tiveram que parar no mesmo restaurante, pois ele queria comprar um vidro daquela pimenta. “Vou pegar um cunhado meu que é muito mais papudo que eu”.  É sempre assim, ninguém gosta de ficar com a desgraça sozinho, quer sempre passar para a frente. 

AVP 24/01/2019

O CAFAJESTE

             Maria foi pensando pelo caminho nas palavras de conforto que diria a Mirtes, amiga há mais de dez anos, que ficara viúva há duas semanas. Não pôde comparecer ao velório, nem à missa de sétimo dia por motivo de viagem. Lembrava-se o dia em que a amiga se mudou para o seu bairro, a simpatia foi imediata, conversaram por uns vinte minutos ao se cruzarem no supermercado. Maria passou informações úteis para a nova moradora como as melhores escolas, supermercados, farmácias, linhas de ônibus, e se colocou a disposição para ajudar em qualquer coisa. Ficou sabendo que Mirtes e o marido estavam vindo de Cumari, pequena cidade do interior Goiano em busca de melhores escolas para os filhos. Osvaldo, policial civil, tinha conseguido transferência para a Capital, onde esperava ter maiores chances na carreira. Ela era cabeleireira e pretendia montar um pequeno salão em sua casa para ajudar na renda familiar e ao mesmo tempo acompanhar o desenvolvimento dos meninos. E assim foram passando os anos. Maria frequentava o salão da amiga e aos poucos foram se tornando confidentes, quase irmãs. Era um casal normal, carinhosos um com o outro, os meninos eram crianças exemplares, educados, estudiosos, e sobretudo criados com limites, respeitando os mais velhos. Formavam uma família harmônica e feliz. Ao se aproximar da casa da amiga, ouviu risos, e uma música de Amado Batista em alto volume. Começou a ter dúvidas. Devo ter entendido errado. Será que foi o Osvaldo mesmo?  vinha preparada para um encontro triste e com aquele clima pensou em dar meia volta e se informar direito. Mas era tarde, Mirtes já a tinha visto no portão, e saiu para encontra-la. “Entre Maria, venha tomar um café” disse ela dentro de um vestido rosa choque decotado e justo. Maria meio sem graça começou a se justificar “Eu soube de uma notícia, mas pelo jeito é boato”, Mirtes sorriu enquanto dizia “Qual notícia? da morte do Osvaldo?  Não é boato não, é verdade. E vou te dizer, já foi tarde aquele desgraçado, cínico”. Maria atônita parecia não acreditar no que ouvia. “Mas vocês pareciam viver tão bem, não estou entendendo”. Caminharam para dentro de casa, onde a viúva continuou seu relato.    “No começo sim, vivíamos muito bem, mas assim que viemos morar na capital, Osvaldo começou a mudar. Passou a andar em más companhias, frequentar lugares mal afamados, e sobretudo, começou a beber. Descontava suas frustrações em mim e nos meninos. Nunca nos agrediu fisicamente, mas as vezes a agressão moral é mais violenta que a física. Ele cada vez mais ausente, chegava a passar três dias fora de casa”. Maria incrédula interrompeu “Mas eu frequentava seu salão semanalmente e nunca notei nada”  depois de uma longa pausa Mirtes continuou “Eu não deixava as coisas se misturarem. Achava que era problema só meu, e segurava as pontas. Mas o pior amiga, é que no velório apareceram três viúvas, quatro comigo. O safado saiu fazendo filhos por aí e agora o pouco que construimos será divido em muitas partes. Cafajeste, filho da puta. Só não sapateei e dancei um samba em cima de seu caixão porque fiquei com medo de cair na cova. Mas ele que não se iluda, logo vou estar no mercado de novo, e se Deus quiser dessa vez vou arranjar um homem que preste.  Mas agora deixa isso pra lá, aceita um pãozinho de queijo?”.  Maria despediu-se da amiga desejando sorte e foi embora convencida de que as pessoas nunca sabem realmente o que se passa da porta dos lares para dentro.

