QUERIDO MESTRE…

               Nunca gostei muito das aulas de português, exceto as de leitura e interpretação de textos. Acho que tinha a ver com o professor Geraldo da Paixão, homem simples, dedicado, e com um profundo amor pelo que fazia. Reforçava diariamente a seus alunos, a importância de ler com atenção, interpretar, e reproduzir os mais variados tipos de texto. Não importava se prosa, poesia, ficção ou realidade, textos históricos, bíblicos, o que fosse, seu esmero era o mesmo ao ensinar seus alunos. Fazia perguntas de surpresa para avaliar o grau de compreensão. Mandava repetir com as próprias palavras, e se não ficasse satisfeito o aluno ficava lhe “devendo” para ser cobrado quando lhe aprouvesse. Como não sabia quando  seria cobrado, via de regra o aluno tratava de estudar. Mestre Geraldo, não se preocupava muito com as notas mensais dos alunos. Mas, avisava desde o início do ano, que seria muito rigoroso na prova final. Quem chegasse lá precisando de nota alta estava em maus lençóis. Não tinha perdão, se não conseguisse por méritos próprios não adiantava chorar, era bomba na certa. Falo do professor com admiração e respeito. Estava sempre disponível para ajudar os alunos sempre que fosse solicitado. Um dia, enquanto fazíamos um exercício em classe, o mestre parou junto a minha carteira por alguns minutos e disse “venha falar comigo depois da aula”. De pronto fiquei preocupado e quando soou a sirene, me dirigi a sua mesa. “Você parece gostar muito da minha matéria. Quero que seja meu auxiliar ajudando alguns colegas com mais dificuldade. O que acha?” disse ele. Feliz e surpreso aceitei a incumbência. Fizemos uma boa parceria até que deixei a escola três anos depois. Uma coisa curiosa é que ele gostava muito de um poema de Arthur de Azevedo, chamado “VELHA ANEDOTA”,  praticamente obrigava todos os seus alunos a decora-lo e declama-lo perante a classe. Uma das maneiras de saber se uma pessoa estudou na Escola Técnica de Goiânia na década de 60, é manda-lo declamar esse poema. Peço licença para transcreve-lo abaixo, em homenagem  ao grande mestre.

VELHA ANEDOTA  (Arthur de Azevedo)

Tertuliano, frívolo peralta

que foi um paspalhão desde fedelho

Tipo incapaz de ouvir um bom conselho

Tipo que morto não faria falta.

Lá um dia deixou de andar à malta,

E, indo à casa do pai, honrado e velho,

A sós na sala, diante do espelho,

À própria imagem disse em voz bem alta:

– Tertuliano, és um rapaz formoso!

-És simpático, és rico, és talentoso!

-Que mais na vida se te faz preciso?

Penetrando na sala, o pai sisudo,

que por trás da cortina ouvira tudo,

Severamente respondeu – Juízo!

Homenageio a todos os mestres que tive, na pessoa do professor Geraldo da Paixão que há muito partiu, mas deixou um grande exemplo de amor à arte de ensinar.