NÃO ERA O DIA

                  Trajano estava endividado até o pescoço, seus negócios iam ladeira abaixo, devendo funcionários, fisco, direitos trabalhistas, fornecedores. Para completar clonaram seu cartão de crédito e gastaram todo o limite. Estava desesperado. Tentava obter crédito nos bancos, pedia empréstimos aos amigos, e nada. Não quis recorrer a agiotas  pois o que já estava péssimo poderia piorar ainda mais.  Em casa também tudo estava malparado. Sua filha adolescente estava grávida, e as más línguas punham dúvidas na conduta de sua mulher com o ginecologista dela. Recebera há cerca de meia hora, um telefonema da casa de recuperação avisando que seu filho tinha fugido. “Pronto, estou no fundo do poço, não aguento mais” pensou ele. Homem altivo, não conseguia aceitar a derrota. Estava convencido que não tinha mesmo saída. Sentia-se deprimido, fraco, desmotivado, nem mesmo sua secretária Clotilde, moça de grandes prendas físicas, conseguia mais levantar o seu astral. Entrou num estágio de letargia mental, e foi murchando. Os amigos mais próximos começaram a temer pelo pior. Naquele dia, reunindo as forças que lhe sobravam, levantou-se as duras penas, e saiu sem rumo. Parou em um bar movimentado no centro da cidade. Sentou-se na área interna e pediu uma cerveja. Ficou ali pensando em seus infortúnios, o filme de sua vida passando em sua cabeça. Estava pronto para “partir” mas queria pelo menos entender onde tinha errado para sua vida descarrilhar daquele jeito. Quanto mais pensava mais sua melancolia aumentava. Disposto a por um fim em tudo, pediu mais uma cerveja, encheu o copo, e disfarçadamente abriu uma pequena bolsa que levava, retirou o veneno e misturou na cerveja. Antes que tivesse tempo de tomar ouviu uma voz “É um assalto, todo mundo quieto”, Um homem alto com uma mascara ninja, um revolver 38 assumiu o controle da situação. “Todos para o chão, de barriga para baixo, passem relógios, celulares e dinheiro, rápido, rápido”. Trajano ficou sentado e impassível, o assaltante aproximou-se irritado “Tá surdo coroa? mandei deitar no chão, quer levar um tiro?”, Trajano continuou rfimpassível. O bandido estava com sede, e vendo aquele copo de cerveja gelada na sua frente não teve dúvidas. Pegou o copo e bebeu de “gute gute”, e batendo forte o copo na mesa voltou a ordenar “Deitado, ou vai morrer”. Trajano deitou-se vagarosamente no chão. Após mais ou menos um minuto o bandido começou a cambalear e caiu numa espécie de convulsão. Trajano levantou-se, e disse baixinho: “Hoje não era o meu dia”. Interpretou aquilo como um aviso divino, e varreu a ideia de suicídio de sua mente. Daí em diante passou a enfrentar seus problemas com calma, discernimento, perseverança  e fé. Renegociou seus débitos e resolveu seus problemas domésticos de maneira adequada. Hoje nem parece o mesmo.

AVP-06/01/2020

O REENCONTRO

             Quando girava a chave na fechadura ao chegar do trabalho, Claudete já esperava a festiva recepção de Rex, um yorkshire que a acompanhava há anos. Nesse dia surpreendeu-se com o silêncio. Tirou os sapatos, fechou a porta atrás de si e caminhou silenciosamente em direção à cozinha. Teve um sobressalto quando viu o cão estendido inerte próximo à bancada do fogão. Abaixou-se e constatou que estava morto. Não havia sangue, deve ter sido estrangulado pensou. Levantando-se lentamente sentiu uma mão que vindo por traz   a segurou com força e tapou sua boca e nariz com um pano embebido numa substancia com cheiro muito forte que identificou como éter. Debateu-se o quanto pode, mas o efeito narcoléptico da substância foi minando suas forças até que perdeu a consciência.  Quando acordou pensou estar cega, abriu bem os olhos e não viu nenhum sinal de luz. Deve ser noite, pensou. Sentou-se, abraçou os joelhos com as mãos e ficou a espera  de algum sinal de vida externa. O chão estava úmido e frio, tateando as paredes concluiu que estava em um buraco escavado provavelmente com a finalidade de prender reféns. Tinha que controlar sua mente para não entrar em pânico. Horas depois ouviu passos e alguém começou a remover parte da cobertura de seu esconderijo. Uma pequena claridade entrou pela fresta aberta pelo sequestrador. O homem jogou uma garrafa com água e um pedaço de salame para que se alimentasse enquanto praguejava, “Aquele porco do seu pai disse que não tem o dinheiro para o resgate.  Acho que vou ter que mata-la” a moça levou um susto “Meu pai? como assim? Não tem dinheiro?”. Sem ligar para a observação o homem fechou a fresta e sumiu novamente. Horas depois foi morto pela polícia quando tentava assaltar um supermercado. A refém ficou abandonada à própria sorte. Não vendo a luz do dia, Claudete perdeu a noção do tempo. Estava rompida com o pai há anos. Brigaram por causa da partilha de bens que ele fizera, e que no seu entender teria ficado prejudicada. Tiveram uma discussão seríssima com agressões de parte a parte. Saiu dizendo que não queria vê-lo nunca mais.