UTILIDADE PÚBLICA…

            Aos poucos a vizinhança foi se acostumando com aquele homem de pele escura, mal vestido, com aparência de mendigo, que dormia sob a marquise de um prédio abandonado da rua 42, próximo a minha casa em Maringá. Chegava por volta das seis da tarde,  trazendo o que parecia ser todo o seu patrimônio. Uma mochila, com algumas panelas velhas penduradas, um cobertor surrado e uma pequena pochete que trazia junto ao corpo para os documentos e alguns papeis. As vezes, quando o tempo ajudava, era visto na madrugada tomando banho no chafariz da praça. Tinha um português muito bom para um “sem teto”. Acostumamos a pensar nele como um louco inofensivo, seu nome era Gerson. Nosso primeiro contato ocorreu por acaso. Eu atravessava a rua, quando ele me abordou pedindo uma caneta para terminar uma carta. Remexi os bolsos e encontrei uma BIC que sempre trazia comigo. Fiquei curioso e não me contive. “Para quem você escreve cartas?” O homem fez uma longa pausa, depois me olhou nos olhos e disse “Se tiver tempo sente-se aí que vou lhe contar uma história”. Escreveu mais umas duas frases na carta, assinou, dobrou o papel e enquanto me devolvia a caneta começou a se abrir. “Escrevo mas não envio as cartas, não sei mais o endereço, já faz muito tempo. Não sei mais da minha família. Acho que sou do Rio de Janeiro, mas não tenho certeza. Tenho apenas alguns flashes de memória. O nome de minha mulher Marília, é das poucas coisas que me lembro. Vivíamos numa casa bonita, perto de uma estação de metrô, mas não me lembro da rua, número nada nada, por isso não envio as cartas. Acho que não temos filhos. Ou será que temos?” Eu estava cansado e com fome, mas achei que aquele homem precisava muito de mim naquele momento, então fiquei impassível ouvindo sua história, e pensando numa maneira de ajuda-lo. Continuou falando por mais de meia hora. Era uma narrativa confusa, e não consegui captar mais nada. Levantei-me fui até a padaria da esquina, comprei pão e mortadela, uma garrafa de refrigerante, levei para ele, me despedi e fui para casa. Contei para minha mulher que ao fim me disse. “Amanhã você volta lá e tire uma foto dele, vamos postar nas redes sociais”. De posse da foto pedi minha filha de catorze anos para me ajudar a “viralizar” na internet acrescida do nome, altura estimada, cor da pele, idade aproximada, e meu endereço eletrônico para contato. Nos dias seguintes recebi muitos contatos falsos, com brincadeiras de mau gosto e já estava quase desistindo quando chegou uma mensagem de Marília, com telefone para contato. Ao ligar tive certeza de que era a mulher de Gerson. Segundo suas informações ele era cirurgião pediátrico num hospital em Duque de Caxias. Após um insucesso cirúrgico em que perdera um pequeno paciente, foi submetido a um processo no Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro e considerado culpado. Entrou num estado de depressão muito intenso e um dia simplesmente desapareceu. Virou um andarilho e saiu pelo País vivendo da caridade alheia, até ser encontrado vários anos depois aqui no interior do Paraná. Marília chegou dois dias depois para buscar o marido. Fiquei feliz pelo seu emocionado reencontro com a família, e extremamente impressionado com a força das redes sociais. Quando utilizadas para o bem, essas ferramentas prestam um inestimável serviço de utilidade pública. A volta para casa fez Gerson aos poucos se recuperar e voltar a trabalhar. Nunca mais quis operar, e hoje exerce Clínica geral no Rio de Janeiro. Nunca mais o vi, mas nos falamos por telefone, geralmente por volta do Natal. Ah, na época não tinham filhos, agora têm um casal. Marília deu meu nome ao menino “Diomedes”, é muita honra!

COBRANÇAS DO TEMPO

          Aposentado e com tempo livre, Antenor  resolveu  entrar numa aula de dança de salão. Reclamava sempre de duas grandes frustrações na vida. Não ter aprendido a tocar violão e nem a dançar. Tentou quando jovem, mas conseguiu pouquíssimo progresso nas duas coisas. A primeira por falta de dom, a segunda por excessiva timidez. Agora resolveu  chutar o balde e recuperar o que ainda for possível do tempo perdido.  Clarinha sua mulher e ele, fizeram matrícula num estúdio de dança conceituado na cidade. Chegando lá, a grande maioria dos professores eram tão jovens, que Antenor teve receio de pegar sarampo ou catapora. Muito receptivos e cordiais se mostraram alegres com a presença do casal. Entraram na turma normal, pois não haviam turmas para a terceira idade. Foram feitas algumas adaptações para incluí-los, com introdução de  ritmos mais lentos que alguns nem conheciam, como bolero e valsa. À medida que foram se acostumando com os ritmos e com o grupo a coisa foi fluindo e já tirariam  nota cinco numa escala de um a dez. Mas nem tudo são flores. Quando chegou a vez do samba no pé apareceram alguns contratempos. O molejo de ambos estava  a quilômetros do ideal. O preparo físico então!  Mas Antenor não queria entregar a rapadura apesar dos seus quase setenta anos. Fez uns alongamentos mais demorados e se sentiu pronto para o famoso samba. Estava até bom enquanto tocavam sambas mais lentos. Ele ali, se sentindo um verdadeiro passista. De repente foram aumentando a velocidade, Antenor foi junto. Baixou nele o espírito do Gilberto Sorriso (gari da Sapucaí). Clarinha, mais comedida ficou só enganando naquele passinho picado. Antenor foi com tudo, se achando o máximo. O professor, vendo que ele estava segurando a onda, acelerou mais ainda e por fim cruzando as pernas, abaixou-se e fez um giro completo.  “É mole” pensou ele. Cruzando as pernas, se abaixou para fazer o giro. Deu ruim. Ouviu o estalo travando sua coluna e o som da calça rasgando nos fundilhos. Caiu sentado no meio da sala, sentindo uma dor intensa na coluna.  Acabou a aula. Não se moveu até a chegada da equipe do SAMU. Enquanto estava ali no chão sendo consolado por Clarinha e os professores, pensou “Olhando eles fazerem parece tão fácil”. Só que esqueceu-se do fator idade. Quando se vê um idoso sambando de maneira fluente, pode ter certeza que ele começou logo depois do sarampo e da catapora. Prometeu a si mesmo que vai continuar, mas nos ritmos mais adequados à sua idade. Bolero, Valsa… Acabou ali o sonho que já estava alimentando de vir a ser um mestre-sala com Clarinha de porta-bandeira. Não dá mais. Conformou-se em aceitar as cobranças do tempo.

SANTO REMÉDIO…

        Sempre tive dificuldades para dormir em viagem. Certa feita fui fazer  um curso de aperfeiçoamento profissional em Campinas-SP, e como minha mulher não pode me acompanhar deixei o carro com ela e fui de ônibus. Na volta, a conselho de um colega resolvi tomar um medicamento chamado Rohypnol, para descansar na viagem. Comprei passagem num ônibus leito para sexta feira. Antes de sair da pensão onde tinha me hospedado naquelas duas semanas, tomei o comprimido. Levando uma mala média de rodinhas e uma pequena mochila, comecei a andar em direção à rodoviária. Não era longe, uns quinhentos metros talvez, e eu tinha bastante tempo. Eram 9:40 da noite e o ônibus sairia as 10:30. Mas eu não contava com o efeito tão rápido nem tão forte do medicamento. Comecei a sentir uma tontura antes da metade do caminho. Apressei o passo já arrependido de ter tomado aquela droga, a tontura aumentando e a rodoviária não chegava. Cheguei a temer que cairia e dormiria  ali mesmo na rua.  Corri um pouco, meio em zig-zag e finalmente cheguei aos degraus da rodoviária. Fui direto ao banheiro, joguei água no rosto, na cabeça. Não queria sentar com medo de dormir e perder o ônibus, fiquei andando de um lado para o outro feito barata tonta. Por sorte o ônibus encostou na plataforma no horário previsto. Já com a vista meio embassada pelo sono consegui ler a palavra “Goiânia” no itinerário. Abri caminho entre as pessoas em direção ao cobrador que acabava de abrir o bagageiro, expliquei o meu caso e ele gentilmente colocou a minha bagagem em primeiro lugar. Com passos cambaleantes entrei no ônibus e procurei a poltrona número três. Foi a conta. recostei o banco e deitei dando Graças a Deus. Não vi quando deixamos a rodoviária, já dormia a sono solto. Acordei já com a luz do dia, olhei em volta e vi o cansaço no rosto dos passageiros. Eu me sentia bem disposto, tinha dormido umas oito horas.  Perguntei ao passageiro da poltrona vizinha onde estávamos. “Quase chegando, Falta uns trinta quilômetros”,  respondeu ele com uma certa rispidez na voz. Tentando entabular conversa eu disse “Dormi pra caramba, nem senti a viagem”. Então outro passageiro próximo se manifestou resumindo o estado de espírito de vários outros. “Você sim, agora nós quem dera. Nunca vi alguém roncar tanto, nem tão alto”. Meio sem graça pedi desculpas, mas lá no fundo pensava “Porque não tomaram Rohypnol?”.