        Gilberto desligou o telefone depois de dizer desaforos ao interlocutor deixando bem claro que não pagaria resgate algum. Deu alguns passos pela sala e começou a pensar na filha. Não falava com ela há dois anos, mas não lhe queria mal. Agora aquela situação o afligia, pois não tinha certeza se era verdade. Esperou novo contato e nada. Sua aflição aumentou. Acionou seu amigo Marlos , agente da polícia civil com larga experiencia. O detetive rastreou junto a companhia telefônica a chamada feita pelo sequestrador e a partir dela delimitaram uma área para as buscas. trabalharam com afinco vasculhando incansavelmente a área durante uma semana e nada encontraram.  Gilberto sabia onde a filha morava, mas nunca a visitara por orgulho. Sentindo um estranho impulso dirigiu-se para lá. Talvez encontrasse alguma pista. Exausto lembrou-se que não tinha a chave. Sentou-se junto a entrada e em poucos segundos sentiu o mau cheiro que exalava do interior do apartamento. Temendo o pior levantou-se de um saldo e deu um violento pontapé na porta que cedeu um pouco. o segundo foi suficiente para arromba-la. Entrando com o coração aos saltos, encontrou o cachorro já em estado de decomposição, mas nem sinal de Claudete. Da janela observou uma obra abandonada  a uns cem metros dali. Arrepiou-se com a ideia de que seria perfeita para um cativeiro. Desceu as escadas aos saltos e correu para o local, removendo algumas placas de embargo da prefeitura. Começou a chamar pela filha.  percorrendo a os andares inacabados. Em pouco tempo convenceu-se de que a filha não estava ali. Desceu então para examinar o subsolo do prédio.

               Deitada no chão, extremamente fraca depois de dias sem comer nem beber, Claudete ouviu seu nome ser chamado. repetidas vezes, mas não tinha forças para responder. A voz saía muito fraca então temeu que sua vida acabaria ali, naquele buraco. O acaso resolveu interferir. Gilberto  viu um tapume na frente do que parecia ser o poço do elevador. Tentando abrir caminho, afastou algumas tábuas, e ao fazê-lo percebeu que elas obstruíam um poço onde deveria ter sido concretado um pilar e que foi abandonado, talvez por motivo de economia.  olhando para dentro do poço chamou novamente pela filha, e dessa vez ouviu uma resposta fraca mais audível  “Aqui!!”. Indiferente à profundidade pulou para dentro, e ainda sem enxergar direito disse “calma doçura, o papai chegou”. Pediu ajuda pelo celular. Esperou pelo resgate abraçado à filha, convencido que nunca mais deixaria que ela partisse. Nada mais seria capaz de separar-los. A iminência de perde-la reavivou em seu coração todo o amor que tinha por ela.