GANHOU MAS NÃO LEVOU…

           O Jogo do bicho, é uma bolsa de apostas ilegais criada em 1892 no Rio de janeiro, baseado em 25 números cada um representando um animal. Não tenho certeza se em alguma época foi legalizado. Hoje embora ilegal, existem pequenas bancas nas esquinas das cidades, onde se pode “fazer uma fezinha” abertamente. Já houveram tempos de repressão dura, porém hoje as autoridades policiais fazem vista grossa, talvez por terem problemas mais sérios para resolver. O delegado Cirilo era,  ele próprio, adepto de arriscar um palpitezinho. Interpretava seus sonhos todas as manhãs, e se neles aparecesse algum bicho mandava o agente Felício fazer o jogo, pois não podia aparecer. Sonhei com uma borboleta, Felício  jogava na borboleta, com elefante, Felício cravava no elefante. Sonhei com um peão montado num cavalo, tocando um touro para cruzar com a vaca do Dr. Abelardo. Felício corria e registrava um “terno” onde figuravam os três animais. Tinham várias maneiras de apostar, a centena e a milhar eram as que davam mais retorno. Volta e meia o delegado acertava mas seus prêmios eram pequenos devido a modalidade de suas apostas. Tinham um grau de dificuldade baixo por isso pagavam pouco. Tratou de  informar-se melhor e um dia resolveu aplicar uma quantia maior na milhar do galo, que era o símbolo do seu time, campeão estadual. Encarregou Felício de jogar dois mil na milhar 1249  (galo) que naquele dia pagava cem vezes o valor da aposta. O agente fez o jogo e foi para casa pois o delegado tinha viajado  e ele não teria o que fazer na delegacia sem o chefe. Voltando de viagem, o delegado  já sabia o resultado, tinha dado o número 1249 na cabeça. Cadê o Felício? Ninguém sabia. Procurou o cambista que tinha feito o jogo, e soube que ele passara por ali na véspera e foram à banca onde recebeu o dinheiro através de transferência bancária. Aflito Cirilo procurou saber para onde tinham mandado a grana. Alegaram que era confidencial, sigilo bancário. Mesmo sendo policial não pôde rastrear o dinheiro pois teria que se expor pedindo autorização judicial para quebra do sigilo bancário de Felício. “Ele não pode ter feito isso comigo. Onde é que fica a ética?” disse o delegado a alguns assessores de confiança. Ninguém sabia do paradeiro de Felício.  Cirilo demorou a conformar-se com o acontecido. Tinha sido passado para trás pelo amigo. Descobriu do jeito mais doloroso que o dinheiro corrompe a grande maioria dos homens. Independente de sua origem. Anos depois, soube notícias do “amigo”. Estava em Rondônia, onde se tornara um comerciante de sucesso. Pensou em ir atrás, mas não  valia a pena, era dinheiro de contravenção. Aposentou como delegado, e nunca mais jogou no bicho. Compreendeu o ditado  “Dinheiro de incauto é matula de malandro”.

MÃE NÃO SE ENTREGA…

           O menino subia a rua todas as manhãs. A mando da mãe, costureira, ia comprar aviamentos no armarinho do seu Eliseu. Caminho conhecido, não passava de uns oitocentos metros. Certo dia desapareceu. Não voltou para casa e ninguém viu nada suspeito. Apavorada Rute ligou para a polícia que após os primeiros levantamentos não encontrou pista relevante que pudesse levar a solução do caso. Seu Eliseu afirmou que entregara ao garoto o que constava no bilhete da mãe, e enquanto anotava na caderneta de “fiado” ele se despediu e saiu da loja. O delegado disse que iriam continuar procurando, mas o mais certo é que alguém faria contato, devia ter se perdido pelo bairro, alguém o encontraria e telefonaria avisando. E se tiver sido sequestrado? perguntou um Vivinho? Ainda assim farão contato respondeu o delegado. O que mais intrigava era que o menino já tinha doze anos, era esperto, conhecia as redondezas, e estava orientado a não parar para conversar com estranhos. Rute se sobressaltava a cada toque do telefone. Já se passara um dia inteiro e nada de contato. Impaciente ligava para a delegacia a cada meia hora. Nada, nenhuma pista. Estava desesperada, com aquela demora. Aguentou mais vinte e quatro horas, sem dormir um minuto, e então  resolveu. “Se a polícia não vai, eu vou procurar meu filho”. Refez o caminho do menino naquela manhã, conversou com vizinhos, interrogou seu Eliseu novamente não obtendo nenhum progresso, ninguém dava notícias de seu filho. Andou pelas cidades próximas com fotos do menino, passava pelas emissoras de rádio, televisão pedindo apoio em sua busca sem obter progresso algum. Abandonou sua clientela de costura e dedicou-se exclusivamente ao trabalho de busca. Já estava agora há três anos procurando. Começou a desanimar e aceitar que o garoto talvez estivesse morto. A polícia havia desistido depois de seis meses, acrescentando mais um,  aos já numerosos casos de desaparecimento não resolvidos. Um dia, com pesar, resolveu encerrar sua busca e entregar para Deus. Chegando em casa, tomou coragem e começou a desmontar o quarto do filho, onde nunca mais tinha entrado desde que ele se fora. Queria doar suas roupas e seus poucos pertences, livros, chuteiras, bola, uma raquete de ping-pong que comprara para ele em São Paulo. Ficaria apenas com a lembrança de seu rosto e de seu sorriso. Folheando seus cadernos Rute leu uma frase de uma redação que o filho fizera sobre “Profissões”, em que terminava afirmando “quando crescer quero ser mágico, e trabalhar num grande circo”.  Passou então a flertar com a ideia de que o filho não estaria morto, mas teria fugido para se juntar a algum circo. Passou os dois anos seguintes, vasculhando os circos pelo Brasil afora. Fora informada que na mesma época um circo havia se instalado numa cidade próxima. Levantou o nome, mas logo veio a decepção. Tinha fechado as portas. Não desistiu continuou procurando por mágicos, assistentes de mágico em todos os circos de que tinha notícia.  Estava muito cansada, decidiu que aquele seria o último, não podia passar o resto da vida buscando talvez um fantasma. Informada pelo proprietário de que ali não haviam mágicos, virou-se para ir embora quando viu um rapaz de costas tratando dos animais. O instinto de mãe a fez parar e chamar pelo nome do filho. O rapaz se virou, era o seu menino.

ENTRANDO NUMA FRIA…

               Olhando Marina trabalhar parecia fácil. Eram dezenas de pequenas luzes que se acendiam no painel, sincronizadas com um barulho estridente cuja frequência exigia um certo tempo para adaptação. Ela tinha uma desenvoltura admirável e sendo telefonista há muito tempo dominava com maestria aqueles controles. Nas pausas de minhas funções adorava conversar com ela e admirar a rapidez e precisão com que manuseava o seu PABX. Tornamo-nos bons amigos. Vendo aproximarem suas férias, perguntou se eu não poderia substitui-la. Ponderei que não era uma função adequada para homem. Exigia atenção , concentração e um sincronismo raramente vistos no sexo masculino. Ignorando minhas recusas, ela passou a ensinar-me com uma paciência e dedicação que enfraqueceram meus argumentos. Em pouco tempo estava apto a operar aquele aparelho. Marina se sentindo segura por ter treinado um substituto entrou de férias e viajou.