AVP/04/12/2019

AMIGO FLORISVALDO

                Quando se vive a vida toda num lugar, mesmo que a cidade cresça e se espalhe por grandes áreas, vez por outra você se reencontra com seu passado. Volta a lugares, que não ia há muito tempo, encontra pessoas que foram seus amigos no colégio, vizinhos antigos, velhos professores, jogadores do seu time e outras casualidades que te remetem às diversas fases da sua vida. Geralmente são prazerosas essas ocasiões. Certo dia encontrei uma exceção. Estando com minha mulher num shopping center, enquanto ela entrava numa loja de departamentos, onde geralmente as mulheres demoram muito, sentei-me numa das mesinhas de um café. Tomava meu cappuccino tranquilamente quando reparei num homem do outro lado do corredor, com uma criança no colo, possivelmente uma netinha. Reconheci como sendo Florisvaldo, um antigo colega no ensino médio. Fui ao seu encontro feliz por vê-lo e o chamei pelo nome. “Florisvaldo, há quanto tempo amigo?, que bom te encontrar!” Ele me olhou com uma certa indiferença e perguntou “Eu te conheço?”  Refresquei-lhe a memória, “Estudamos juntos na Escola Técnica” ele fez um esforço de memória e se lembrou. Me olhando de cima em baixo disparou “Tem razão de eu não te conhecer com essa cabeça branca. Você está velho demais, que que isso?”  Senti o baque, e enquanto pensava no que dizer ele disparou de novo “Você está gordo demais, que que isso?”  Antes de ouvir um novo “que que isso” tentei apaziguar as coisas “É a vida amigo, o tempo passa para todos”, e olhando sua cara de jenipapo maduro continuei “soube pelo Barreto, lembra dele? Que você está morando em Jataí. Um dos pioneiros de lá é meu tio, Seu Odivan Vieira conhece?”  Florisvaldo que até ali não tinha dado um pequeno sinal de estar contente com nosso encontro continuou sua trajetória agressiva. “Conheço, mas aquilo está gagá de tudo, as filhas é que assumiram os negócios, tá lá de fraldão, não conhece mais ninguém, é uma vida que eu não quero para mim, eu hein! que que isso?”.  Aí me lembrei que meu café estava muito melhor que aquele sofrido colóquio, e resolvi ir embora. Reparei na criança, uma menina loirinha linda que sorriu alegremente para mim perguntando “Você é amigo do vovô?” Passei a mão por seus cabelos e enquanto me virava murmurei “fui”. Então me afastei ainda ouvindo a voz de Florisvaldo “você está apelando? volte aqui”. Nem me virei, fui embora com um gosto amargo daquilo que poderia ter sido um alegre reencontro. De positivo ficou apenas o sorriso daquele anjinho loiro. Não lhe guardo nenhum rancor, essas coisas as vezes acontecem. Vida longa ao Florisvaldo.

SOFRENDO FÉRIAS…

          Há alguns anos, encontrei Omar na festa anual da Unimed em Goiânia. Fomos muito próximos durante o curso de medicina e como ele foi para o Pará depois de formado, não o tinha visto mais. Durante a conversa disse a ele que eu ia sempre  a Miami por conta de um negócio paralelo de importação de peças de máquinas pesadas que eu tinha. Então perguntou se ele e a esposa não poderiam ir comigo na próxima viagem. Sonhavam em conhecer os Estados Unidos, mas tinham medo por não falarem a língua. Sabendo que seria bom viajar em companhia deles disse “sem problemas, será um prazer”. Combinamos para irmos dois meses depois, isso lhes daria tempo para providenciarem a documentação e o visto de entrada. A caminho de São Paulo, onde embarcaríamos no voo internacional, Omar me informou que os sogros dele também estavam indo, e que os encontraríamos no aeroporto de Guarulhos. Fiquei surpreso mas não me incomodei, afinal seria uma viagem de férias para eles e comercial para mim. Eles já devem ter uma programação em mente, um roteiro pensei. Assim que chegamos fui apresentado a seu Alfredo e Dona Rosinha, sogros de Omar, vindos diretamente de Bom Despacho – MG, onde eram fazendeiros. Traziam uma mala dentro de um saco branco, amarrado na boca com barbante. Eu não via aquilo desde as rodoviárias de antigamente onde era cena comum. “Eles nunca andaram de avião” me disse Omar em voz baixa. Fizemos o check-in e partimos para Miami.  Durante o voo, seu Alfredo começou respirar com dificuldade, ofegante, transpirando, então perguntei, “O senhor está com falta de ar?”, ele me olhou com ar de desespero  e disse “Não meu filho, estou com falta de terra” dei-lhe um comprimido de diazepam e ele dormiu o restante da viagem. Tínhamos reservado  o mesmo hotel para facilitar. Era um hotel grande no centro de Miami, o Dupont Plaza. Ao chegar, descobri que tinham reservado um quarto para quatro pessoas. Pai, mãe, filha e genro no mesmo quarto já pensou? Já era noite, e eu estava muito cansado, fui dormir. No dia seguinte ia sair cedo do hotel e só voltaria a noite. Bati na porta do quarto da “família” e chamando Omar em particular dei a ele uma cópia da chave do meu quarto e expliquei. Saio de manhã para os meus contatos comerciais e só volto a noite, portanto se quiser usar o meu quarto para momentos românticos com a Gisela fique a vontade. Tem duas camas de casal lá. Use a mais próxima da janela. Antes de sair, resolvi entrar no banheiro deles. Enquanto fazia meu xixi, ouvi um barulho de água borbulhando. Olhei em volta procurando algum defeito hidráulico no banheiro e não vi nada. Quando me virei para lavar as mãos deparei com uma panela em cima da pia, com um “mergulhão” dentro, cozinhando meia dúzia de ovos, “bolobolobolobolo”. Fiquei pasmo. Não falei nada, e incrédulo saí do hotel para visitar meus fornecedores. A noite perguntei a Omar sobre aquilo, e ele me disse que tinham  consultado a cotação do dólar antes de sair. Fazendo a conversão dos preços acharam  tudo extremamente caro então partiram para aquela solução “pão e ovos”.  Ficaram passeando a pé nas ruas próximas ao hotel a semana toda, não compraram praticamente nada. Não tinham programa, nem preparação alguma. Nos dois últimos dias da viagem eu os levei para conhecer alguns lugares, incluindo Miami Beach e a um grande outlet umas 40 milhas ao norte de Miami chamado Sawgrass Mills. Tinham achado o aluguel de carro caríssimo.  Pensei caso perdido. Sabia o que era avareza, mas não imaginava que pudesse chegar àquele ponto. Saíram de casa para “sofrer férias” tão longe. Resumindo, não gostaram de Miami e jamais voltarão  lá. Também pudera!