           Na segunda cheguei cedo, e me posicionei para enfrentar o novo desafio. Liguei o PABX e comecei a atendera as primeiras chamadas. Estava indo até bem, apenas alguns pequenos enganos sem consequências. Lá pelo meio da manhã começou a configurar a desgraça. Uma voz feminina pediu para falar com o diretor comercial, Seu Leandro. Pensando tratar-se de uma cliente, respondi que ele não tinha chegado ainda. “Como?, não chegou? Ele disse que teria uma reunião as sete e meia”. Me ocorreu então que deveria ser a esposa dele. Marina teria tirado de letra, conhecia todas as vozes e situações de risco. Saberia que todas as segundas e quintas Seu Leandro armava aquela reunião, passava no apartamento de Celeste, um piteuzinho de quem pagava as despesas, e só depois vinha para a empresa. Com aquele abacaxi para descascar, raciocinei rapidamente e tentando parecer seguro pois a gagueira estava me traindo, disse que a reunião era no escritório de de um cliente. “Qual cliente?” perguntou ela já com a voz irritada. Disse que não sabia, mas assim que ele chegasse eu daria o recado. Ela desligou abruptamente e sem dizer mais nada. Mais ou menos uma hora depois voltou a ligar. Nesse intervalo deve ter ligado para os clientes da empresa onde achava que possivelmente seu marido poderia estar. Mulher é mulher. Olhei para a sala da diretoria e vi seu Leandro em sua mesa, então, sem avisa-lo passei diretamente a ligação. Ao atender, pôs-se imediatamente de pé e a gesticular freneticamente. Pensei, o pau quebrou. Alguns minutos depois, desligou o telefone e me chamou em sua sala. “O que você está fazendo no PABX?”. Meio sem jeito respondi que Marina estava de férias e tinha me treinado para substitui-la. “Treinou? como assim, treinou? ligue as linhas diretas e caia fora de lá. Aquilo não é serviço para homem, muito menos para um Palerma”. Nesse momento caiu a ficha. Percebi que Marina tinha me treinado apenas na parte técnica do equipamento. Esquecera de me apresentar ao lado obscuro da função, que provavelmente a mantinha no emprego há tanto tempo (mais de dez anos), e que tanto lhe favorecia por ocasião dos aumentos. Ganhava mais que alguns técnicos e engenheiros da empresa. Em troca organizava, gerenciava, e cuidava da agenda de sem-vergonhices dos diretores. Uma espécie de alcoviteira informal. Era esquiva e eficiente, não permitia que houvesse choques, superposições e sobretudo suspeitas. Ela era fera. Quando voltou de férias narrei o ocorrido. Com uma gargalhada estridente olhou para os dois lados para certificar que não havia ninguém por perto e falou: “Ensino tudo, menos o pulo do gato”. Concentrou-se novamente nas luzinhas que piscavam, e a vida prosseguiu normalmente. Aprendi a lição, hoje sou cego surdo e mudo para o que não me diz respeito e nem fere a ética coletiva.

 

CHUMBO TROCADO…

              Final de tarde quente e abafada. Abel afrouxou o nó da gravata e olhou para o relógio, eram quase seis. Vencera mais um dia de trabalho e fazia por merecer uma parada no bar do Toninho, onde se encontravam quase diariamente a mesma galera. Amigos de longa data, paravam ali para tomar umas cervejas e conversar antes de irem para casa. Falavam sobre o trabalho, planos para as férias, o chefe que é um pé no saco. E, naturalmente mulheres. Abel andava tirando os picumãs da chaminé de Cleuza, a telefonista que ficara viúva há pouco mais de um ano, e estava sendo reintroduzida no mercado. Aproveitava para contar suas aventuras amorosas, exagerando um pouco e mentindo outro tanto. Era casado, tinha dois filhos, o que não o impedia de entregar-se a seus ímpetos de Don Juan. Aproveitando as ausências, ridicularizava sua mulher por não desconfiar de nada, e expunha as intimidades de Cleuza. Era digamos assim, um devasso. Sua atitude era deplorável, mas ele se sentia o rei da cocada preta. Enquanto tomava cerveja e caldo de peixe, satisfazia sua plateia com as últimas aventuras. Quando faltava todos reclamavam, parecia radionovela. Ficavam ansiosos pelo próximo capítulo. Aos poucos Abel começou a perceber que sua mulher estava brigando cada vez menos quando ele chegava muito tarde, já não cheirava mais suas camisas, não procurava mais sinais de suas costumeiras traições. Pensou “Finalmente ela se conformou que homem é assim mesmo. Não consegue se dedicar a uma mulher só, coisas de macho. A natureza é assim, fazer o que? ”.  Tereza na verdade desencantou-se com o homem com quem se casara há quinze anos. Lutou o quanto pode, reclamou, brigou, tentou defender seu casamento de todas as formas, mas um dia se sentiu exausta. “Não dá mais, tenho que tomar uma posição. Esse ambiente de brigas e discussões frequentes está fazendo mal para as crianças”. Primeiro pensou em tornar-se uma pessoa passiva, aguentar calada as humilhações do marido, simplesmente deixar para lá, com medo das responsabilidades de seguir sozinha com os filhos. Mas o destino conspirou a seu favor.  Começou instintivamente a prestar atenção aos homens a sua volta. Não demorou para perceber os olhares languidos de Samuel, dono da Farmácia, que já tendo admiração por sua beleza, e percebendo sua situação de fragilidade, posicionou-se no tabuleiro. Conversa vai, conversa vem, até que caíram as muralhas de Jericó. Abel se condoeu todo. Como aquela cínica teve coragem de fazer isso com ele. Nunca deixara faltar nada em casa. As crianças estudavam em escola particular, onde teria falhado? Não percebeu que tinha deixado faltar a principal base para qualquer relacionamento, o respeito.  Tiveram uma conversa séria. Abel quis recomeçar tudo de novo, prometendo completa mudança de conduta. Mas era tarde. Tereza já tinha se apoderado das rédeas de sua vida. Separaram-se. Ela reconstruiu sua vida ao lado de Samuel a quem seus filhos adoravam. Quanto a Abel, continua frequentando o Bar do Toninho, com a mesma turma de amigos salvo alguns que morreram de complicações do alcoolismo. Provavelmente contando as mesmas fanfarronices de sempre. É a vida como ela é.

LERDEZA SEM LIMITES…

               Maurício sempre foi um cabeça de vento. Esquecia com frequência até suas atividades mais corriqueiras. Se a mulher pedia para fazer alguma coisa era bobagem, ele esquecia. Nunca se lembrava onde deixara as chaves do carro, pagava as contas com atraso. Boa praça, contador de causos, sobretudo os que envolviam sua profissão, respeitados os limites da ética. Era anestesiologista. O único lugar em que conseguia se concentrar era dentro de um centro cirúrgico. Ali era um profissional de mão cheia. Muito solicitado pelos colegas pela competência, e pelo alto astral que trazia para o ambiente austero da sala de cirurgia. Mas assim que deixava o recinto começavam as “avoações”.  Certo dia saiu antes dos colegas pois tinha em sua agenda outra cirurgia dentro de trinta minutos em outro hospital. Chegou ao vestiário apressado, vestiu-se rapidamente e partiu acelerado para o outro compromisso. Quando o cirurgião chegou para trocar de roupa constatou que Maurício vestira a sua. A que estava no cabide não servia nele pois era muito mais gordo. Conformado foi para casa com a roupa de cirurgia. Era seu costume dar cheques pré-datados e mesmo anotando a data no canhoto, raramente se lembrava. O gerente do banco vivia salvando sua pele. Marcava compromissos e não aparecia. Não fazia por mal, apenas não se lembrava. Ele próprio contava suas façanhas e ria as gargalhadas para desgosto de Luiza, sua mulher. Num sábado acompanhou a mulher e a filha ao shopping. Quase nunca ia, mas nesse dia parecia disposto. Estacionou o carro, e não querendo ficar aborrecido com a demora da mulher em decidir o que queria, disse que ia tomar um café e depois esperaria na livraria. Tudo combinado, as duas saíram aliviadas para as compras, estariam livres das reclamações dele.