OMARÉ…

             Essa história remonta a segunda metade do século dezenove no tempo da escravidão. Uma época sombria em que seres humanos eram legalmente “donos” de outros. As custas de castigos os subjugavam e mantinham presos  nas propriedades urbanas ou rurais. Era lei de obediência cega ao seu senhor. Nesse ambiente destacava-se a figura do feitor. Ele era o responsável por cuidar da disciplina dos escravos, mantendo-os na linha, produtivos e subservientes. Dimas era um desses, disputado pelos fazendeiros de café, e pelos proprietários de garimpos de Minas Gerais. Seu atributo principal era sua grande crueldade. Raramente passava um dia sem aplicar dúzias de chibatadas em escravos amarrados ao tronco. Tinha um coração de gelo. Dizia abertamente que os negros não tinham alma. Toda manhã contava e conferia os escravos da propriedade, e um dia deu por falta de Omaré, um negro alto e forte  que por vezes se apresentava como autor de infrações, para levar as chibatadas no lugar de uma mulher, ou de um escravo mais velho e mais fraco. O feitor sabia, e tinha pelo negro uma certa admiração e respeito que naturalmente  ocultava para não dar sinal de “fraqueza”. Naquela manhã Omaré não se apresentou no pátio e não foi encontrado na senzala. Deram falta de alguns mantimentos na cozinha e concluíram que tinha fugido. “Miserável, querendo me desmoralizar” disse o feitor em voz alta, e partiu a cavalo em busca do fujão. Foram com ele dois capitães do mato e alguns cachorros treinados em perseguir caça. O negro tinha pelo menos umas dez horas de frente Mas os homens já imaginavam a rota que seguiria. Tentaria chegar ao quilombo do Cedro, no sudoeste de Goiás. Dois dias depois encontraram restos de uma fogueira ainda quente. Separaram-se em três direções distintas para encurralar o fugitivo. Dimas seguia por uma trilha acidentada beirando alguns precipícios, o que o fez descer do cavalo seguindo a pé com cuidado. tentava ser o mais silencioso possível, de repente, pisou numa pedra solta e desequilibrou-se, seu corpo pesado escorregou pelo cascalho em direção ao abismo. Conseguiu num último esforço agarrar-se a algumas raízes e vegetações rasteiras, ficando com o corpo balançando no alto da ribanceira. Aí lembrou-se de Deus, começou a rezar e a pedir socorro. Já estava muito cansado de se debater, quando viu  um braço negro agarrar-se ao seu, puxando-o para cima.  Caíram os dois, exaustos pelo esforço e ficaram ali ofegantes por alguns minutos. Nesse tempo o feitor percebeu que sua arma ainda estava na cintura. E, num rápido movimento apontou para  Omaré dizendo com ar de deboche. “Não se mexa negro fujão, vou leva-lo de volta e arrancar o couro dessas costas no chicote”, e deu um tiro para cima para alertar os companheiros. Ao fazer isso permitiu a reação do escravo. Omaré deu-lhe um violento chute na mão fraturando seu punho. Puxando para si o feitor  e com uma força que ignorava ter, levantou-o acima dos ombros e o arremessou no abismo.  É provável que em queda livre Dimas ainda pôde entender que iria morrer, nem tanto pela sua maldade, mas pela sua profunda ingratidão. Seus restos foram localizados semanas depois, pela revoada de urubus. Omaré esquivou-se dos outros perseguidores, prosseguindo sua fuga até  avistar  entre as serras de Goiás, o quilombo, seu destino final. Ali vivem até hoje possíveis descendentes seus, em condições pouco mais que miseráveis. Mas pelo menos livres.