                 Já  estava naquela livraria há mais de uma hora. Após ler a “orelha” e folhear uns dez livros, optou por um pagou, e foi embora. Assustou-se com o barulho do telefone, tinha cochilado no sofá. Atendeu com voz de sono e levantou-se num salto. “Onde está você mulher? Que brabeza é essa?  No shopping? Fazendo o que?   Eeeeu leveeeei? Ficou imóvel com o telefone no ouvido ainda ressoando as últimas palavras da mulher: “Não precisa vir seu imprestável, vamos de taxi”.  Então caiu na real, olhou no bolso da camisa e viu o ticket do estacionamento. Teria que voltar ao shopping de qualquer jeito. Também tinha vindo de taxi.

O BEDEL BATIA FORTE…

A Escola era uma das mais conceituadas entre as de nível médio. Combinava ensino tradicional com ensino profissionalizante. Era pública,  e naquele época as escolas públicas eram tão boas ou melhores que as particulares. Ali entrava-se através de uma prova de seleção honesta,  e bem elaborada. Não havia protecionismo por parte de ninguém. Entrava quem tivesse as melhores notas e ponto final. Vinham alunos de locais muito distantes, Toncantinópolis, Porto Velho e outras lonjuras  pelo Brasil afora. Uma parte dos alunos eram internos. Tinham alojamentos confortáveis, salas de estudo para o período noturno, quadras de recreação que podiam ser usadas até as 21:00hs.  Para cerca de 250 alunos internos a escola tinha um funcionário encarregado da ordem e disciplina, um bedel. Não me lembro do seu nome, atendia pelo apelido de Moró. Natural de Arraias (hoje no Tocantins), era baixo, atarracado, branco, de olhos claros, características pouco comum em pessoas da sua região. Viciado em exercícios físicos, estava sempre em forma. Tinha uma maneira curiosa de impor sua autoridade. Se ocorriam deslizes por parte de um determinado aluno, primeiro o advertia, se reincidisse era convidado a escolher uma das alternativas: 1 – Enfrenta-lo no ringue com luvas de boxe. A escola dispunha de um. 2 – Preferia ser denunciado a diretoria, nesse caso as punições poderiam chegar até a exclusão do internato. Aqueles com faltas mais graves e reincidentes optavam pela primeira proposta. Moró batia forte, praticava boxe há muito tempo. Não posso afirmar com certeza, mas acredito que era seu momento de autoafirmação. Considerava aquilo um método eficaz. Depois dos curativos a vítima já saía dali regenerada. E, pasmem, os alunos o adoravam. Com exceção do método que considero exagerado embora eficaz, essa estória se encaixa bem num debate contemporâneo sobre a relação de alunos e professores. Para acabar com a falta de respeito e agressões aos mestres é necessário que restabeleça a ordem e a disciplina. A primeira pode até ser ensinada, mas a segunda tem que ser imposta. Não precisa ser com o sádico método de Moró, mas precisa ser imposta. As escolas não conseguem corrigir a falta daquilo que deveria ser ensinado em casa. Boas maneiras, respeito às outras pessoas, sobretudo as mais velhas. Recebem pedras brutas e são encarregadas de lapidá-las, porém sem os instrumentos necessários. Hoje os valores se inverteram, as escolas públicas são muito piores que as particulares, embora ambas tenham problema. Professores pessimamente remunerados e desmotivados expostos a arroubos de valentia de jovens mimados e inconsequentes. A reforma do sistema educacional deveria começar por reforçar o apoio e devolver a autoridade ao professor em sala de aula. Esperemos que isso venha a acontecer num tempo o mais breve possível para que a paz volte às escolas.