avp/04.nov/2019     www.ailton-primo.blog

O AGOURENTO…

             Era domingo, já quase anoitecendo. Eu brincava com meu filho mais velho, na época com um ano e meio mais ou menos, chutando uma bola na grama de nosso pequeno jardim. Feliz com a oportunidade de interagir com o garoto, pois naquela época eu viajava muito, e as vezes ficava a semana fora de casa. Quando a bola foi perto da grade, percebi um homem branco, calvo de meia idade passando numa bicicleta. Acenou com a cabeça me cumprimentando e seguiu. Acompanhei com o olhar e vi quando ele deu meia volta e parou na minha porta.  “Boa noite” disse ele encostando-se na grade, e prosseguiu “Eu ia passando  e quando vi o senhor, notei que sua aura está muito carregada”. Surpreso  perguntei “Aura? que diabo é isso?, aqui não tem ninguém com esse nome”. Então ele me disse que toda pessoa está circundada por uma aura de energia, e que através de suas cores é possível que outras pessoas com atividade mediúnica, avaliem seu estado de espírito e alerte para eventuais ameaças  à sua integridade física e mental. E continuou sua premonição, “O senhor está pretendendo viajar por esses dias?”. Pensei comigo, amanhã cedo, mas não vou dizer a ele. Achando a conversa meio atravessada reforcei que não acreditava em nada daquilo. Já montando na bicicleta para partir ele desferiu o morteiro “Acreditar ou não é problema do senhor, mas se tiver pensando em viajar não viaje, estou prevendo desencarne, e até hoje não errei uma”. Pronto, lá se foi o meu sossego. Eu que sempre me achei muito seguro, jantei mal, dormi mal e ao me levantar para viajar me sentia estranho, no fundo acho que era medo. Beijei minha mulher e meu filho pensando se não seria a última vez. Metade de mim queria desistir, mas a outra mais sensata puxou a responsabilidade para si. “Deixe de ser besta, você um homem letrado, doutor, se deixando influenciar pelo primeiro que passa falando bobagem”. Envergonhado por fraquejar, me enchi de brios e pus o pé na estrada.  Ainda estava sobressaltado. Cada ultrapassagem que fazia, ou quando cruzava com outro veículo não conseguia evitar o pensamento “Será que é agora? vou bater, ou sair da estrada e capotar?”  A uma certa altura, avistei ao longe um caminhão trazendo um trator na carroceria então pensei “Será que vou bater no caminhão, ou o trator vai cair em cima de mim?”.  A estrada parecia mais longa do que nunca, e de susto em susto cheguei finalmente ao meu destino duas horas depois. Parei o carro, fiz uma oração agradecendo por chegar são e salvo, e deletei aquela conversa da minha mente. Faço o mesmo trajeto há quarenta anos, e nunca tive um pequeno problema, mas pelo sim pelo não carrego um pequeno patuá, acho que ajuda na proteção. Nuca mais vi o tal “profeta’, talvez ainda esteja por aí assombrando em outras freguesias.